It Goes On é um disco de guitarras, sim, mas não é simplesmente mais um daqueles discos de indie-rock britânico, que parecem ter sido fabricados para preencher festivais.
O Paredes de Coura é o meu festival português de eleição. Há algo naquela encosta que me arrebata sempre que chego e vejo o palco lá em baixo, um anfiteatro natural perfeito para a prática da audição de música ao vivo. Será também o cantinho de paz total onde fico sempre que lá vou, será o relembrar dos momentos ali vividos em edições passadas, será sobretudo a quase sempre incrível escolha de cartaz. Este ano, no entanto, o alinhamento não me apelou assim tanto e queria muito descobrir o Bons Sons, pelo que falhei a ida. O acompanhar ao longe trouxe-me estes Westside Cowboy.
Da crítica que o companheiro Tiago Laranjo fez realço as palavras “Um comité explosivo de boas-vindas em que a voz feminina de Aoife Anson O’Connell foi a cereja no topo do bolo e a bateria minimalista, mas criativa, de Paddy Murphy se destacava como uma maravilha absoluta.” Isto levou-me a fazer algo inédito na minha experiência de treze anos que levo como utilizador do spotify – clicar no botão pre-save para ter o álbum na lista assim que saísse, enquanto ouvia em repeat os singles já lançados (“Kick Stones (The Boys)”, “Pin Up Boys” e “Dobro”).
Para adicionar ao processo de conquista antes de existir álbum, vi a capa do mesmo. Olhei para aqueles prédios e houve uma avalanche de familiaridade, a conjugação do branco e bege nos mesmos transportou-me imediatamente para o bairro onde cresci. How the fuck, you mancunians? Mas talvez tenha sido uma boa maneira de entrar neste disco: através de uma sensação de pertença que não sabemos muito bem explicar. Porque em todos os seus cantos há um sentimento de acho que já ouvi isto nalgum sítio, mas não sei bem onde.
(um pouco de wikipedia não faz mal a ninguém) Os Westside Cowboy são de Manchester, formaram-se em 2023 e são compostos por Reuben Haycocks, Jimmy Bradbury, Aoife Anson-O’Connell e Paddy Murphy. Chegaram aos escaparates a uma velocidade pouco recomendável para quem acabou de sair da universidade: venceram o concurso de novos talentos do Glastonbury em 2025, assinaram pela Island e, entretanto, começaram a aparecer um pouco por todo o lado.
It Goes On é um disco de guitarras, sim, mas não é simplesmente mais um daqueles discos de indie-rock britânico, que parecem ter sido fabricados para preencher festivais. Há country, folk, Americana, pós-punk, alguma coisa dos Velvet Underground, dos Feelies ou dos Parquet Courts. A própria banda chamou à sua primeira fase “Britainicana”, uma espécie de piada que acabou por ganhar vida própria.
“Kick Stones (The Boys)” abre o álbum como quem atira uma pedra para uma janela e depois fica à espera para ver o que acontece. “Paperchains” acelera, “Dobro” deixa entrar um romantismo quase inesperado e “Well Done Kid, You Did It” transforma a ansiedade de crescer numa espécie de hino geracional. Depois há “Coyote”, “Patchwork” e “Take My Leaving As I Love You”, momentos em que a banda baixa a guarda e deixa que as canções sejam simplesmente bonitas.
Now I’ll leave you alone
Now I’m sure that it is best
Please takе my leaving as “I love you”
As my last leaving promisе
O álbum tem onze músicas e pouco mais de 35 minutos, uma duração que parece cada vez mais rara num tempo em que toda a gente parece ter medo de deixar alguma coisa de fora.
Mas “Worried Age” é o centro emocional de It Goes On. Um potencial grande hino que ficará deste disco. Sobretudo porque transforma uma ansiedade muito específica da juventude contemporânea numa coisa quase colectiva. Aquele estado de inquietação permanente, em que sabemos que devíamos estar a avançar, a fazer qualquer coisa, a tomar decisões, mas somos incapazes de arrancar. A imagem de Reuben sentado no carro, com o motor desligado e as mãos agarradas ao volante, é quase perfeita: há movimento dentro da cabeça, mas o corpo está parado. Em cima disto, há o magnífico “We are the worried age”. O “we” é fundamental, não é “eu estou preocupado”; é “nós somos uma geração preocupada”. Há ali medo de falhar, medo de desperdiçar tempo, medo de não estar à altura das expectativas, mas também uma espécie de culpa por não conseguirem fazer mais para resolver um mundo que parece cada vez mais difícil de compreender.
E depois há as vozes. Foi claramente mais uma variável que me cativou nos Westside Cowboy, o facto de não existir uma voz que domine permanentemente o disco. Reuben Haycocks e Jimmy Bradbury alternam na frente, enquanto Aoife Anson-O’Connell acrescenta outra dimensão às canções. As vozes mudam, cruzam-se, aproximam-se e afastam-se. Por vezes parecem quatro amigos a cantar juntos; noutras, parecem personagens diferentes a entrar e sair da mesma história.
Em It Goes On existe pouca preocupação com a perfeição, e isso percebe-se particularmente em “Pin Up Boys”, onde a voz de Aoife surge quase como um grito lançado contra a própria gravação, enquanto noutras canções tudo é muito mais delicado. Transparece uma inocência de se estarem a descobrir enquanto tocam, há juventude, ansiedade, entusiasmo, dúvidas e uma vontade infantil de experimentar uma coisa só porque parece divertida. Tal como eu fazia, enquanto passeava de bicicleta ou me juntava com amigos em pátios, entre prédios exatamente iguais aos da capa de It Goes On. Fez-me pensar que os lugares onde crescemos nunca ficam para trás, mesmo que já não lá estejamos fisicamente todos os dias. A memória caminha de mãos dadas com o presente em todos os momentos.