Panda Bear e Sonic Boom estão de novo juntos. Ao que parece, era apenas a question of when até ao seu regresso.
“Sometimes I wonder, late at night
How these things can all come right”
(versos da canção “Lucky Charm”)
A ? of When, o segundo longa-duração entre Noah Lennox (Panda Bear) e Pete Kember (Sonic Boom) está já aí, ao alcance de todos. A primeira nota que aqui deixamos é tão certa quanto isto: o álbum parece consolidar uma das parcerias mais estimulantes e singulares da pop dita psicadélica dos nossos dias. Após o aclamado Reset (2022), que vive muito de samples dos anos 50 e 60, a dupla regressa com uma obra artisticamente ambiciosa e que, parece-nos, desafia não só as normais convenções sonoras, mas também as dinâmicas de distribuição da indústria atual, ao optar por manter o registo fora das habituais plataformas de streaming, coisa que vai acontecendo cada vez mais, diga-se.
Por aqui, pelo Altamont, Panda Bear é um artista bastante estimado, e não apenas em nome próprio. Mesmo assim, julgamos ser justos no que escrevemos. A ? of When não é um álbum fácil. Ele evita a repetição de fórmulas simples, sendo que as canções revelam uma arquitetura minuciosa que privilegia a textura, o timbre e o ritmo em detrimento de progressões harmónicas mais tradicionais. As vozes parecem fantasmas perdidos ao fundo de um imenso corredor, e isso produz um arrepiante encanto particular. A dupla constrói ambientes sonoros onde reina alguma tranquilidade, erguidos sobre uma instrumentação surpreendente que combina loops de harpa (Mary Lattimore), sequências de steel drums, arranjos de pedal steel e até apontamentos estéticos que piscam o olho a ambientes com diferentes raízes culturais. Esta abordagem confere às faixas um caráter tridimensional, onde as harmonias vocais sobrepostas de Lennox funcionam como cimento emocional que une um certo vanguardismo instrumental a doses bem servidas de doçura melódica.
Muitas e boas faixas há a registar. Aquelas que mais nos ficaram presas aos ouvidos são, para começar, “Pray to You”, uma composição que encerra em si mesma a vertente sonhadora e quase espiritual que caracteriza esta dupla artística. A canção flutua numa névoa psicadélica de reverberação e sintetizadores, criando uma atmosfera de suspensão temporal. Andar nas nuvens deve ser mais ou menos assim. É um momento de introspeção pura e de beleza etérea, onde a vulnerabilidade vocal evoca sons que parecem chegados dos confins dos tempos, convidando o ouvinte a desligar-se do ruído do quotidiano, para se perder num transe pacífico e meditativo. Neuras mais ligeiras podem ser tratadas ouvindo “Pray to You” em repeat. A grande vantagem é não ser necessária qualquer recita médica para que a toma cure irritações e maus humores.
Em claro contraste dinâmico, o tema que dá título ao álbum, “A ? of When”, injeta uma energia contagiante ao registo através de uma pop dançável e, portanto, marcadamente rítmica. A canção constrói-se sobre uma cadência hipnótica, onde guitarras que piscam o olho ao rock mais clássico (houve algum receio ao usar a expressão em itálico, confessamos) se cruzam com efeitos urbanos improváveis, como uma sirene de polícia que se ouve bem lá ao fundo. A batida propulsora que se destaca transforma a canção numa boa onda de otimismo e movimento, dando conta que A ? of When também é capaz de fundir algum experimentalismo rítmico com refrões sonoros que funcionam perfeitamente numa qualquer pista de dança menos exigente.
Se há pouco destacámos “Pray to You” e também o tema que dá título ao álbum, é igualmente justo referir “Never Givin’ In”, bonita balada psicadélica que abre o disco, assim como “Lucky Charm”, momento crocante de energia cósmica que nos agarra logo à primeira audição. Ou ainda a muito imaginativa “Something Like Dreaming” e a soberba “Like a Moth”, transgressora, inquietante, que dança entre alguma luz e um certo apelo maior pela sombra. Façam atenção às palavras cantadas, e não se arrependerão.
A ? of When é um álbum que tem o coração aberto. Parece ter sido feito durante uma longa noite artística, ambientada por céus onde há estrelas que brilham, cometas que passam, mas também nuvens densas que precipitam sobre nós estados de alma que derivam entre alguma agitação e dose idêntica de sossego. Ao equilibrar a melancolia existencial com uma mão cheia de luz e de esperança, Panda Bear e Sonic Boom assinam um disco que pode perfeitamente não ser para todos os gostos, mas que é, seguramente, um trabalho irreverente, feito por artesãos que continuam a expandir as fronteiras da música pop moderna. Voltaremos a lembra-nos dele, lá mais para o final do ano, quando estivermos entretidos a pensar nos melhores discos de 2026. Seguramente.