Por entre as nuances do pop, rock, eletrónica, rap, experimental, electroclash e krautrock, no Festival MIL cabe tudo. Arrancou no Beato com um primeiro dia em crescendo, de conquistar pela leveza e a acabar em grande.
Azáfama, corridas de sala em sala, descobertas atrás de descobertas. Perante uma panóplia de projetos, artistas, e estilos musicais, o Festival MIL entrega um conjunto de palestras, workshops e showcases para mostrar um pouco de tudo o que se faz pelo circuito nacional, lusófono, e internacional. Desde a sua génese que assim o é, outrora quando se caminhava pelos vários clubes do Cais do Sodré, circular por entre a Rua Rosa, ou junto ao rio, ou até por caminhadas quase até Santos.
A magia deste festival acabava por estar bem assente nisso, o networking entre artistas, agentes, e demais entusiastas. Circular por entre o Musicbox, Sabotage, Viking, Europa, Roterdão, Jamaica, Tokyo, Titanic Sur Mer, B.Leza, Lounge, entre tantos outros. Com a pandemia, em 2021, houve um desvio para o Beato, um bocado pelas limitações da altura. Regressaria ao Cais do Sodré em 2022, onde permaneceu até 2024. Por esses anos, várias das salas foram deixando de existir, algumas realocadas. O circuito de clubes ali existente resulta naquilo que hoje temos naquela zona de Lisboa. A aposta na Casa Capitão levou ao encerramento do Musicbox, o que acabou também por levar este festival para o local atual no Beato.
As correrias agora passam pelos diversos pisos do espaço cultural. Este ano, há inclusive palcos exteriores, e concertos de acesso gratuito. Se por um lado se “perde” a magia de andar de clube em clube, os espetáculos acabam por estar ligeiramente mais perto em termos de passos percorridos. Ainda estamos a assimilar o que isso acarreta. Mas vamos aos concertos.
Dia 7 arranca com o projeto a solo de Salma Jô, conhecida vocalista do seu anterior projeto Carne Doce, e de acesso gratuito pelo Terraço. A proposta seria então aproveitar o final de tarde, com uma bebida fresca na mão e bailar um bocado enquanto há luz do dia. Aqui em formato duo com Macloys Aquino, também de Carne Doce, com teclas/synths e guitarra, a dar uma roupagem ora mais eletrónica, ora mais acústica. Um set maioritariamente composto por faixas da banda como “Artemísia” ou “Noite dos Tristes”, e novo single a solo “Hotel”, agradecimentos sempre animados perante um público que foi ficando sentado nos degraus do terraço, mas que foi sentido e abanando a cada faixa. Seria excelente para levantar e bailar, quiçá numa futura passagem por cá, até porque o véu levantado neste formato ficou sem dúvida a pedir por mais.
Ora seguimos para o Sótão, neste dia apelidado de palco Liveurope (iniciativa pan-europeia de salas e música europeia), onde Rita Onofre encantou a sala. A versatilidade dos múltiplos estilos musicais que cada faixa promete, seja por uma eletrónica mais drum & bass, rock e pop, a proposta era mostrar BRUTA, disco lançado este ano. Entra a rasgar logo com a “vai e volta”, abre-se e expõe-se com a “sinto-te tão”, a conexão com o público presente era palpável, com o mesmo a cantar em união. E ainda com direito ainda a uma versão de “Estou Além” de António Variações, foi mesmo de agarrar do início ao fim.
Saltamos para o Rés-do-Chão, por onde Tomé Silva, conhecido baterista de Maria Reis e atual formação de Panda Bear, de piano e eletrónica em mãos, encanta uma sala algo tímida mas a escutar em pleno silêncio. Quase como um descanso e contemplação do que estaria para vir durante o resto da noite. Apresenta Sobreda, disco de estreia deste ano, onde se revela pela vulnerabilidade e os seus próprios desafios.
Voltamos até ao Sótão onde de Bruxelas nos chega cheapjewels, que nos faz navegar por entre o trap, eletrónica “pesadona” e beats de tirar o pé no chão. Daqui sabíamos que iria ser sempre a subir. Com o les introvertixs bz le monde do ano passado, mas já com singles deste ano (“TS CES PORCS” e “BAD!!!!!!”), a proposta é hipnotisante e sem dúvida que deixou a sua marca.
A enchente do dia coube ao trio MÁQUINA, já conhecidos dos seus espetáculos suados, pesadões, de entrega total e comunhão com a pista de dança. Batidas contagiantes, o seu krautrock com laivos de dance, rock, e até metal, não deixa ninguém indiferente, e isso era palpável no Rés-do-Chão da Casa Capitão. Durante mais de uma hora, apresentaram principalmente o seu terceiro disco de originais BODY TRANSMISSION, que acaba por ser a evolução natural do PRATA. Ao vivo, ambas as fases da banda casam na perfeição. Concerto quase ininterrupto, com um crescendo de baile a culminar em mosh e crowdsurf, suado, como se quer. No fim, ainda temos um bocadinho de DIRTY TRACKS FOR CLUBBING, ora não fosse a “.” a faixa perfeita para deixar toda a gente em ponto alto.
Por fim, mais uma visita ao sótão onde não poderíamos ter terminado da melhor forma. Hate Moss, projeto Italo-Brasileiro com sonoridade pujante do electro-clash bem rasgado. Com o seu recente disco A Hot Mess lançado este ano, munidos de bateria e synths, muito interventivos, imparáveis, que resultou na sala a encher a cada compasso e a terminar a pedir por mais. O público bem tentou, a dupla queria, mas a sala não o permitia. Quiçá numa próxima.
Primeiro dia realizado, num autêntico crescendo e que deixou as hostes bem prontas para os seguintes que se seguem.
Texto de Fábio Pais
Fotografias de Felipe Kido

















