A segunda edição da Casa Andante – curadoria mensal da Cuca Monga na Musa de Marvila – foi arrebatadora. Uma banda de culto, perante público ávido e fiel – eis a receita para o sucesso.
Que noite incrível!
Ver os TV Rural ao vivo é um luxo e um privilégio, não só por ser raro mas por ser precioso. O último disco saiu em 2015, depois disso suspenderam grande parte da actividade mas, felizmente, têm dado um ou outro concerto. Aliás, podíamos instituir esse conceito: concerto anual dos TV Rural. Não querem gravar mais discos, não gravem. Mas não parem nunca de tocar ao vivo. Porque um concerto de TV Rural não é apenas uma banda a tocar e uma plateia a assistir. É um imenso ritual de descarga de adrenalina, de comunhão emocional e espiritual, que nos liga uns aos outros e à terra. E por mais vezes que os vejamos ao vivo, nunca é igual, mas é sempre estrondoso.
Estes cinco tipos juntos são uma máquina perfeita. Não há um prego, uma nota ao lado, uma entrada fora de tempo, uma frase desafinada. Cada um sabe de olhos fechados o que é que o outro vai fazer a seguir. O baixo de David Santos é a batuta que marca o groove, a bateria do João Pinheiro a ecoar por toda a cidade, as guitarras de Vasco Viana e Gonçalo Trata a dançar o tango uma com a outra. E depois, o indomável e insaciável, David Jacinto, um gigante de palco, o arquétipo do que um frontman deve ser. É impressionante a intensidade com que ataca cada canção, a vociferar melodiosamente, a percorrer o palco dum lado quase como um grande felino enjaulado. O grande timoneiro que todos seguimos sem hesitar, porque só há verdade na sua homilia.
O que aconteceu no sábado, na Musa, foi um dos melhores concertos de TV Rural que já vi – e já vimos muitos (2015, 2022, 2024). Em palco, um quinteto imparável e cheio de vontade de nos entrar pelos ouvidos e espalhar-se pelo corpo. Na plateia, um núcleo indefectível de fãs novos e velhos, sempre de coração aberto e garganta pronta, a cantar as letras todas de cor, não apenas os refrões, sempre a atirar para o palco uma vibração quente que depois é devolvida em doses desbragadas de rock’n’roll no estado mais puro, criando-se um ciclo perpétuo de energia. Foi uma noite em que tudo correu bem e todos estávamos alegres. Eles visivelmente felizes por estarem juntos em palco, nós contentes pela mesma razão, e contagiámo-nos todos uns aos outros. E mais felicidade partilhada quando, para tocar flauta em “Bruxas”, sobe ao palco um jovem adolescente convidado. Filho do guitarrista Gonçalo Trata, Lucas não se intimidou e tocou irrepreensivelmente, como se fizesse parte dos TV Rural há décadas. E nisto, os nossos corações derreteram, principalmente os de quem vive TV Rural desde o tempo em que eles não tinham sequer prole, quanto mais agora estar a ver essa prole a tocar com eles.
Pouco depois acabou o concerto, e ficámos todos durante largos minutos a pairar. Esta foi a segunda noite da Casa Andante e esta série ficou já abençoada!
Fotografias de Mariana Carneiro













