Uma granada de adrenalina e de agressividade electrónica que levou os Prodigy ao topo do mundo.
Os ingleses Prodigy são um produto directo da cultura rave, da noite e da música electrónica. Liam Howlett, o fundador e figura central do grupo, é um dj de créditos firmados, desde sempre obcecado com o cruzamento de samples de temas obscuros do passado com as sonoridades mais agressivas de então. E se, por exemplo, os Massive Attack faziam o mesmo exercício mas buscavam um som mais introspectivo, os Prodigy andavam atrás de outra coisa: de perigo e de excesso.
Depois de dois discos carregados de sons de rave e de adrenalina agressiva, num exercício mais puro e próximo do tecno, os Prodigy partem para este terceiro álbum com novas ferramentas para levar o seu som de um armazém decrépito para os grandes palcos de todo o mundo.
Por um lado, os sons electrónicos estavam a ganhar espaço no mainstream, conseguindo até conquistar a malta do rock. Por outro, foi nesta altura que ganhou protagonismo Keith Flint, o tresloucado tipo de penteado esquisito e de argola no nariz, uma espécie de cyberpunk assustador. Ficou assim completo o alinhamento clássico dos Prodigy: Liam Howlett, Maxim (os dois que ainda resistem, em 2026), Keith Flint, e Leeroy Thornhill.
Flint, que até então era apenas dançarino nos espectáculos ao vivo, começa a ter uma maior contribuição e a escrever letras, acabando por tornar-se a cara do próprio conjunto, fruto do seu visual ameaçador e único. O material que Howlett estava a compor começava a afastar-se do tecno mais puro e a aproximar-se do big beat que viria a ser a sua imagem de marca. E se, no passado, os Prodigy já haviam provado que conseguiam compor hinos geracionais para a seita de misfits das raves, isso agora estava a ficar ainda mais depurado.
Falar de The Fat of the Land é necessariamente falar de “Firestarter”, o primeiro single do disco, que caiu como uma bomba. Toda a faixa é ameaçadora e extrema, e só podemos agradecer termos vivido tempos em que algo tão agressivo e bizarro conseguiu atingir sucesso comercial, quando os ouvidos estavam mais abertos e a diferença era mais celebrada no próprio mainstream. Naquela altura, os vídeos eram muito importantes, e no caso de “Firestarter” metade do trabalho veio daí, cimentando a figura lunática de Flint como o tipo mais perigoso do bairro.
E, apanhando o balanço, há que falar sem rodeios de “Smack my Bitch Up”, o terceiro single do disco e talvez o mais controverso de todos. Se “Firestarter” foi alvo de polémica por alegadamente incentivar ao fogo posto, “Smack my Bitch Up” foi recebido como um incentivo à violência contra mulheres. Howlett bem se esforçou por dizer que não deviam levar as coisas tão literalmente, mas a verdade é que o espantoso vídeo para o single não ajudou em nada. É um longo testemunho, filmado na primeira pessoa, da noite de excessos de alguém; começa a vestir-se em casa, e o que se segue é uma sequência de drogas, álcool, nudez, violência sexual e outras, num exercício de uma daquelas noites inesquecíveis mas das quais nada nos lembramos. É uma obra-prima, que termina com um breve vislumbre da cara do protagonista… que era uma mulher.
Na altura, “Smack my Bith Up”, tanto a música como o vídeo, foi censurada e criticada. Imaginem o que seria hoje….
“Breathe” foi outro dos singles, trazendo algumas das linhas músicais mais memoráveis dos Prodigy, assim como “Diesel Power” se tornou uma espécie de template para o big beat. Mas é redutor limitar The Fat of the Land aos seus singles. É um trabalho completo, a explodir de ideias, um disco negro, nocturno, uma festa soturna alimentada a drogas sintéticas e a sede de viver rápida e perigosamente.
Liam Howlett definia a música dos Prodigy como “punk electrónico”, e The fat of the land é o seu Nevermind the bollocks. Um statement artístico e um marco cultural de uma época em que os extremos eram abraçados pelo mainstream e não tinham de pedir desculpa por nos mostrar os recantos mais negros da nossa mente.
Das ruas de Braintree para os armazéns destruídos dos subúrbios de Londres, até chegar aos headphones de putos de todo o mundo e aos maiores palcos dos maiores festivais.
Hoje em dia, The Fat of the Land e os próprios Prodigy poderão soar algo datados. Tendo marcado tão profundamente um período específico, acabaram por, de certa forma, ficar lá. Mas quem viveu aquelas noites, aqueles excessos, aquela descoberta, não esquece. Ou, se calhar, não se lembra de nada, o que é melhor ainda.