Houve muitas mãos no ar no dia do Hip Hop no MEO Kalorama – da tradição de Criolo, Amaro & Dino à estranheza rock de Vince Staples, passando pelas lendas de Sam the Kid, e , claro, Lauryn Hill.
O segundo dia do MEO Kalorama prometia ser mais coeso – dia do Hip Hop. Num dia claramente mais cheio que o anterior, com a mistura de públicos a ser menos um problema e com o concerto de Lauryn Hill como elemento conciliador de todos os presentes no parque da Bela Vista, o dia prometia algumas surpresas – o concerto de Dry Cleaning ao início da tarde traria rock londrino, havia curiosidade de ver Vince Staples, e a preponderância de nomes portugueses também nos deixava água na boca.
Chegámos ainda a tempo de apanhar a festa de Femme Falafel. Num horário ingrato (15h25), hora a que o parque da Bela Vista tem poucas sombras, a subida do vale para chegar ao palco Sagres pareceu-nos hercúlea. Ainda assim fizemos o esforço e fomos recompensados. Raquel Pimpão e sua banda não pareciam incomodados pela plateia mais esparsa e os fãs que fizeram por chegar cedo estavam a fazer a festa por eles e pelos que ali faltavam. Apanhamos “Taj Mahal” e “Tosta de Abacate”, duas excelentes canções que não entraram em Dói Dói Proibido, o seu primeiro álbum, lançado em 2025 e a sua “primeira musica de intervenção” – “Floresta da Amazónia”. A já clássica “Depressão” ficou para o fim mas, infelizmente, não foi ouvida até ao fim porque importava descer até ao palco principal para ouvir bem um dos nomes mais interessantes do dia.
Se chorámos quando os Unknown Mortal Orchestra cancelaram o concerto deles no festival, rejubilámos quando descobrimos que seriam substituídos por Dry Cleaning para depois voltarmos a chorar quando percebemos que o horário foi trocado e que estes tocariam às quatro da tarde. A banda londrina não pareceu minimamente incomodada com o parco público que tinham à frente e deram um concerto fenomenal, em que revisitaram temas dos seus primeiros EPs, decisão curiosa dado o lançamento recente do seu terceiro álbum Secret Love. Florence Shaw recita as suas letras com o alheamento de quem está no quarto sem ninguém em casa, rodeada por matulões que extraem explosões ultrasónicas dos seus instrumentos como se a sua vida dependesse disso.
Bruno Pernadas, o nome seguinte no palco MEO, dispensa apresentações nesta altura do campeonato. Da última vez que o vimos, a estrear material do recente unlikely, maybe o guitarrista e compositor estava mais reticente, a banda menos oleada. Tudo isso foi esquecido neste concerto. O combo lisboeta entregou-se ao material com o à vontade a que fomos habituados desde sempre, com destaque para a saxofonista Maria João Leite, que teve direito a vários solos pirotécnicos assim como a vocalista convidada Maya Blandy que também ornamentou vários dos temas com as suas fantásticas acrobacias vocais. O próprio Pernadas não se coibiu de nos impressionar com um solo de cerca de duzentas notas por segundo no final do concerto. Irrepreensível como sempre.
Continuando na lusofonia, era hora de subir ao palco secundário para ouvir Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago a mostrar as canções do seu disco colaborativo lançado em janeiro, Criolo, Amaro & Dino. Com Amaro Freitas sentado em frente a um imponente piano de cauda, Dino e Criolo foram mestres de cerimónia à vez, cantando ora canções do seu disco conjunto, como “Você Não Me Quis”, “Ela é Foda”, a primeira canção que compuseram juntos, e “Fogo Lento”, ora canções das respectivas carreiras como “Não Existe Amor em SP”, canção de Criolo que pôs o público do Kalorama a cantar. Todos os músicos em palco mostraram ter uma presença contagiante individualmente mas a conjunção das suas energias criou no palco Sagres uma belíssima festa de pôr-do-sol, onde todos dançavam. O hip-hop, tocado com instrumentos de verdade (inclusivamente uma deliciosa flauta transversal de madeira), encontrou-se ali com o funk e com o funaná, tendo havido ainda tempo para Dino mostrar as suas habilidades com o ferrinho.
De volta ao palco principal, a t-shirt de Geese que Vince Staples vestia permitiu-nos antever que isto não seria um concerto de hip-hop normal. Por entre riffs rasgados e ritmos de chumbo, o rapper fez-se acompanhar por uma jovem banda de rock, narrando as suas vivências na sua nativa Long Beach na Califórnia, e no estranho momento pelo qual os Estados Unidos estão a passar neste momento. MC enérgico e autoritário (começou o concerto a admoestar o público sentado na parte de cima do anfiteatro da Bela Vista), Staples mostrou uma humildade e vulnerabilidade que não é costume no hip-hop, mostrando-se agradecido pela quantidade de pessoas que estavam lá para ver um “artista não muito conhecido” como se apelidou. O concerto pecou, no entanto, pela péssima qualidade de som que privilegiou a bateria, reduziu as guitarras a um ruído agudo e colocou a voz do rapper abaixo disso.
