Reportagens

NOS Primavera Sound 2019 – Dia 2

O segundo dia do NOS Primavera Sound trouxe o bom tempo e um punhado de ótimos e variados concertos. De J Balvin a James Blake, houve de tudo um pouco.

Apesar do dia se anunciar soalheiro, foi mais uma nuvem negra a assolar um inédito na história do festival portuense: até agora, quatro cancelamentos, juntando-se a Kali Uchis, Ama Lou, Peggy Gou, ao qual se juntou o francês Mura Masa, previsto para tocar no palco SEAT às 20:50. Sem substituto possível tão próximo do momento, a vida continua, como sempre, e, apesar dos constrangimentos atribuídos ao malfadado radar do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, o dia desenrolou-se de resto com a normalidade esperada e com expetativas desafiadas, superadas e ganhas num dia cheio de música.

Início do segundo dia com dois concertos ao mesmo tempo: a melhor das notícias é que ontem ninguém se molhou. Antes assim. Do lado SEAT, Surma, no palco principal, Profjam. Sol e calor, portanto, no início do final da tarde e Surma e Profjam mostraram exatamente o que esperávamos deles. Mas ladies first, por isso comecemos por Débora Umbelino, a leiriense que já vai sendo do mundo e que todos conhecemos por Surma. No Palco Seat, às 17 horas, a sua cativante forma de estar na música revelou-se uma vez mais. Os ambientes algo fantasmagóricos são sempre de considerável beleza e a sua linguagem (o surmês?) adapta-se bem à música e ao jeito irrequieto da artista. Os últimos tempos têm sido fantásticos para Surma. Ela bem merece. Começar um concerto às cinco da tarde não é fácil, mas Surma soube honrar o compromisso e foi francamente boa a sua performance. A sua e dos que estiveram no Palco com ela, dançarinos incluídos. Já Profjam esquentava o palco maior do festival, com o braço direito da sua célebre Think Music, Mike El Nite, atrás da mesa, lançando como bombas atómicas os baixos avolumados que temperam alguns dos maiores temas do rapper lisboeta de verdadeiro nome Mário Cotrim, que lançou no início do ano o seu álbum de estreia, #FFFFFF.

Surma

A “menina” crescida com voz de bebé começou o seu concerto à hora marcada e em bom ritmo. A música é enleante, como já se sabia, e os sentidos rítmicos e melódicos apuradíssimos. Por vezes é fácil imaginarmos que Aldous Harding vive numa floresta repleta de sons delicados e bonitos, sobretudo quando se senta de guitarra acústica nas mãos e começa a debitar instantes sonoros em jeito sonhador. Tem uma excentricidade muito própria, olha para o céu enquanto canta e sussurra, ao mesmo tempo que parece perdida em palco e em si mesma. Quando combina a sua com as vozes masculinas dos seus colegas de banda, atinge-se uma espécie de milagre que se espalha pelo público, rendido aos encantos da artista.

Se Aldous Harding arrastou a maior parte dos visitantes do segundo dia de NOS Primavera Sound para diante do palco principal pouco antes das seis da tarde, à hora certa desvendava-se o tesouro de Jambinai no palco SEAT. Depois do susto (mais nervosismos aéreos), o vanguardista quinteto de pós-rock que chega ao Porto vindo da Coreia transforma o antigo no futuro, e a sua música tem tanto as familiares guitarra com distorção como de sonoridades para nós longínquas, oriundas de instrumentos tradicionais coreanos como o “geomungo” (mais cordas para esticar) e o “piri” (mais fôlego para soprar). Jambinai são sempre um presente e sentimos sempre que não os recebemos tão bem como nos agradecem. Mas, desta vez, a prenda é dupla: pois é precisamente hoje, dia 7 de junho, que lançam o seu novíssimo ONDA, o segundo com o selo da Bella Union. Não temos de quê.

Aldous Harding

Corremos de seguida em direção ao palco Super Bock para ainda tentarmos ir a tempo de ouvir Nilüfer Yanya. Em pouco mais de quinze minutos, o que conseguimos escutar foi o suficiente para lamentamos ter perdido o concerto da artista e da sua banda. Muitas mulheres em palco. Female rules, so they say e é bem verdade. Pena ainda maior foi não termos conseguido ouvir a cover dos Pixies de “Hey”. Enfim, não nos lamentemos. Logo no Palco ao lado havia mais para ver e ouvir.

