Dizem estar quase lá, mas o trio de Amherst conseguiu mesmo tirar mais um disco da cartola, ainda que com partes sobresselentes de tudo o que veio para trás.
Conta a Rolling Stone, num artigo que tenho de desbloquear através de um outro site totalmente legítimo, que os CD tiveram um crescimento de 16% na primeira metade de 2026 entre a geração Z e os millennials. Talvez para não contrariar nenhuma estistíca do arco da velha, ou talvez porque os Dinosaur Jr. são a minha banda de eleição, decidi livrar-me do vinil muito colorido que tinha açambarcado em pré-encomenda para surripiar o CD nipónico da banda de J Mascis, o sexto desde que regressaram na formatura original com Beyond, há já quase 20 anos, e que sucede ao manco Sweep It Into Space (um disco com uma parceria comprometida de Kurt Vile devido a um evento mundial que aconteceu em 2020, já nem sei bem o que foi).
Desde o álbum esquizofrénico de estreia da banda que J não se ligava a um amplificador Mesa Boogie MK I, popular nos anos 70, para gravar algo. Diz o próprio Mascis que a ideia veio do velho conselho dado por Rick Rubin a todas as bandas – que elas oiçam o primeiro disco que fizeram para nele procurarem a sua essência. J ouviu o que tinha a ouvir em Dinosaur, de 1985, e descartou o resto. Fiéis, não se enganem. Sim, a guitarra está mais vibrante e com cheiro a queimado. Mas o som da banda está plantado, e acimentado por cima, em tudo o que a banda fez desde o seu regresso e não nos longínquos dias ruidosos da Homestead ou da SST.
Hoje em dia, os Dinosaur Jr. são os Ramones e os AC/DC do indie. Uma banda de conforto. Estão estanques numa certa estrutura, num certo som e numa certa fórmula. E não há nada de errado nisso. Isto não é uma crítica, é a realidade, há quem goste, há quem prefira outras épocas mais arriscadas da banda. Quem sentir saudades, poderá
certamente ouvir o subvalorizado Hand It Over sempre que quiser ou até aventurar-se para territórios nebulosos com o projeto de J Mascis + The Fog. Por agora, em 2026, estes são os Dino que temos e, se ouvirem tanto J como Lou em entrevista, está tudo mais do que bem. Os álbuns são gravados confortavelmente, da mesma forma, nos estúdios Bisquiteen desde 2007. E não, não estamos a falar de nenhuma meca esquecida do mundo sónico. Trata-se apenas do último andar da casa de J Mascis (que veio substituir a cave chamada Bob’s Place, que ardeu em 2003).
A primeira faixa no disco é “Several Got Away” e, dado que J costuma meter a sua música de eleição de cada álbum em primeiro, esta é a sua preferida. É certamente das que mais fica no ouvido durante toda a duração de There Near, graças a um riff gostoso que quase parece feito de pastilha elástica e que consegue desembocar num solo particularmente estridente. Uma excelente escolha para primeiro single e uma das músicas mais airosas da banda, que levou com um vídeo bastante criativo do realizador Guy Kozak.
“No Friends” não demora a chegar e, se não perceberam pelo título, a melancolia acabou de ser aumentada. Não se preocupem porque J faz questão de o vincar logo nas primeiras linhas da música. Certo, é por isto que sou um ouvinte assíduo. Porque nenhuma outra banda consegue cortar de forma tão certeira até ao osso solitário que
todos nós temos, enquanto que o fura com um ruído mais concentrado que qualquer sumo da Compal. E eu que lhe chamo néctar dos deuses. Venha a próxima!
Esperem, que esta ainda é mais devastadora. Em “Everything at Once”, J consegue cantar, várias vezes, que alguém não quer o seu amor. É das músicas mais leves do disco, ao mesmo tempo que acaba por ser das mais pesadas. Uma brisa triste, que nos refresca e nos relembra de tudo aquilo que nós queremos ouvir destes tipos adoráveis. A cantiga perfeita para trazer à baila aquela memória agridoce que nos assombra durante toda a duração da música. Mais uma vez, espreitem o videoclip (também realizado por Kozak) e que acompanha um rejeitado e cabisbaixo soldado de uma feira medieval rasca. Quem nunca, amigos. Quem nunca.
Não se preocupem, as coisas animam-se em “Take Me With You”. Mas só por um segundo, porque rapidamente nos apercebemos que o comboio alucinante que Mascis e Murph estão a conduzir é mais um grito incompreendido a quem quer que tenha ficado num apeadeiro emocional abandonado lá atrás. É daquelas que não tem rei, mas muito roque (se me permitirem um bom cliché português). Para os clássicos dos anos 90, faz lembrar a igualmente desbravada “On The Way” do inigualável Where You Been.
