Peste & Sida levou amigos novos e antigos aos Jardins do Marquês e os Unsafe Space Garden dramatizaram a humanidade. Os The Stranglers, esses, continuam a ser extraterrestres.
No primeiro dia do mês de julho, enquanto a onda de calor parece começar a chegar para por cá ficar bastantes dias, nada como passar um final de tarde e boas horas da noite em pleno Jardim. Assim mesmo, com maiúscula, uma vez que esse espaço é o do Marquês de Oeiras, por assim dizer. Toda esta conversa para referir que o Altamont, como sempre acontece, voltou aos Jardins do Marquês (é esse o nome do Festival em causa) para ouvir uma lenda de outros tempos. E que lenda!
Os The Stranglers foram reis do new wave punk dos anos 70 e 80, assinando alguns dos melhores álbuns dessas décadas e desse género. Quem não se lembra ou não conhece Rattus Norvegicus, No More Heroes e Black and White (três discos saídos em apenas dois anos – 1977 e 1978), voltando a brindar-nos com os soberbos The Gospel According To The Meninblack e La Folie (ambos saídos em 81)? Pouco nos interessa a idade dos músicos ou o seu percurso mais recente, claramente muitos furos abaixo dos períodos de glória. Ou que o mítico Hugh Cornwell há muito não faz parte da banda inglesa, sendo Jean-Jacques Burnel o incontestável líder do grupo. O que importava, isso sim, é que levávamos até ao recinto a expectativa nostálgica de ouvirmos canções que fizeram parte (e farão ainda, a espaços) das nossas vidas passadas. E para os que iam dizendo entre dentes “I See Dead People”, com algum ar de desdém, nada como descer ao vernáculo punk e responder “Up yours, you lot”! Ponto final, problema resolvido.
Os The Stranglers eram a última das três bandas a tocar, obviamente. Antes, os Unsafe Space Garden e o seu mais recente O Pior e o Melhor da Música Biológica iam mostrar-se, assim como os também míticos (mas à nossa escala, claro) Peste & Sida dariam conta do seu recado. A ordem, afinal, foi a inversa. Era esse o menu, e foi exatamente isso que aceitámos com muito gosto.

Quarenta anos de rock n’ roll é muito tempo. Quase quatro décadas, vá, até porque houve ali uma interrupção, algures entre a passagem do milénio. Mesmo assim, muito tempo de canções, discos, estrada. Ontem, não foram curtir para o sol da Caparica, mas para Oeiras. Aquele rock básico apunkalhado (sem desprimor, até porque eles próprios brincam com isso -“com uma banda a sério, isto soava melhor” – João San Payo dixit) ainda põe muita gente aos saltos, e gente nova também, de outra geração que não a deles. Por falar “neles”, continuam indomáveis. “Não metemos dinheiro no cu desses cabrões” – referindo-se às plataformas digitais – “e continuamos a editar em vinil”. Está percebida a onda, não está? E foi nela que navegámos ao final da tarde. “Manda-me outro sms” com o embalo de “Message in a Bottle”, dos The Police, ia-se cantando em palco. Andaram a picar faixas de vários dos seus discos, velhinhos e mais recentes, e assim se fez o primeiro concerto da tarde. “Os Peste & Sida é uma banda que se orgulha de ser anti-fascista!”, lembrou San Payo. Para o fim ficou “Chuta cavalo, chuta cavalo, chuta cavalo e morrerás”. Rock on!
No exato momento em que os Peste & Sida acabaram, já havia gritos no outro palco do recinto. Parecia que alguém estava em agonia, às portas da morte. Eram os Unsafe Space Garden. Afinal, “estamos vivos”, cantaram eles, logo a abrir. Antes assim. Alguém do público perguntou, entre músicas: “quem são vocês?” e não é de estranhar a pergunta, uma vez que estes rapazes e rapariga não estão exatamente nos ouvidos de muita gente. Fazem música como quem representa teatro, fazendo teatro como quem faz música. Esta frase bem poderia ser deles próprios, mas foi mesmo um deslize de quem alinhavou estas palavras. Ou levam-se pouco a sério, levando-se muito a sério. (Mais uma, a última do género, é garantido.) Os Unsafe Space Garden foram tocando e alegrando. São idiossincráticos, e não é pouco. Pode gostar-se ou achar que ficariam bem num qualquer Chapitô do Norte do país (é de lá que são, de Guimarães, maioritariamente), mas trazem cores inusitadas nas suas canções, géneros tão distintos que não arriscamos classificações. Um tema parece conter vários, tais as voltas e reviravoltas que dão. Até as roupas que usam são algo inusitadas, parecendo uniformes de um outro qualquer planeta. A falsa ingenuidade com que Alexandra Saldanha diz o que diz, canta o que canta, torna tudo tão risível que se entende bem. Há neles bom humor, mas também algumas verdades que só rindo delas percebemos o quão trágicas são. “Ser humano é assim”. O famoso slogan pessoano para o refrigerante mais bebido em todo o mundo, também faz sentido para esta gente. E uma coisa é certa: os Unsafe Space Garden divertem-se à grande, coisa que acabou por se tornar algo contagiosa, até porque “se calhar viemos todos do mesmo sítio”. Está certo. Foi fixe o psicadelismo circense.

