Para um baiano, três anos na fria cidade de Londres não podem ser fáceis. E para Caetano, não o foram: Caetano classificou, em tempos, a sua experiência na cidade “escura” como uma altura em que se “sentiu longe de si”. O exílio forçado da terra natal viu o músico a instalar-se na fria Europa, mas nem o gelo o impediu de conservar o baiano que conservava dentro de si e vertê-lo sobre os discos que lá gravou.
“You Don’t Know Me” é um grito de revolta e de saudade, de melancolia e de coragem. Podemos imaginar Caetano, sozinho e apertado sobre camadas e camadas de casacos sob um frio de inverno para o qual a infância tropical não o preparou. Num país que não é o seu, proibido de entrar onde nasceu, proibido de voltar. Sozinho. Ninguém aqui fala a sua língua mãe, ninguém o compreenderá se falar de samba ou de praia. “You Don’t Know Me” começa precisamente com essa tortura mental, esse abandono à pátria e a si próprio; e explode no seu próprio grito de Ipiranga, ora em inglês, ora em português, porque afinal, o que importa? E quando Caetano agradece, sob a precursão obstinada, ao povo brasileiro – “norte centro e sul inteiro / onde reina o baião” – nós, que não somos nem brasileiros nem londrinos, não conseguimos controlar um arrepio na espinha.