Primeiro dia do festival. Bandas em destaque: Westside Cowboy, Greg Freeman, Horsegirl, The Horrors e ainda memórias do primeiro eclipse total desde 1999.
Não posso dizer isto em voz alta, nem escrevê-lo num tamanho de letra normal. Aqui entre nós, esta é a minha primeira vez no Paredes de Coura. Sou assíduo do Sonic Blast e levar com dois festivais de seguida nas trombas já não é aconselhado para alguém relativamente jovem como eu.
E agora peço ao deus do Altamont que meta esta confissão vergonhosa num tipo de letra mais pequeno ou até que a censure com uma clássica tira de marcador preto. Porque mais vale tarde do que nunca, certo? (nota de editor: Certíssimo, caro Tiago, é um prazer propiciar primeiras vezes a escribas relativamente jovens) O que é que uma pessoa há-de fazer? É agarrar na acreditação, esperar que Paredes de Coura tenha óculos para o eclipse e ir direto para o palco principal, ter com amigos, depois de uma viagem de inúmeras horas, para ver os Westside Cowboy de Manchester.
Querem um facto bastante fixe, revelado na NME (portanto há credibilidade) mas que está na Wikipédia para todos verem? Disse Jimmy Bradbury sobre o nome da banda: “os locais (em Nova Iorque) não sabiam o que eram comboios e as pessoas eram atropeladas. Portanto, para controlar velocidades, eles arranjaram uns tipos para cavalgarem junto dos comboios chamados westside cowboys.”
Sinto que eu próprio fui um westside cowboy junto de um comboio chamado Westside Cowboy que andava a mil à hora. Pelo menos, no que toca às minhas emoções. Porque, sejamos honestos, a maior parte do que irei ouvir no Paredes de Coura (ou talvez aquilo que mais procure) são pedaços alternativos de música com letras frágeis com que me identifique no meio de guitarradas fortes e baterias descontroladas. Um excelente remédio para não me sentir tão em baixo (boa, consegui aqui meter o nome do instrumento que faltava).
E os Westside Cowboy fizeram isso mesmo. Um comité explosivo de boas-vindas em que a voz feminina de Aoife Anson O’Connell foi a cereja no topo do bolo e a bateria minimalista, mas criativa, de Paddy Murphy se destacava como uma maravilha absoluta. No final do concerto, um amigo disse que eles irão ser grandes num futuro próximo. Discordo. Grandes já são, agora só espero ansiosamente quando não os conseguir olhar nos olhos por serem gigantes.
Até isso acontecer, há Greg Freeman. Ou seja, mais umas fatias daquele rock que eu descrevia ali em cima e de que eu tanto gosto. E o Greg e a banda dão-lhe bem. O volume está para lá do sítio certo, e a voz desafina tanto como eu me comovo. Se isto está a ficar meio piegas, é porque é verdade. Tão verdadeiro como a música. À medida que o concerto vai avançando, o rapaz dividido entre Maryland e Vermont (obrigado, Wikipédia) continua a conquistar-me com um volume gradualmente mais intenso. Pelo menos, é o que me parece. Mas, boas notícias, se for só impressão minha e se eu estiver a amplificar apenas dentro de mim, é mais do que um sinal de excelência. É prova de que a banda me conquistou. Greg, se estiveres a ler isto, fui um Freeman durante o teu concerto. E nem vou esperar até ao final do texto para dizer que foste o meu preferido do dia. Que se lixe quem diga que não e que se lixe quem não goste de ti por não teres uma voz perfeita. Essas pessoas não te merecem.
Westside Cowboys, Freemans, cavalos e, agora, Horsegirl.
De Chicago, Illinois. Elas não estão a cavalo, mas têm “Horse” no nome e conseguem abrandar este comboio metafórico de Paredes de Coura. Não num sentido negativo, nem pensar. Simplesmente são mais calmas, mais comedidas mas não menos introspetivas e sensíveis. Aliás, fiquei tão impressionado que vou clicar vezes sem conta no concerto da banda na KEXP para que esse se torne viral. Nunca irá acontecer, eu sei. Mas irei continuar a tentar até não ouvir mais nada na cabeça a não ser as harmonias delicadas das vozes de Nora Cheng e Penelope Lowenstein (até ver, sem grau de parentesco com o Jason dos Sebadoh). Resumindo, Horsegirl têm horse power!
Mas esperem. Ouve aqui um fenómeno pelo meio que eclipsou os First Breath After Coma com o Salvador Sobral e a disposição cénica bastante meticulosa deles no palco principal. Estou, pois claro, a falar da famosa tripa com ovos moles do Zé da Tripa.
Não, não estou. Estou a falar do eclipse solar que foi absolutamente incrível (não que a tripa não tenha sido) e que mobilizou todos os que conseguiram arrancar óculos das mãos de um cadáver mais próximo tal não foi a escassez de stocks e sensação de FOMO provocada por algo que nos seria capaz de provocar danos irreversíveis na visão num pestanejar de olhos.
São os horrores desta vida, não é verdade?
Não, são os The Horrors de Essex e a sua mistura cativante de todos os géneros musicais que conseguiram aspirar debaixo da carpete. Eu cá inspirei tudo e saí, mais uma vez, mais do que satisfeito por ser testemunha ocular de uma banda que ainda não tinha visto ao vivo. E não é que eles sejam difíceis de apanhar por terras lusas. Aliás, é apenas a décima vez que cá estão. Pelo acolhimento caloroso do público, parece que todos saíram de medidas cheias. Especialmente aquele amigo que apanhou um dos alinhamentos em papel no final do concerto.
Mais bandas passaram, mais bandas tocaram. Ainda deu para relaxar um bocadinho na “Chaise Longue” dos Wet Leg ou complementar o que não vi dos Kneecap no Primavera com um público absolutamente em delírio pelo cocktail explosivo dos irlandeses de Belfast.
Coura, percebo agora a razão pela qual és tão amado. Vemo-nos amanhã.
Fotografias: Melissa Dores




