Outro momento agridoce deste dia foi a substituição de Black Star, duo de hip-hop de culto encabeçado por Yasiin Bey e Talib Kweli por Sam The Kid, a fazer-se acompanhar por Orelha Negra e orquestra. Apesar de ser menos imperdível, por ser “da casa”, não deixámos, no entanto, de ficar bem entregues. Prova disso mesmo foi a enchente que ocorreu ao palco Sagres para ver um dos nomes maiores do hip-hop português, deixando-nos a perguntar se não teria feito mais sentido colocar este concerto no palco principal. “Boa noite Chelas”, saudou Samuel Mira, o puto Samuel, com a confiança de quem não tarda poria aquela plateia – que só deve ir a Chelas quando há festivais de verão – a cantar “Chelas é o Sítio”. Foi um concerto com poucos ou nenhuns artifícios (ao contrário do concerto que veríamos logo a seguir) e ainda bem. Sam The Kid é verdadeiro e entrega as suas rimas (ora sozinho, ora acompanhado por Mundo Segundo) com uma força e profundidade que só são aumentadas pelos acrescentos dramáticos da orquestra e pela performance irrepreensível dos Orelha Negra, que nos deram, mais uma vez, hip-hop tocado com instrumentos de verdade. Não é preciso perceber o hip-hop para ser contagiado por um concerto de Sam The Kid, a sua entrega, assim como a de todos os músicos que o acompanham, a força das suas letras e o efeito que conseguem ter num conjunto tão grande e diverso de pessoas falam por si.
Finalmente, o grande trunfo da noite e talvez de todo o festival. Lauryn Hill, de regresso aos palcos. Será que ia mesmo acontecer? Será que ia atrasar? Nem demos por isso. Assim que Lauryn Hill subiu ao palco, acompanhada de Wyclef Jean e a sua horda de dez músicos, fomos irremediavelmente transportados para uns anos noventa mágicos em que não faltou nada. Afinal de contas, estávamos a celebrar os trinta anos do incontornável The Score. “Ready or Not”, “Fu-Gee-La”, “Killing Me Softly” deixaram o público ao rubro.
No entanto, como muitas das coisas que dizem respeito a Lauryn Hill, não foi sem os seus percalços. Apesar dos seus filhos, Zion e YG Marley estarem no cartaz, não estávamos a contar que cada um tivesse direito a um mini-set dentro deste concerto, que foi sucedido por um set semelhante encabeçado por Wyclef Jean. Tudo somado, foram aproximadamente quarenta e cinco minutos de um concerto de Lauryn Hill em que esta não esteve presente. Não haveria problema em destacar os outros vocalistas, mas três canções por artista foi excessivo, assim como a seleção dúbia de material. Precisávamos mesmo de ouvir três versões de Bob Marley? De ouvir “Hips Don’t Lie” com uma das vocalistas de fundo a cantar as partes de Shakira? Num concerto de Lauryn Hill?
A maior tragédia talvez tenha sido essa. Quando finalmente ouvimos “Ex-Factor”, “Doo Wop” e “To Zion”, qualquer boa vontade que tenhamos ganho no início do concerto estava esgotada. O hype man ter poluído as canções repetindo “Make some noise” como se recebesse à comissão também não ajudou. É difícil fazer uma apreciação deste concerto. Quando foi bom, foi transcendente. Quando foi mau, fez-nos desejar sair dali o mais rapidamente possível.
Das substituições de última hora que até correram bem ao agridoce concerto de Lauryn Hill et al, o dia, que era para ser do hip-hop mas que acabou por ter também rock, jazz, reggae, e eletrónica, teve altos e baixos. Será que faz sentido tentar circunscrever um género que engloba tantas influências e tantas culturas num só dia de festival? A verdade é que se notou uma energia diferente no segundo dia do MEO Kalorama, como se todos os concertos estivessem a ser absorvidos de forma mais intencional pelo público. O dia acabou por ser de Vince Staples, de Criolo, Amaro & Dino e de Sam The Kid mas, infelizmente ou não, é de Lauryn Hill que nos vamos lembrar. Embora a performance da cabeça de cartaz tenha deixado bastante a desejar, o momento não deixa de ter sido histórico e, um dia, todos poderemos dizer que vimos os Fugees vivo.
O último dia do Kalorama promete ser mais rock, com Turnstile e Deftones como chamarizes principais. Lá estaremos para averiguar se a boa energia se mantém ou se é algo que só os artistas de hip-hop conseguem capturar.
Texto de Ana Lúcia Tiago e Miguel Moura. Fotos de Inês Silva