Tocar guitarra não impede que pessoas morram. É mais ou menos isto que se diz na enorme canção de Courtney Barnett chamada “Dead Fox”, tema com que abriu o seu concerto. Em formato power trio, a menina das guitarras swingantes deu espetáculo. Com o seu jeito algo displicente, cativa até os mais incautos. Não só as canções são ótimas, como também as letras cantadas / faladas são enormes (até na extensão, inclusivamente). Deve muito disso a Dylan, como é fácil perceber. Tudo em Barnett é sedução. A começar nos riffs e a acabar no olhar. Um autêntico perigo à solta. Que enorme concerto, o de ontem. Milhares de pessoas rendidas. O rock está vivo e continua a ser a salvação!

Courtney Barnett

Se o saxofone robusto de Nubya Garcia, jovem promessa londrina da nova cena do jazz britânico e protegida do lendário curador musical Gilles Peterson, inspirava o público a encontrar um ninho no relvado beijado pelos últimos mas intensos raios de sol do dia, a fusão apetitosa de Sons of Kemet atirou-os do chão pelos ares durante mais de uma hora de energia inacreditável. Em formato XL (contam-se em palco não duas, não três, mas quatro – ! – baterias), o saxofone de Shabaka Hutchings e a tuba de Theon Cross entrelaçavam-se sem esforço numa celebração de humanidade que teve tanto de encantadora como de frenética. Quando o relógio bateu nas nove e meia da noite, era impossível localizar um ser humano que não se encontrasse num estado de dança perpétua no meio de temas como “My Queen Is Harriet Tubman” ou “My Queen Is Angela Davis”, ambos retirados do seu aclamado terceiro álbum de estúdio, Your Queen Is A Reptile, lançado na primavera passada pela Impulse! Records. Sem dúvida, um dos grandes exercícios físicos e espirituais das últimas.

Nilüfer Yanya

Com Mura Musa fora de cena, todos os caminhos seguiam em direção a Shellac, presença já assídua no festival portuense, que subiam ao palco Super Bock pouco depois das nove da noite. Reis do noise rock, fizeram o que deles se esperava. O som de Steve Albini e companhia continua o mesmo. Nada os pára. Rebentam paredes, como se sabe e destroem tímpanos com a maior das facilidades. São peritos na matéria. Com um longo percurso discográfico, os Shellac atuaram como se não houvesse amanhã, quando começava a noite a cair. Competentes para quem os aprecia, ruidosos e apenas isso para todos os outros. O grande momento foi a canção cujo refrão diz “you disgust me Ed Sheeran”. Risada geral. Fomos ficando até os decibéis nos deixarem em estado de K.O. técnico. Foi boa a luta em que, no fundo, todos ganharam.

Uma hora depois, no palco Pull & Bear, era vez da dita “mãe do indie”, Liz Phair, entrar na fotografia. Talvez seja, mas a norte-americana não nos convence nem convenceu. Com o seu nome destacado em grandes letras luminosas no fundo do palco, Liz Phair e a sua banda foram desfilando alguns dos seus temas mais conhecidos num concerto demasiado morno para uma noite que saiu de braço dado com temperaturas menos agradáveis. Com mais de duas décadas passadas sobre Exile In Guyville, o seu disco mais celebrado, Liz Phair, na verdade, continua a ser uma lenda para os rockers do seu país. Ainda bem para eles. Nós, por cá, e mesmo sabendo que gostos são gostos e não se discutem, não alinhamos na conversa.

Os Interpol trouxeram à noite do NOS Primavera Sound um certo perfume do rock alternativo dos anos 80. Continuam bons e competentes e asseguram um concerto bem rasgadinho. Poderosos em palco (com jogo de luzes a condizer), a banda não deu descanso aos milhares que os foram ver e ouvir no Palco Seat. “Fine Mess” foi um dos momentos altos e foi também dos mais recentes temas tocados. Algumas boas malhas daquelas que fazem levantar estádios, mas vai sempre faltando o rasgo de génio que gostaríamos que tivessem. “Rest My Chemistry”, já velhinha e a fazer lembrar os REM (mas não o dos álbuns mais icónicos) caiu bem a meio de um concerto em que pouco houve de importante a registar. Cumpriram e apenas isso. Não ficará para a história a passagem dos Interpol no NOS Primavera Sound de 2019.

