Entre a guitarra a dizer “Mata fachos”, estilo adaptado do Woody Guthrie, ou a t-shirt com letras enormes “EU NÃO TENHO MEDO DO ROQUE” (instant classic), os Reforma Agrária presentearam-nos com um som barulhento, distorcido, interligado com sons mais melódicos, para maravilha de quem assistia.
Fazendo jus ao seu nome, a banda sediada em Lisboa e composta por Chica Dantas (baixo), Salvador (vocalista, guitarra e trompete) e Leo (bateria) subiram ao palco do BOTA vestidos a preceito: entre saias largas e compridas, avental, panos na cabeça (ou boné, no caso de Leo), todos evocavam o espírito de trabalhador rural (na estética, pelo menos). Pela sua própria descrição, apresentam-se como “um trio de femme rock noise” e tocam “músicas rápidas, sentimentais e barulhentas”.
Os primeiros minutos do concerto pareceram-nos uma cena mais experimental, sem perder o espírito muito rock, uma sonoridade toda ela crua e assertiva e com aquela urgência juvenil (não pejorativo) de quem precisa de gritar e tocar mais alto, para se fazer ouvir.
Apesar de não encontrarmos online a maioria das músicas que cantaram, a verdade é que entre o público que assistia, havia fãs que os iam acompanhando. A certa altura, alguém no público começa a cantar antes da banda. “Temos aqui fãs… cantem, cantem.” E cantam mesmo, em coro: “O digital vai-me matar”. Outra interjeição pertinente, antes de começarem a cantar a “Viemos dar-te a Liberdade”, Salvador afirma “Fodam-se os Estados Unidos”, recebendo muitos aplausos.
Seria naïve pensar que uma banda com o nome “Reforma Agrária” não fosse política, mas eles pegam nisso e trabalham-no bem, construindo músicas com letras certeiras e que puxam por quem está a ouvir. A banda mostrou uma boa harmonia entre todos, criando uma fluidez límpida ao longo do concerto, que foi celebrada constantemente pelos gritos entusiasmados do público. Também foi notório que se estavam a divertir.
Pelo meio ainda houve espaço para uma versão de “Canal Zero”, de Foge Foge Bandido, com o público também a acompanhar. E já perto do final, durante “Gaivota”, Salvador desceu para o público e ao regressar ao palco (sem guitarra), começou a tocar num trompete. Eis se não quando, ouve-se o som da guitarra e o que se seguiu foi um mini standoff absurdo e hilariante: troca de olhares intensos entre vocalista e pessoa aleatória a tocar (se calhar era amigo, não sabemos). No fim, a guitarra foi devolvida e o concerto continuou.
Para alegria de quem assistia, o concerto teve direto a encore, e terminou com os três músicos a agradecerem em simultâneo antes de fazerem um dab colectivo, gesto que, para millennial que sou, não compreendo (ok, boomer), mas o público parecia feliz. À saída, ficam frases soltas na cabeça. Talvez a melhor de todas: “tu tens má índole, tu sabes”. Imaginem dizer isto a alguém.
Setlist:
Diabo
Dedos
Vai à Praia
Viemos dar-te a Liberdade
Digital vai-me matar
Quando / corpo
Sereia
Parabéns
Sei Dizer
Homem ou Mulher
Canal Zero + Gaivota
Mata o teu Chefe
Encore: Má Índole
Fotografias de Rui Gato



















