O mais recente dos Iceage recupera a espontaneidade do início de carreira, sem abdicar da riqueza melódica conquistada ao longo da última década. O resultado é, talvez, o disco mais humano da sua discografia.
Começo por dizer que gosto muito deste disco. E digo-o no presente, fugindo ao mais habitualmente ouvido “gostei”, no passado, porque é um sentimento que me acompanha no momento em que escrevo. Também porque quiçá não verbalizamos, em voz alta e em público, as vezes suficientes, quando gostamos de algo ou alguém, confiamos que as nossas ações o demonstrem por si e desvalorizamos o impacto de um gosto de ti bem metido. (claramente estou a deixar-me levar pelo romantismo exacerbado instigado pelos iceage, mas não fujam já)
Desde que surgiram em Copenhaga, ainda adolescentes, com o furor abrasivo de New Brigade (2011), que a banda de Elias Bender Rønnenfelt parece empenhada em sabotar quaisquer expectativas que neles se coloquem. O hardcore caótico dos primeiros tempos foi dando lugar a um pós-punk cada vez mais expansivo, primeiro em You’re Nothing (2013) e, sobretudo, em Plowing Into the Field of Love (2014), disco onde a urgência juvenil começou a coexistir com romantismo desmesurado, melodrama e uma inesperada ambição teátrica. Foi com este que os descobri, e coloquei-os numa prateleira que tenho aqui, denominada “bandas viscerais, muito ama-me de volta ou mato-me kind of thing”. Mesmo não sendo a minha praia voltei lá umas vezes, sobretudo por terem conseguido criar um nicho interessante na minha cabeça, mas confesso que não fui ao seguinte Seek Shelter (2021).
Cinco anos depois chega-nos então, For Love of Grace & the Hereafter que, não sendo um regresso às origens, poderá ser visto sim como uma síntese da matéria dada. Elias teve também direito a devaneios pessoais, tendo lançado disco em nome próprio em 2024, Heavy Glory, enquanto que no ano passado juntou-se a Dean Blunt para um EP deveras interessante – Lucre – que agarrou um lugar no top altamont.
Entremos então por For Love of Grace & the Hereafter adentro: logo em “Ember”, uma das melhores canções que escreveram nos últimos anos, Rønnenfelt canta “I love you in an ominous way”, uma frase que resume toda a tensão que o álbum promete. O amor surge aqui como força destrutiva, tão perigosa quanto redentora. Musicalmente, a canção alterna entre impulsos punk e passagens quase folk, revelando uma banda cada vez menos interessada em fronteiras estilísticas.
Essa abertura torna-se ainda mais evidente em “The Weak”, onde guitarras com sabor rockabilly e arranjos insólitos substituem a agressividade frontal de outrora (tresandam a uns Black Lips no seu auge). Já “Salve for Every Sore” aproxima-se de um folk-punk romântico e luminoso, sustentado por uma cadência acelerada e pela vulnerabilidade de versos como “My little darling / I get the impression you’re a salve for every sore” (uma pomada para todas as feridas). Em “Star”, talvez o momento mais surpreendente do disco, os Iceage aproximam-se de uma euforia melódica que pareceria impensável nos tempos de New Brigade, muito próxima de indie pop, fácil de agradar ao ouvido.
Não quero correr o risco de mencionar todas as músicas (na verdade o álbum dá-se a isso, porque me conquistou pelo seu todo), seria injusto não referir as minhas duas preferidas: “1835” e “Match Head Girl”. A primeira pela sua negritude, a segunda pela sua vivacidade. A primeira pelo seu ritmo leve e descontraído, a segunda pelas suas constantes mudanças de ritmo. A primeira por retratar a beleza e o risco de uma paixão que pode “pegar fogo” a qualquer momento, a segunda pelos pensamentos de Rønnenfelt sobre a transitoriedade sem sentido da vida. Terá sido sobretudo esta dicotomia que me terá feito gostar deste disco (e assumi-lo publicamente).
O mais notável do trabalho destes dinamarqueses é que conseguiram com que nada soasse artificial – For Love of Grace & the Hereafter não mostra uma banda a suavizar-se, mas sim a descobrir novas formas de intensidade. Onde antes havia confrontação física, há agora vertigem emocional. Onde antes havia ruído, há agora canções. E, ainda assim, os Iceage continuam a ser únicos neste seu pequeno nicho.