Listas

Os 25 melhores discos de 2015

18.Jim O’Rourke – Simple Songs

Quatro anos depois de The Visitor, Jim O’Rourke traz-nos agora “canções simples”.Este era um disco que cabia bem ali na colecção dos anos 70: ambicioso, grandioso, mas com sensibilidade rock, a saber jogar no limite do foleiro mas encontrando-se do lado de cá pelo bom gosto, pelo pouco histrionismo e pela recusa na procura de soluções simples para as canções. Na realidade O’Rourke faz um disco de uma delicadeza (ou sensibilidade) melódica, por vezes quase épica, que tem esse espírito rock sem necessariamente ser puramente rock – nos instrumentos utilizados, no formato da canção e na acalmia que por vezes paira no disco (essencial o uso do piano). Aquilo que se seguirá a este The Visitor é um ponto de interrogação dos grandes, e a dificuldade de o catalogar e de o encaixar na indústria é também o que o torna um dos actores mais singulares da música americana destas primeiras duas décadas.

17.Panda Bear – Panda Bear Meets the Grim Reaper

Há em Panda Bear Meets the Grim Reaper sons dispersos, meio caminho entre a natureza e a urbe, mas aqui aliados a sonoridades mais robustas e encorpadas. Este é um disco com apontamentos funk e até hip-hop, algo não escutado até ver na obra de Noah Lennox. Contemplativo, este é um trabalho de pormenores. Prendendo nas primeiras audições, ganha com a permanente descoberta de novos elementos, um loop antes não detetado, uma vocalização sobreposta que não parecia assim tão pertinente, um som vindo de outro mundo e que facilmente atraca num todo só aparentemente disperso e cacofónico.

16.Benjamin Clementine – At Least For Now

Benjamin Cementine chegou-nos levantado do chão, vindo do Nada. Do remanescente – os seus dedos – galgou velhos novos trilhos no piano; da reminiscência – os seus olhos – esculpiu singulares textos de superação do intransponível. Todos os caminhos – o do grande intérprete, o da enorme voz soul, o do escritor de canções prodigioso – foram simultaneamente trilhados e percorridos em At Least For Now. Resta-nos saber: para onde irá agora Mr. Clementine?

15.Deerhunter – Fading Frontier

Esperar por cada álbum novo de Deerhunter tornou-se motivo de ansiedade e sofrimento por antecipação, de modo que há que agradecer desde já ao senhor que atropelou Bradford Cox enquanto passeava o seu cão no final do ano passado, levando-o a conceber este álbum no seguimento do “acidente”. Com uma curta duração, de apenas 37 minutos e 9 músicas, Fading Frontier sabe a pouco. Mas isto pode ser defeito de fabrico, o querer um pouco mais das boas coisas da vida. Qual docinho que se derrete nas nossas bocas, acaba com vontade de se ouvir novamente. What’s wrong with me?, pergunta Bradford. Nós dizemos que nada, Bradford, é continuar o bom serviço público.

14.Boogarins – Manual ou Dia Livre de Dissolução dos Sonhos

Manual, cujo título completo é Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos mantém, naturalmente, a matriz que vinha de trás. As principais diferenças face à estreia são fáceis de identificar e tornam-se evidentes com audições repetidas. Apesar da electricidade, As Plantas Que Curam estava embebido numa candura bucólica, nalguma boa ingenuidade, numa tentativa inocente de buscar algo, e boa parte da sua magia estava aí. Com Manual, estamos a ver o que pode fazer por uma banda um ano na estrada. Um salto enorme de maturidade, de arrojo, de confiança. Uma banda que, agora sim, encontrou a sua voz e confia nela. Um conjunto que, dentro do seu mapa-mundo, encontra novos caminhos para rasgar.

13.Jessica Pratt – On Your Own Love Again

Ao ouvir o disco, não há como não imaginar Jessica Pratt em casa, com a sua guitarra acústica, absorta na música e em si própria, profundamente fechada ao que se passa “lá fora” – ainda que seja uma imagem algo ilusória, porque não só de guitarra acústica e voz se faz o disco, e há um perfeccionismo na condução das canções e na construção do disco que é seguramente menos espontâneo do que aparenta; e com isso sentimo-nos também nós absortos na beleza das suas composições, nos sonhos que nos canta e na partilha das imagens que lhe vão passando pela mente.

12.Jamie xx – In Colour

Se em vez de estrelas, os álbuns fossem avaliados em ‘x’, In Colour de Jamie xx tinha quatro em cinco. Isto, portanto: xxxx. Jamie xx não cortou o cordão umbilical à nave-mãe, os The xx. Também não tinha que o fazer. Antes escolheu levar o melhor de si e do que, diga-se, dá aquela banda e reinventou-se. Se tivermos de fazer um risco no chão e separá-los, a grande diferença é a alegria. Deixa para trás a melancolia (que sabe tão bem) no som dos The xx e quando se destapa o véu do LP de estreia, o que se encontra é cor, energia. Ao ouvir Jamie xx, não ouvimos só o que toca e o que mistura. Ouvimos o que ele já ouviu. Ouvimos o que Jamie xx ouvia quando era só Jamie Smith. Um dos principais traços da sua música é a memória, o que o influencia. Está presente sem ser óbvio, é gritante sem ser ensurdecedor.

11.Patrick Watson – Love Songs for Robots

Ouvir Patrick Watson é viajar através dos sentidos. Primeiro o tacto: não existe poro que não estremeça e que não coloque os pelos no ar. As emoções florescem e a mente é obrigada a desligar: entra em modo meditativo. Nos álbuns anteriores surgiria uma música pelo meio a interromper esta dormência porque o corpo queria dançar. Aqui não. Aqui não ficamos robotizados apesar do título ser convidativo. Ficamos meio dormentes mas estranhamente acordados. O corpo pede movimentos ondulados, simples e fantasiosos. Somos uma serpente que ondula ao som dele. Há um quê de delicodoce na voz deste senhor e também na musicalidade das suas canções. Há uma viagem, mas é um ir e ficar. É talvez uma viagem interior, de contemplação. A visão desloca o seu propósito e olhamos para nós. Desfocamos para nos focarmos. A audição, que tem o papel fundamental na música, é aqui uma via de acesso a algo mais. Mas não é racional, é como se os ouvidos estivessem ligados à pele e ao coração. Tudo estremece.

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