A primeira das duas músicas obrigatórias do baixista Lou Barlow aparece aqui e dá uma guinada para território igualmente pessoal, mas enquanto laracha política, e direcionada a quem nós tanto sabemos. “Blowin’ Up”, apesar de ter um título à J, é uma investida corajosa e sonante de Barlow. Talvez a Pitchfork não tenha tido a paciência necessária para a música, mas boa sorte a tirarem-na dos vossos ouvidos. Por um lado, é uma amálgama de várias ideias que o próprio Lou já tinha em arquivo há alguns anos. Por outro, é das faixas mais urgentes e precisas de todo o disco. Pode não ser terreno familiar para a banda, mas é um bom desabafo em conjunto. Como se isso não bastasse, tem um vibraslap que parece ter vindo do baú do Vic Maile e dos seus tempos com os
Motörhead e as Girlschool.
Já devem ter percebido que isto vai ser faixa a faixa. Se estavam à espera disso? Não sei. Se eu estava? Podem crer que não. Culpem o excelente limoncello que comprei no Aldi, a menos de 5 euros, antes de começar a teclar isto tudo. Dito isso, J volta com “Gone Off” e invade-nos o canal esquerdo (se tiverem os auscultadores bem postos) para mais uma chinfrineira de alma perdida como só ele sabe fazer. “I got lost, baby. I got lost”. Sim, J. Mas a gente encontra-se a meio e chora um bocado. Mais um banger, portanto.
“Clam Along”. Talvez a minha preferida no esqueleto original de There Near (espero que não se tenham esquecido que comprei a versão japonesa). Uma riffalhada que vai com bilhete de ida, sem volta, até qualquer coração partido que se preze. Se as guitarradas não bastassem, temos J a rimar “lonely” com “only”, “fading” com “waiting” e outras preciosas deixas de J Mascis que cortam, cicatrizam e embalam. “It’s been torture. Did you see her?”. Não, J, não a vi. Mas acho que tu também não, ou não nos estarias a cantar este belo hino de dor.
Para os mais exigentes, ou atentos, a maior parte da reciclagem de J começa aqui. Volto a frisar que não me estou a queixar, mas nota-se a botija de gás a desvanecer. “Walk Me Back” é tão encantadora (e parecida) a “Take Me Back”, do disco anterior. Segue-se “Read the Room” que vai mordiscar a própria “Several Got Away”, que abre There Near, e a para lá de deprimente, e fazedora de lágrimas, “Put It Down” bebe um bocado da igualmente triste “Said The People”, de Farm, mas que nos dá uma das frases mais diretas e confrontacionais de J quando este canta “Where the fuck are you?”.
A fechar (e a abrir) a rasgar temos “No One’s Ready”, a última música de Lou Barlow no disco e a sua composição mais explosiva desde “Lose” no seminal You’re Living All Over Me. E, novamente, Barlow arranca a bandeira do chão e corre com ela até à meta com mais um hino anti-guerra e, por todas as vezes que já compararam J a Neil Young, é Barlow que leva a coroa aqui ao fazer lembrar a mesma forma abrasiva com que Neil e os Crazy Horse fechavam o para lá de subvorizado Re·ac·tor, de 1981, com “Shots”. É uma excelente música e uma prova que Lou Barlow merece um disco que compile tudo o que já fez para os Dinosaur numa só obra.
E este seria o final do álbum…
… se aqui o mega fã idiota não tivesse comprado o CD japonês.
Não só comprei, como partilhei as duas músicas restantes no YouTube para que qualquer comum mortal as possa ouvir como continuação deste There Near. E a primeira chama-se “Stay Warm”, uma sequela espirtual a “There’s No Here”, também do adorado Farm, mas que é forte o suficiente para não se perceber a sua exclusão do álbum internacional. Faixas bónus japonesas são todo um mundo à parte, não só no universo Dino como noutros, mas é especialmente doloroso saber que uma música como esta será relativamente esquecida. Segue os passos de outras tiradas fantásticas da banda como “Turnip Farm” e “Forget It”.
Agora sim, para fechar temos “Broke the Bubble”. Se o vosso cérebro ainda não estiver feito em papa com tanta faixa obscura, esta também é conhecida como “Turning Sour” num disco de 7 polegadas para quem comprou uma edição qualquer limitada em vinil, e vai mordiscar a “Take Me Home” do esquecido, e bem mais calmo, J + Friends Sing +
Chant for Amma – uma das muitas homenagens sentidas de J à líder espiritual Mata Amritanandamayi. Não se preocupem, os solos e a solidão estão lá. Aliás, é impossível ficar indiferente quando se ouve J a cantar algo como “Kick you when you’re down, Wish I never met you”.
O texto vai longo e esta versão completa de There Near também. Será um disco essencial para uns e descartável para outros. Acho que já deu para perceber em que lado do campo é que estou. Democrático o suficiente para perceber onde é que a banda se encontra, mas demasiado louco para não recusar a compra desta edição mais recheada. Estou lá quase. There Near. “Almost Ready”. Um bocado “Alone”, mas nunca longe de estar “Out There”.
(começa o riff tristonho da “Out There” e volta tudo ao mesmo).