Vinte e dois e um quarto e palco NOS cheio até ao topo da colina que antecede o anfiteatro natural daquele que costuma ser conhecido como o olimpo dos reis e rainhas do dito “indie”: um palco pisado em tempos passados por Nick Cave, Blur, Patti Smith, e muitos outros. Mas diz-se por aí que quem vem dar o próximo concerto está a tocar simultaneamente em todos os bares e discotecas deste país e do seu vizinho. Falamos, claro, de J Balvin, sensação colombiana cujo “Vibras”, quinto álbum de estúdio, bateu todos os recordes possíveis junto do público e ainda meteu um sorrisinho nos lábios dos críticos. “Reggaeton” é a palavra proibida: e, a poucos minutos da entrada do homem por detrás de sucessos enormes como “Mi Giente” ou “Con Altura”, vemos o género tabu que tanto perturba o típico fã daquele palco fincado em letras garrafais no projetor. Ao início, parece um dito “statement”, uma afirmação de poder, uma bandeira plantada a assinalar a conquista de um território pouco convidativo para aquele que deve ser um dos maiores artistas do planeta terra em 2019. Mas, após um ou dois girares de anca ao som “daquela música que ouvimos uma vez quando fomos sair”, descobrimos que o sabor de Balvin perde-se à quinta mordidela, como uma pastilha rasca, e que nem as hordas de dançarinas e projeções psicadélicas conseguem recuperar o doce travo de risco e novidade. Mas, com a plateia que teve, apenas podemos prever que fez alguém, ou muitos, felizes. E, seja tal feito com uma bateria ou com uma mesa, é sempre o final absoluto de um festival de música.

Se guardar os trunfos para o fim é o mais normal, os Fucked Up decidiram quebrar essa regra e surpreender quem se juntava no palco SEAT para os ver. À hora marcada, em vez dos canadianos subiu ao palco um grupo de alunos da Escola do Rock de Paredes de Coura e tocaram uma cover da banda que, no final da aplaudida performance surpresa, então subiu ao palco e, durante uma hora, apresentou o seu mais recente disco Dose Your Dreams (2018). Ao início o público mostrava-se algo reticente e frio face ao hardcore punk dos Fucked Up. Contudo, a presença eletrizante de Pink Eyes – que entre saltar e andar irrequieto de um lado para o outro no palco e arranhar uns passos de dança mais arriscados arranjou maneira de fazer de garrafas de água chifres – e passagens pelo aclamado David Comes to Life (como “Queen of Hearts”) conquistaram a alma da plateia. Rendido aos encantos da banda de Toronto, o público despediu-se de uma fantástica atuação com emoção e furor – tanto que Pink Eyes decidiu retribuir e, já findo o concerto, foi distribuir fortes abraços pelos fãs.
James Blake

Uma da manhã: encontro marcado com James Blake no maior palco que o festival lhe consegue dar, e, mesmo assim, não parece ser suficiente; o músico, produtor e compositor britânico, uma das suas exportações mais favoráveis para o universo da música alternativa da última década, contava com uma plateia invejável quase capaz de rivalizar o seu muito, muito diferente antecessor. Sentado ao teclado, quase sempre, Blake falou com a plateia gigante com a mesma serenidade com a qual falaria com uma audiência de vinte pessoas. Mas quando tocou, tocou absolutamente seguro de que sabia que o mundo estava com os olhos vincados nele. Blake e banda (que incluiu a curiosa adição de uma guitarra elétricas) ensinaram-nos o brio. Abrindo com a linha de sintetizador doce de Assume Form, faixa que dá ao nome ao seu mais recente disco, Blake mostrou, ao longo do seu espetáculo, que o podem acusar de muito, mas nunca de ser chato: desde uma versão de guitarra lindíssima da já por si bonita Are You In Love?, ao esforço investido em assegurar os temas feitos a meias mesmo sem o/a convidado/a (como “Barefoot in the Park”, com Rosalía, ou Where’s The Catch?, com Andre 3000), aventurou-se ainda por uma jam eletrificante de música de dança que só queríamos que nunca encontrasse o seu acorde acorde final. Ainda houve tempo para recuperar do passado Timeless, de 2013, e, finalmente, o momento que até quem torce o nariz ao Dubstep meets R&B meets Pop Soul e tanta mais coisa de Blake esperava: a saudosa Retrograde, tema gigante, a deixar para sempre na memória a sequência da voz limpíssima do cantor a entoar: “suddenly i’m hit…”, seguida de uma onda de sintezitadores exuberantes que nos arrebatam do peito o ar. A nota máxima num dia no qual o palco principal oscilou entre o frio e morno, apenas para deitar tudo a arder no que foi um dos concertos que levamos desta edição do NOS Primavera Sound.

