“O Passado e o Presente encontram-se em canções de resiliência, união e esperança” – pode ser a frase de apresentação desta digressão dos Tinariwen. Uma banda com quase 50 anos, eternos refugiados nómadas, a lançar música nova com a participação da geração seguinte de Tuaregues e colaboração externa (José Gonzalez) no seu novo disco: Hoggar (2026).
O concerto dos Tinariwen (“lugares desertos”) no LAV teve casa cheia de fiéis, depois de estarem precisamente no LAV há menos de 1 ano (Maio 2025). Ao vivo, é mais fácil intuir essa componente baptizada de energia que a música e as pessoas têm, e que conseguimos validar porque o sentimos diretamente e a toda a volta. Decorre das colunas, dos instrumentos e dos músicos, tanto quanto do público que ali está para a mesma viagem, num espaço de comunhão que a Inteligência Artificial não consegue replicar. A “linguagem universal da música” pode ser cliché mas não é um mito, é confirmada quando não se fala a mesma língua e as palavras são como estranhos.
Foi assim que senti a entrada dos Tinariwen em palco. Estranhos, ligeiramente intimidantes (nunca os tinha visto). Sete homens vestidos de túnica e turbante, de cara quase toda tapada, entrando no que me pareceu ser em câmera lenta. Pessoalmente, prefiro nomear e desmascarar a minha “estranheza” inicial, do que negá-la e permitir que me apanhe nas curvas escorregadias do preconceito (mais tarde viria outra interpretação, mas lá chegarei).
Sete, tocando e movendo-se como apenas um. Simpáticos e descontraídos, interagindo com o público, a apresentação sucessiva dos temas funcionou em crescendo ao longo da noite. Uma produção simples mas cuidada, com foco nas guitarras e harmonia das vozes, linhas de baixo a forrar o espaço e um único djembe a pulsar. Mudei algumas vezes de sítio só para confirmar que as regulares mas subtis mudanças de ritmo tinham efeito imediato na sala como um todo. E ao reagir como um todo, a sala provocava reação simétrica na banda, num laço contínuo de troca. (IA – incha!)
O LAV encheu de gente mui diversificada para os ver e ouvir. Não entrámos numa tenda no deserto, nem ninguém veio de camelo, túnica e turbante enrolado (vi um par deles – de turbante, não de camelo), mas houve algo maior de que não me apercebi ali: um grupo de Tuaregues, contando histórias maiores do que eles próprios e a sua experiência pessoal. Histórias da realidade muito atual e concreta de violência e destruição no seu país, que nos parecerá mais distante em contexto e empatia se comparada com a loucura em destaque por todo o lado. E talvez tenha sido essa carga que estranhei no início, ainda ignorante do quadro geral. Mas algures, em pesquisa pós-concerto, li o seguinte comentário: “through desert scars and broken trust, your music rises like a wind of courage. Tinariwen, you give voice to the unheard and turn hardship into harmony. The world listens, and the people remember”, e tudo fez mais sentido.
Fotografias de Gonçalo Nogueira














