O Hipódromo Manuel Possolo encheu para aplaudir Tom Jones. O galês mostrou créditos e presenteou os presentes com um espetáculo digno da lenda viva que é.
Parece que este ano não nos livramos deste verão outonal. Não só não nos larga, como nos castiga. Manhãs frescas e noites em que o vento acentua ainda mais essa imprópria temperatura. Ontem, em Cascais, não foi bem esse o cenário meteorológico. No entanto, estava fresco. Não fosse o poder caloroso da voz do cabeça de cartaz, e o espaço do Hipódromo Manuel Possolo teria ficado envolto em tremuras várias e dentes a bater ao ritmo da música que se ia ouvindo durante os concertos. Mesmo assim, não foi mau o tempo. Mas, sobretudo, salvou-nos, uma vez mais, a música. Vamos a ela, então.
Antes da lenda viva que é Tom Jones, os seis rapazes com o invulgar nome de Os Quatro e Meia mostraram ao que vinham e o que são: uma banda simpática e com algumas canções que por via das ondas radiofónicas vão entrando na cantarolável memória de uma boa quantidade de gente. A cidade de Coimbra juntou-os, e Os Quatro e Meia lá vão fazendo o seu caminho e pondo os “pontos nos is” no panorama da música nacional. Temas como “A Terra Gira”, “Baile de São Simão” e “Pra Frente é que é Lisboa” não poderiam faltar. No entanto, poucos eram aqueles que ontem se deslocaram a Cascais para os ver e ouvir. A sexta noite da edição EDP Cool Jazz 2019 tinha no galês Tom Jones a sua única referência. Não há como esconder esse facto, essa evidência. Por isso, como várias vezes vamos aqui salientando, é algo ingrata a presença dos artistas que mostram o seu valor antes das “vedetas” subirem ao palco. Todos sabemos que é a lei da vida. Nada a fazer. Nada a dizer para além do que nos pareceu, mesmo assim, óbvio: estiveram bem, Os Quatro e Meia.
Os galeses são duros de roer. Pelo menos dessa fama ninguém os livra. Agora imagine-se um galês Sir, como é o caso de Thomas Jones Woodward! Com 79 anos feitos no passado mês de junho e com uma carreira discográfica com perto de meia centena de álbuns de estúdio, o unusual artista deu um belo concerto na noite de ontem. Como seria de esperar, Tom Jones levou a Cascais alguns novos temas, mas também outros que lhe estão colados à pele há mais de quatro décadas e que a pequena multidão que tinha perante si queria desesperadamente ouvir.
Tom Jones abriu com um blues de John Lee Hooker (“Burning Hell”) e depois, logo de seguida, lembrou um tema que costumava cantar com Elvis Presley, um gospel de nome “Run On”. E assim, aos poucos, a pujante voz do galês foi tomando conta do público, aquecendo os motores para um concerto que ficará na memória de muitos. Old school still rules!
O primeiro delírio coletivo deu-se com “Sex Bomb”. Mas a emoção conjunta foi dupla, porque logo de seguida foi “Fever” que se fez ouvir, cheia do swing roqueiro dos anos 50. “What a lovely way to burn”, diz a canção, e é bem verdade. Ótima cover, sim senhor! Ou, melhor dizendo, yes Sir! Claro que “Delilah” também fez boa mossa em muitos corações. Muitas memórias terão sido revividas nesses três minutos e meio de música.
A grande surpresa da noite terá sido “The Tower of Song”, a cover do grande Leonard Cohen. Como se não bastasse, uns minutos depois e de rajada, “Green, Green Grass of Home”, “What’s New Pussycat?”, “It’s Not Unusual” e “You Can Leave Your Hat On”, a conhecidíssima cover de Randy Newman.
Tom Jones, no encore, e para terminar o concerto em beleza, ofereceu-nos ainda canções como “What a Wonderful World” e “Kiss”, como se estivesse a dar-nos um enorme good night kiss. Na verdade, foi exatamente isso que tivemos: uma ótima noite! E o kiss foi a cereja em cima do bolo.