Pouco antes da uma, apagaram-se as luzes no palco Pull and Bear. No meio daquele fundo escuro, só se via a luz de presença do computador. Ao ver aquele cenário, o público começou a ficar ansioso e a gritar por Peggy, nome por que Barrington Hendricks é mais conhecido. E então, quando JPEGMAFIA entrou em palco a aclamação foi imensa. Depois de admitir estar bastante high, fazer login no computador e abrir o iTunes, Peggy – sozinho em palco – começou a testar os limites do público com “VENGEANCE | VENGEANCE”, a banger pesada de Denzel Curry saída do álbum TA13OO. No entanto, o primeiro momento de verdadeira loucura da noite foi quando Peggy lançou o sample de voz demente de “Real Nega” – possuído por um êxtase elétrico, o público não parou de saltar e juntar-se a JPEGMAFIA nos vocais. O mosh pit insano praticamente nunca fechou. Durante uma hora, Peggy juntou-se por diversas vezes ao público numa orgia crua de suor, carne, fúria e muito amor. Entre crowdsurf, cantar nas grades ou mesmo no meio do público – sentado por ordem sua -, Peggy fez a festa como quis. Além de êxitos de Veteran como “Thug Tears”, “Germs” ou “I Can’t Wait Until Morrissey Fucking Dies” (dedicada ao músico que mais odeia), ainda houve espaço para uma fantástica nova música, que deixa a curiosidade aguçada para o próximo projeto do ex-veterano da Força Aérea americana. No final, Peggy recebeu uma das maiores ovações deste NOS Primavera Sound e não conseguiu conter a emoção perante um público tão maravilhoso e lançou um sentido “thank y’all, I love y’all”. Mas depois desta hora de entrega e energia absurdas, nós é que agradecemos. Damn, Peggy.

A tarefa de fechar os palcos extra-Primavera Bits foi entregue a Sophie, enigma escocês que se multiplica em significados a cada raspar do ouvido no seu pop alienígena. No Palco Pull & Bear, pouco depois das dois e meia da manhã, entrava em palco, pousando plácida por detrás da sua extensa mesa diante do público ao rubro. Com os baixos ligados no volume máximo e o piscar do strobe a pontuar com luzes gélidas os corpos mexidos, levou a audiência numa viagem mirambolante por remisturas e reimaginações de temas como “Whole New World”, “It’s Okay To Cry” e “Ponyboy” (tudo canções pescadas de Oil Of Every Pearl’s Un-Insides, lançado no ano passado através da já lendária PC Music). Apesar da ausência dolorosa de “Immaterial”, e o final do concerto viu-se pontuado com a entrada em palco de uma figura misteriosa de cabelos compridos que conseguiu sacudir a focada produtora do seu pódio e fazê-la abanar o corpo ao som do seu bubblegum desnaturado, agora connosco.

Os mais resistentes desapareciam para dentro da bolha de betão do Primavera Bits para aquecerem de mãos dadas ao techno da alemã Helena Hauff. Outros entretiam nos lábios uma última batata frita ou gole de cerveja. Algumas caras confusas reuniam-se diante da entrada do recinto espetando o pescoço em direção ao Uber procurado. Acabava mais um dia no NOS Primavera Sound. Amanhã, o último, recheado de nomes esperados: Rosalía, Jorge Ben Jor, Big Thief, Nina Kravitz, Erykah Badu, Low… Tantos que já só nos resta dormir por cima das reticências e rezar pelas melhoras do radar do aeroporto de Francisco Sá Carneiro.

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Texto: Beatriz Negreiros e Carlos Vila Maior Lopes || Fotografia: Inês Silva (em actualização)