Quarto e último dia do festival. Concertos em destaque: Meute, Thundercat, Prostitute,
Amyl and the Sniffers e ainda um vídeo altamente emocional (e não muito promocional).
Assim que soube que os Meute eram uma banda gigantesca composta por um número ridículo de percussões e instrumentos de sopro, cujo objetivo passava por reinterpretar todo o conceito de deep house, o meu cérebro saiu disparado, deu três voltas ao recinto e voltou a entrar-me no crânio – talvez com menos uns neurónios, o que não é aconselhável para alguém que já nem tem muitos. O ponto positivo é que, enquanto esteve fora, a minha massa cinzenta aproveitou os ritmos bem pulsantes desta trupe de Hamburgo que iam colorindo o palco principal do festival. Era como se estivéssemos numa discoteca a dançar com os nossos pais ao lado e a curtir o mesmo som, só que talvez por razões bem diferentes. Isto pode não parecer um elogio, mas acreditem que é. Já viram o que é meter uma pandilha destas a tocar algo a que estão acostumados a ser lançado por um só DJ? Conseguem imaginar quão vidrados (e a vibrar) estavam as massas do Paredes de Coura? E não estou a falar dos noodles se bem que, para um consumo adequado, também se devem mexer bem. Estou a falar de algo raro, de que não se vê todos os dias. Para fãs de Pokémon, um Mewtwo. Para quem gosta de música arrojada e diferente, os Meute. E nada de carregar no mute, ouviram?
É com uma dor muito grande que, enquanto escrevo isto, me encontro já cansado de aproximar dois felinos que não se conhecem sob o mesmo teto. E só de estar sentado, a altas horas da madrugada, já com olheiras a formarem-se debaixo das minhas lentes imundas é que percebo a ansiedade que fico em ler a palavra “cat”. Neste caso, Thundercat. Que, na sua forma humana, sendo um animal de palco, se iria dar muito bem com as pequenas feras que tenho ao meu lado. Quem também está a dar tudo em palco é o baterista Justin Brown que acompanha o ex-Suicidal Tendencies num virtuosismo extremo que resulta de uma mistura frenética centrada em jazz fusion, hip hop e eletrónica. Aliás, por falar em Pokémon, o próprio Thundercat é que tinha umas calças com o Mewtwo (pelo menos, acho que era essa a criatura). Vestimenta e referências a desenhos animados de outrora à parte (como o próprio nome do artista indica), Thundercat afirma-se como uma aposta de peso, e fora da caixa, que conseguiu maravilhar qualquer cético em termos de prodígio e talento à vista. Se me conseguiu fazer sentir algo? Bem… não percam o próximo episódio, porque nós também não!
Aqui vêm os Prostitute, uma das bandas mais explosivas do festival e que promete dar música de cavalgadura. No entanto, trazem-nos todo esse atrito mas de um ponto de vista refrescante – dado que vêm de Dearborn, nos Estados Unidos, a cidade com a maior comunidade árabe do país. Esse é o verdadeiro combustível que corre nas veias incendiárias do grupo que lançou Attempted Martyr, em 2024, e que aqui deixa tudo o que consegue numa boa mescla ruídosa que, nas boas palavras dos Discharge, é mais um continuar do lema “Protest and Survive”. É uma passagem de testemunho do que tantos sentiram na pele para deixar grande parte dos que estão a ver com pele de galinha.
Já Amyl and the Sniffers despem-se do tipo de pretensões dos Prostitute para emborcar uma caneca de cerveja e começar a distiribuir um rock divertido, mas musculado como só os australianos sabem fazer na boa moda dos primórdios de AC/DC, Rose Tattoo e Radio Birdman. Só que, desta vez, o tom predominantemente macho desse som é substituído pela presença de aço de Amy Taylor. Não é inteiramente verdade que a banda se abstenha de dizer o que lhe vai na mente, o que só a torna ainda mais essencial no meio de uma verdadeira festa que mete o ponto final no palco Vodafone. Sim, porque quem mete os pontos nos is é o guitarrista Declan Mehrtens. Não há exemplos que faltem para provar que o rock não está morto. Quem o quiser ver com os seus olhos, pode ver Amyl and the Sniffers. Quem o quiser ignorar, é porque talvez tenha passado demasiado tempo com outro tipo de sniffers.
Quem te avisa, teu amigo é. E eu fui avisado para me deixar estar no palco principal. Não porque vinha aí outra banda, mas porque seguiu-se o habitual vídeo de despedida que junta alguns dos melhores momentos reunidos até à hora do corte (neste caso, literalmente). Entre compilações de churrascos, saltos mortais e outros vox pops, as almas do Couraíso falam. Não me perguntem é quantas vidas é que elas gastaram para garantir entrada num lugar mais mítico que o próprio Paraíso. Até porque eu suspeito que já seja o de muitos.
Fotografias de Melissa Dores e de Hugo Lima, gentilmente cedidas pela organização.

























