Segundo dia do festival. Concertos em destaque: Aldous Harding, Kurt Vile & The Violators, Hermanos Gutiérrez e Underworld.
Algures, numa das fotos tiradas por alguém com um olhar muito apurado, Aldous Harding está de olhos completamente revirados e uma expressão assustadoramente fantasmagórica. Curiosamente foi também como eu fiquei assim que ouvi as primeiras músicas desta pérola em pessoa vinda da Nova Zelândia. De música em música, Harding viaja de expressão em expressão, de voz em voz e, às vezes, de instrumento em instrumento, como é o exemplo da
cabaça na hipnotizante “Passion Babe”. Ou muito me engano ou essa música e a que veio a seguir, “Leathery Whip”, vão passar a estar em rotação na minha cabeça (e não cabaça) de forma a roçar o irritante. Presumo que para algumas pessoas, a própria Aldous Harding tenha esse efeito. Eu apenas digo que parece que vi um quadro de olhos esbugalhados, como os da Margaret Keane, ao vivo. E agora desculpem porque vou continuar a cantar, de forma muito esganiçada, o refrão da “Leathery Whip”. É apenas a minha imitação de alguém inimitável.
Por falar em mais pessoas inimitáveis, eis Kurt Vile e os seus Violators. Não me conseguem convencer que qualquer banda não ficaria melhor com uma pitada de country na sua receita e não me vão tirar a teima de que ouvir “Wakin’ On a Pretty Day” ao vivo não foi das melhores coisas que alguma vez fiz na vida. Satisfez por completo a minha necessidade de guitarradas longas e demoradas com pedaladas à mistura enquanto todos os músicos em palco pregam a fundo para tocá-la. É daquelas que vai até ao osso e que se sente na médula. Não sei se isto faz sentido, mas cá espero comentários de alguém entendido no corpo humano. E graças a Deus que estava tudo a funcionar quando a música chegou pois existiram alguns problemas técnicos que impediram outros temas de terem as suas texturas completas. Impossível que alguém que adore Neil Young, Doug Martsch e todo o rock que seja DIY e lo-fi não se perca nos trilhos destes Violators ou nos caracóis de Kurt Vile. Dizem que é altura deles e que estão muito bons.
Preparem os palitos e o pão torrado.
Siga para bingo e para os Hermanos Gutiérrez. Para meu bem-estar pessoal, irei ser moderado nas próximas palavras. Foi um concerto agradável, sim. O equivalente a uma boa brisa que, certamente, o público em geral estava a sentir sem ser preciso nenhum agasalho extra. Os irmãos com origens no Ecuador tocam as suas guitarras de forma bastante doce e prazerosa, sem grandes ondas ou picos de energia. Estão acompanhados de loop stations, lap steel e umas boas percussões. Mas não consigo dizer que tenha entrado verdadeiramente na onda e confesso que à terceira vez que um deles introduzia uma música como um convite aberto ao público para uma história sobre (inserir elemento genérico aqui), os meus olhos reviravam como os da Aldous Harding. Vou assumir isto como uma falha minha, ok? Público em geral, por favor não me matem. Só os achei demasiado inofensivos para o meu gosto. Tudo muito certinho, tudo muito fácil de se ouvir. Não tenho nada contra um duo de instrumentais com um sabor latino, mas talvez procure Rodrigo y Gabriela antes de voltar aos Gutiérrez.
Mas, como disse, o público adorou. E essa é a única sentença que conta no que diz respeito a estes assuntos. O que tornou a tarefa dos recém-reunidos Wu Lyf bastante complicada quando arrancaram no palco Coura Sem Paredes. O som mais difícil de desembrulhar da banda de Manchester foi um choque térmico para quem chegava dos Gutiérrez e logo após a segunda ou terceira música, o próprio vocalista Ellery James Roberts teve de contextualizar o público depois de uma reação bastante fria (leia-se “com poucas palmas”). Não é culpa da banda, não é culpa
do público. É só um sinal de que não foi o momento certo. Talvez no futuro, Wu Lyf. Espero que não tenham levado a mal.
Para agravar a situação, ainda os Wu Lyf tocavam e os Underworld já tinham transformado o palco Vodafone numa autêntica discoteca dos anos 90 com os seus ritmos pulsantes e baixos de fazer explodir uma pessoa. Esqueci-me de dizer que várias pessoas desmariam no concerto dos Hermanos Gutiérrez, portanto quero acreditar que não tenham voltado para os Underworld porque o risco de pulverização definitiva estava para lá de extremo. Como o velho rezingão em que às vezes me torno, tive de ser convencido a ficar para a dupla de Wales por amigos mais sábios e experientes. Ainda bem que me agarraram porque foi um verdadeiro rodopio de fumo, luzes, loucura, mais fumo, mais luzes e um sentimento de pastilhanço metafórico que só poderia vir de um dos grupos de música eletrónica mais essenciais da história. E sim, para fãs de Trainspotting, eles tocaram a “Born Slippy”. Felizmente, os fãs de Batman & Robin também ficaram de barriga cheia quando vibraram com a “Moaner”.
Não estava à espera disto, mas parece que vou mesmo acabar este texto com uma referência ao filme do Batman que tem o George Clooney. Que, ao contrário deste dia, não é uma sequela tão boa como o original.
Fotografias: Melissa Dores





























