No seu EP de estreia, os Felizes para Sempre propõem canções curtas que, sem se levarem demasiado a sério, têm o condão de nos fazer viajar e abanar a cabeça em medidas iguais.
O coletivo GRAVV., formado por jovens artistas com ligações afetivas ao concelho de Sintra, continua focado em mostrar que há cultura no subúrbio e que esta merece atenção. Seja através da curadoria musical que têm feito nos mais diversos espaços, seja via alguns dos projetos que já conquistaram o carinho do nosso humilde site (vejam-se os c-mm ou os Pato Bernardo), os GRAVV. têm feito um excelente trabalho a personificar a atitude DIY no que toca à sua atividade e a mostrar que não é preciso muito para fazer nascer música boa.
O lançamento do EP de estreia de mais um projeto a brotar deste coletivo não foi propriamente uma surpresa. Já tínhamos falado dos Felizes para Sempre quando abriram o concerto de Éme na ZDB, em Fevereiro deste ano, e, já aí, tínhamos ficado curiosos para ouvir mais canções de Diogo, Jarda e Carol. O EP homónimo, lançado no princípio de Julho, reúne as canções que ouvimos nesse primeiro concerto, permitindo-nos uma escuta mais atenta e, sobretudo, repetida. A gravação, produção e masterização de Tomé Silva ajudou a cristalizar aquela feliz memória num registo sonoro curto, é certo, mas belo de uma forma inesperada e irresistível.
As seis canções que nos apresentam os três amigos sabem a tardes lânguidas de calor nas férias de verão, daquelas em que evitamos mexer-nos muito e em que as persianas do quarto não se abrem para não deixar entrar o sol. Na penumbra, imaginamo-nos de olhos fechados mas de ouvidos atentos, enquanto presenciamos a partilha musical que parece acontecer sem grande esforço entre Crol, Jarda e Mendrix (como se apelidam no créditos que acompanham o disco), enquanto eles vão mostrando as respetivas canções uns aos outros. A guitarra de “andar às voltas com os pés ao contrário” conquista-nos rapidamente e é inegável que a canção de Parque dos Lírios ganha, nesta nova edição, uma versão mais à altura do potencial da sua lírica. Em “às aranhas” surge uma bateria e passam a ser três. Ainda assim, mantém-se a atmosfera, continuando as temáticas da tertúlia musical a ser a incerteza, a falta de direção e as noites indefinidas da juventude. A languidez começa a deixar-nos quando “arrefece” acelera o ritmo. Tudo está no sítio aqui: o baixo certeiro, a bateria confiante e a guitarra luminosa fazem o pano de fundo perfeito para a voz de Carol nos levar até a um refrão contagiante que só peca por acabar de repente e sem pedir licença.
Finda a primeira metade do EP, ainda há tempo para cada amigo mostrar mais uma música. Jarda traz “mariana” e voltam as inquietações juvenis expressas de forma despreocupada. O que começa por ser uma canção simples sobre quem vai levar a mariana ao baile de finalistas termina numa excelente viagem em que um piano brilha por cima de uma guitarra a distorcer. É à boleia dela que nos permitimos fechar os olhos novamente, tanto que nem damos por “empurrão” começar. “Negligente é resistir à conclusão, dizer que sim, só para não dizer que não”, canta Diogo baixinho, por cima de um coro de guitarra e baixo e de um piano que vai fazendo apontamentos, como em quem concorda com o bonito poema. Como muitas vezes acontece, a melhor canção do disco ficou para o fim. “na pista” começa devagarinho, primeiro só com uma guitarra, depois com a bateria a marcar o passo, aquecendo tão devagar que, quando damos por nós, estamos a dançar e a cantar “na pista és bonita a dançar”. Nem todas as canções de amor têm de ser sobre namorades e “na pista” retrata bem as incongruências da amizade. Guiados pela bateria incansável, repetimos o delicioso refrão com Carol, numa onda que vai crescendo à medida que abanamos mais a cabeça até que, coisa mais natural do mundo, a onda rebenta na praia, a bateria para, e a canção termina, levando consigo a moleza da tarde quente.
Passaram-se menos de 20 minutos mas foi o suficiente para começar a correr uma aragem fresca lá fora. É tempo agora de esticar os músculos inertes e abrir um pouco as persianas para deixar entrar a luz de fim de dia. Talvez ir ver o que é o jantar, enquanto as melodias dos três GRAVV. ainda estão na nossa cabeça. É difícil garantir que seremos Felizes para Sempre mas é bom saber que há miúdos que se juntam para fazer música e que essa música nos faz sonhar com um tempo em que também nós éramos miúdos. Se só puderem ouvir um disco português este verão ouçam este. Propomos o “Felizes para Sempre Summer”.