Hotel Usona será talvez o disco mais cinematográfico dos Protomartyr, não só pelo retrato criado, mas também pela serenidade que parece perpassar o disco.
Isto podia ser um bom momento de “o pai avisou”. Neste caso será os Protomartyr avisaram, ao tempo que avisam que o prédio está a arder. Em 2015, em The Agent Intellect, Joe Casey já escrevia como quem tenta organizar os destroços de uma sociedade em decomposição, enquanto a banda à sua volta o sonorizava com um pós-punk nervoso, claustrofóbico e musculado. Em 2017 deram-nos Relatives in Descent, e a sensação tornou-se ainda mais evidente: a América de Casey era já um lugar onde a verdade se confundia com propaganda, a realidade com ficção e a esperança só chegava a quem se forçava a tal. Neste Hotel Usona, nove anos depois, o incêndio deixou de estar apenas no prédio. O prédio é agora a própria América.
O conceito é simples e brilhante na sua perversidade: os Estados Unidos transformam-se num velho hotel em decadência, de seu nome Usona (acrónimo de United States of North America), e cada quarto alberga um dos males que corroem o país contemporâneo. Tecnologia, fascismo, desigualdade, violência, deportação, nacionalismo, anestesia perante o sofrimento, you name it. Casey encontrou assim uma forma de falar sobre política sem transformar o disco num sermão. Como explicou o próprio numa entrevista, esta criação permitia-lhe abordar a realidade americana “sem ser demasiado literal”.
Logo em “The Old Hotel”, somos recebidos com um “Welcome back” que é simultaneamente convite e ameaça. “The difference this time is your appetite for hate” resume uma América em que a crueldade deixou de ser acidente e passeia-se nas ruas, a abordar transeuntes vários. Mais à frente, “the difference this time is there’s no opposition” torna o diagnóstico ainda mais sombrio (que raio andam os Democratas a fazer?!?!?!?). E quando Casey termina avisando que, ao reencontrarmos o nosso antigo eu naquele hotel, “you would be ashamed you were still here”, percebemos que a crítica não é apenas dirigida aos poderosos é sobretudo à nossa/deles complacência.
É essa ideia de anestesia que atravessa “Sounds We Cannot Hear”, primeiro single lançado deste disco, e para mim a melhor canção. O mundo contemporâneo entrega-nos imagens de guerra, morte e sofrimento ao mesmo ritmo com que nos oferece entretenimento, publicidade ou a última celebridade expulsa de um reality show (ou que abandona o estágio). O scroll tornou-se uma espécie de corredor interminável do hotel, onde tudo acontece ao mesmo tempo e nada parece realmente importar.
Musicalmente, a grande surpresa é que os Protomartyr parecem menos interessados em soar zangados do que em soar majestosos perante a ruína. Há trompas, harmonium, xilofones, piano, diria até algumas influências de música do Médio Oriente, escolhas exóticas por parte de Dave Fridmann, que amplia a escala das canções sem lhes retirar a tensão. Confesso que não acompanhei os dois álbuns mais recentes da banda, Ultimate Success Today e Formal Growth in the Desert, mas senti uma grande evolução na expansão sonora da banda. Disse-o em 2017, reforço-o agora: “Das poucas bandas que o mantêm vivo (ainda que ligado às máquinas), os Protomartyr fazem-no com cabeça, tronco e membros.”
Hotel Usona será talvez o disco mais cinematográfico dos Protomartyr, não só pelo retrato criado, mas também pela serenidade que parece que perpassa o disco. A mim fez-me sentir no Overlook Hotel antes de all hell broke loose e Jack Torrance andar por ali de machado na mão a ameaçar a sua própria família. No final, tal como em “The Shining”, parece que estamos num labirinto sem saída. Casey também terá percebido que não vale a pena bater muito mais no ceguinho.
A opção que se nos depara é perversa – o lugar está a cair aos pedaços, mas a música é suficientemente bonita para nos convencer a não fazer o check-out. E esperar que o pequeno-almoço de amanhã tenha mini pastéis de nata.