Jalen Ngonda não pretende ser um clássico futuro, mas, sim, um clássico do passado.
Jalen Ngonda tem pouco mais de dez anos de carreira – lançou o seu primeiro álbum em 2023 – mas soa a um clássico de 60. Alegou estranhamente, numa entrevista ao The Guardian, que não tem intenção de transformar a sua música num espaço de nostalgia e, no entanto, o seu estilo é como que uma réplica perfeita da época de ouro da Motown, a lendária editora de soul e R&B. Várias testemunhas do tempo passado nesse oásis musical, que tomou lugar entre os anos 60 e 70, e no qual se incluem grandes personalidades como Smokey Robinson e Stevie Wonder, falam de uma espécie de magia que havia no modo como os músicos escreviam, interpretavam e tratavam a música. Jalen em Doctrine of Love procura essa magia.
Não é descabido pensar que este seu segundo álbum poderia agradar a Barry Gordy Jr., o dono e fundador da lendária editora Motown, famoso pela sua exigência de pedra. Pois, embora o seu produto fosse muita da melhor música feita durante o século XX, Gordy tinha a sensibilidade de um autêntico homem de negócios, e punha sempre em primeiro lugar as tabelas comerciais antes da qualidade artística da própria música, o que dava azo a alguns surtos de “falta de toque” quando devia decidir o que seguia para o público e o que não seguia. O mais célebre tiro no escuro foi em 1966, quando, contra todas as odes, negou a imortal “Heard It Through The Grapevine”. Depois voltou atrás, como todos sabemos. Não quero sugerir hereticamente que Jalen Ngonda esteja ao lado, ou acima, de Marvin Gaye, não – embora pudesse estar bem mais longe. Contudo, quando “Taken Out Of The Picture”, uma música do novo álbum de Jalen, me chegou aos ouvidos pela primeira vez, trazida pelo modo “músicas recomendadas” do Spotify, como uma borboleta rara trazida pelo vento, a minha primeira reação foi censurar com prontidão a minha falta de cultura, porque parecia estar a ouvir alguém que já tivesse estado certamente na mesma sala que Marvin. Como não conhecia este “inequívoco” clássico do soul? perguntava eu, perplexo pela minha ignorância colossal. Não estava a reconhecer a música e, ao mesmo tempo, sentia que devia. Ouvia-a entre o alegre espanto e a afiada culpa de não conhecer aquele piano, aqueles belos arranjos de cordas e aquela portentosa voz. Naquele momento, podia jurar que “Taken Out of The Picture”, que ouvia então pela primeira vez, já tivera cinquenta mil versões e que tinha já sido adorada e venerada ao longo de décadas e décadas pelos meus artistas preferidos, que tinha inclusive inspirado David Bowie a mudar de estilo em 1976 e que o seu autor era já uma estátua de mármore num qualquer jardim municipal. Bom, abri o meu Spotify. Não podia acreditar, era uma música deste ano e, ainda para mais, de um artista novo. Pus um like e, após um curto silêncio, pedi-me desculpa pela rajada de insultos que a mim mesmo tinha injuriado durante aqueles intensos três minutos. Depois de processar tudo, pude finalmente ficar embasbacado. Jalen Ngonda soava a um clássico, e não passa de um mero embrião no mundo da música.
Mas, depois pensei. Jalen não soa só a um clássico. Jalen contratou músicos, escreveu uma série de canções, alugou um estúdio onde passou horas sem fim para soar deliberadamente a um clássico; e isso é inquietante. A música que faz é excelente, bem produzida e irrepreensível ao nível técnico. Brilhante. Mas, porquê usar o seu enorme talento para ser igual a outros? Imita perfeitamente as suas referências (Marvin Gaye, Otis Redding, Stevie Wonder, James Brown, Al Green etc.), enfim, fez-se passar pelos seus heróis, mas, com que objetivo? É senão um lugar estático na história, como um livro de recordações ou um antigo guia turístico onde podemos vislumbrar uma mescla do que de melhor houve no soul e R&B dos anos 60 e 70: a voz de Al Green (ligeiramente semblante em Jalen), os ritmos de James Brown, as composições de Stevie Wonder, a produção das músicas das Supreme (notando especialmente no uso alargado da pandeireta), etc. No final de contas, gostar da sua música passa necessariamente por gostar da música de Marvin Gaye ou de outro qualquer. Não há nada de realmente característico em Jalen. Só que isto não parece incomodá-lo de forma alguma, porque na sua música está bem explícito um simples facto: prefere o Marvin Gaye do que a si. Sacrifica, de maneira pensada, a tentativa de forjar uma identidade própria em nome de algo que considera maior: a música que ama. Ao soar deliberadamente a um músico da Motown, Jalen quer realmente fazer-se passar por uma memória desses tempos longínquos, como se recortasse a sua imagem e a colasse numa fotografia velha, com o objetivo de voltar a ser olhada.
Assim, Jalen não pretende ser um clássico futuro, mas, sim, um clássico do passado. Ou, melhor, fazer música como um. A música está em primeiro lugar. É uma paixão que o acompanha desde pequeno, que alimentou na adolescência – aos dezasseis anos tornou-se proficiente em vários instrumentos – e que refinou durante os seus anos no instituto LIPA, em Liverpool, fundado por não outro que Paul McCartney. “Doctrine of Love” exprime essa paixão, desde a primeira até à última música, onde cada nota é tocada com a alma nos dedos. Músicas como “Mr. Train Conductor”, “Burning Temptation” e “Doctrine of Love” têm qualquer coisa que não pode ter vindo nem de aulas nem professores, nem conhecimentos técnicos. É algo que já estava em Jalen quando ouviu “My Girl” dos Temptations pela primeira vez com onze anos. Uma magia. A magia que também vive nas músicas editadas pela Motown durante os anos 60 e nos músicos que nelas participaram. Jalen parece-me que desta vez soube explicar: é só seguir a “doutrina do amor”. O amor pela música.