O primeiro dos Prodigy, Experience, transporta-nos para as raves do início dos anos 90: um disco frenético, extasiado, colorido…
A primeira vaga da cultura rave, acontecida em Inglaterra no final dos anos 80, tem ressonâncias míticas: era o tempo das raves ilegais, combinadas secretamente em cima da hora, num boca a boca malandro, fintando as néscias autoridades. Porém, a música propriamente dita não era inovadora: o aborrachado acid house vinha fiado da América.
A segunda vaga, de 1990 a 1992, já não tem o glamour das raves furtivas, mas deu ao mundo algo porventura mais precioso: um novo estilo de música de dança electrónica, o chamado hardcore, substituindo o robótico “quatro no chão” do house e do techno por breakbeats orgânicos e sincopados (à moda do hip-hop, mas acelerados, tornando as batidas nervosas e fragmentadas) e salpicando-se de dub jamaicano, com os seus sub-baixos estremecentes maiores do que a vida.
As raves, montadas em tendas gigantes, chegando a albergar vinte e cinco mil almas em êxtase, podiam ser agora autorizadas mas não eram por isso menos loucas, que o digam as toneladas de pastilhas consumidas. Nesse circuito de mega-raves, os DJs não eram o único atractivo: havia também bandas a tocar ao vivo, nomes como N-Joi, Shades of Rhythm e os nossos Prodigy, todos pecando contra o dogma techno do artista sem rosto.
O seu disco de estreia, Experience, é um polaroid perfeito dessa movida, captando toda a sua desbragada euforia hedonista. Os tempos são frenéticos, quase sempre acima das 170 r.p.m, como o ecstasy a correr no sangue dos ravers. Os sintetizadores desenham riffs melódicos e coloridos (fluorescentes!), que ficam imediatamente no ouvido. Samples reggae pincelam alguns temas com um forte travo a Kingston. Tudo tocado, cortado e colado com maquinarias orgulhosamente obsoletas. As limitações tecnológicas aguçando o engenho…
Se a música é sobretudo instrumental, não prescinde dos samples vocais, brincando com a velocidade, à boneco animado, de gosto duvidoso mas de malícia irresistível – a inocência da infância ardilosamente corrompida pela vileza da drogaria. Não há aqui pretensões pseudo-artísticas, há o funcionalismo assumido de enlouquecer pistas de dança: as dinâmicas de tensão e alívio – com os seus crescendos, pausas e explosões – são instruções para coreografias colectivas (o eu diluindo-se na pista, todos entrelaçados na mesma experiência: a mesma droga, a mesma música, a mesma dança tribal).

Experience é deliciosamente unidimensional, uma exortação à sensação pura, ao aqui e agora, ao motim só porque sim (Álvaro de Campos para o povo). Nesse sentido, é garage sem guitarras, é punk do futuro. Se nos discos seguintes, com a incorporação de guitarras eléctricas, e das vozes de Flint e Maxim, os Prodigy saem do armário, assumindo a sua condição cyber rock, esse espírito primal do rock’n’roll já estava implícito em Experience.
Há, porém, uma carta fora do baralho, inesperadamente tridimensional. Falamos, é claro, do épico “Weather Experience”, melancólico e profundo, música ambiente para o pós-festa, quando a depressão e a paranóia se instalam. Liam dizendo ao mundo para não subestimarem a sua profundidade criativa, e dizendo-o com toda a propriedade.
Se Music For the Jilted Generation tem um subtexto ideológico – um libelo de resistência contra o autoritarismo -, não há nada de político em Experience, antes pelo contrário. De tão escapista, chega a roçar o reaccionário, como se dissesse “que se foda a opressão e o meu trabalho de merda, esqueçamos agora tudo “pastilhados” na doce pista”. O ópio do povo? O fim-de-semana…
Se os Prodigy são uma banda, a música é integralmente da responsabilidade de Liam Howlett. Nesta fase, os outros três só existem em cima do palco: Maxim como o MC de serviço, Flint e Leeroy como os insanos dançarinos. Experience é Liam, Liam é Experience, com excepção da última faixa, “Death of the Prodigy Dancers”, gravada ao vivo, e, de longe, a faixa mais fraca do disco, com o palavroso Maxim a aborrecer-nos de morte. Ilusão de perspectiva, claro, que quem já viu os Prodigy, sabe bem o quanto eles são demolidores ao vivo.
O álbum vendeu bem e os seus singles assassinos, como “Everybody in the Place” e “Charly”, chegaram ao pódio dos tops. Os snobes das revistas especializadas torcem logo o nariz, vendo no seu apelo pop um imperdoável plebeísmo. Vão até mais longe, acusando “Charly” de ter matado o hardcore. É verdade que a sua utilização de samples de desenhos animados foi copiada até à exaustão, inundando o mercado com música manhosa, mas a sublime “Charly” não tem culpa nenhuma das suas grosseiras imitações. Não faz mal, o tempo daria razão aos Prodigy: Experience não é só um documento vivo dos anos de ouro do hardcore; é um portento de disco que envelheceu inesperadamente bem. Os fazedores de gosto ladram, a vitalidade passa; o costume, portanto…