Até que havia chegado a hora. A abrir, um trecho de “Non, je ne regrette rien”! Em grande estilo! E de seguida, um cheirinho de “Waltzinblack”, gravado. Excelente! Logo depois, de rompante, a rasgar “Tolier on the Sea”, “Duchess” e “(Get a) Grip (On Yourself)” e “Nice n’ Sleazy”! Que bombas!
A nostalgia, como bem sabemos dizer, é uma coisa lixada. Parece haver nela um qualquer condimento que nos faz bem, alegra, dá-nos de volta instantes de vida que foram mais especiais do que muitos dos outros. Com os The Stranglers em palco, regressámos aos nossos anos teen, éramos putos e acreditávamos que poucas bandas havia melhores dos que eles. E era verdade. Eram soberbos, e uma boa amostra disso mostraram-no ontem. Claro que o mais perfeito sonho seria tê-los visto back in the days, mas a vida é como é. Era igualmente perfeito tê-los visto ontem com o line up inicial mas, de novo… a vida é como é e há até quem já tenha partido, como são os casos dos saudosos Dave Greenfield e de Jet Black. Para mais, e como já referido, Hugh Cornwell saiu da banda em 1990, após o álbum 10. Sendo isto tudo verdade, parece que tudo se esqueceu quando, como que vindo do nosso passado, surgiu “Strange Little Girl” e tudo se tornou de novo perfeito, indizível, intemporal. “Freedom is Insane”, pela voz de Jean-Jacques Burnel foi um tema inesperado, mas de bom proveito.

Pouco depois, já em plena noite, “Always the Sun” surgiu na sua muito particular luz. Que claridade no coração de todos! A gingona “Peaches” não poderia faltar, pois então, com aquele baixo, sempre fabuloso. Aliás, os Stranglers devem ser a banda com mais riffs de baixo de sempre. Icónicos, todos eles. Se tudo tinha sido perfeito até então, com “Golden Brown” entrou-se noutro campeonato ainda maior. “Walk on By”, a cover de Burt Bacharach, veio com uma pujança punk extraordinária. Que maravilha! Assim como também foi a explosão de “Hanging Around” e ainda mais bombástica a maravilhosa “Tank”.
Para o encore ficaram “Mean To Me”, a super roqueira e bem velhinha faixa de Black and White e a eterna “No More Heroes”! Que mais poderíamos desejar? Talvez “La Folie”, mas os nossos queridos estranguladores estão perdoados pelo lapso. Excelente, a voz e a guitarra de Baz Warne, que por vezes parece encarnar a voz de Hugh Cornwell.
Por fim, um agradecimento. Não sei de quem foi a ideia de trazer os The Stranglers aos Jardins do Marquês, mas envio-lhe um forte abraço que dure, pelo menos, até ao final deste mês.

















