Reportagens

NOS Primavera Sound 2019 – Dia 1

O NOS Primavera Sound começou com mau tempo. Pequenos dilúvios que em nada alteraram a vontade de assistir a ótimos concertos. Stereolab e Jarvis para uns, Solange e Danny Brown para outros. Foi grande a variedade.

A Depressão Miguel decidiu aparecer ser ser convidada e isso fez com que as portas do Parque da Cidade abrissem um pouco mais tarde. Entretanto, a chuva e o vento foram diminuindo um pouco de intensidade e o arranque do NOS Primavera Sound 2019 pode assim fazer-se sem problemas de maior. A primavera (a estação do ano) já não é o que era, mas o Primavera continua pujante e com as particularidades de sempre: boa música, bom ambiente, gente que sabe estar e receber. Por isso, a equipa Altamont andou por todo o lado, assistiu a vários concertos, fez-se presente nas redes sociais e agora dá-vos conta do que foi vendo e ouvindo. Os nomes maiores do cartaz do primeiro dia, os menos conhecidos, pouco nos escapou. Depois foi apenas fazer a filtragem do que nos pareceu ir ao vosso encontro. E, por falar em “encontro”, estamos hoje aqui e estaremos neste mesmo sítio nos próximos dois dias. Combinado? Vamos lá a isto, então! Pelo menos nós, o Altamont, não cancelamos a nossa presença. O NOS Primavera Sound não terá culpa dos cancelamentos, mas que já são alguns, lá isso são.

Depois do descendente cabo-verdiano e sensação nacional Dino D’Santiago batizar o palco maior do festival, foi a vez da nativa do país vizinho Christina Rosenvinge o pisar. O indie pop-rock da “Nicole Kidman” espanhola começou a debitar decibéis à hora marcada. Pena não ter vindo com o grande Nacho Vegas, o que teria sido ainda melhor. Melodias bonitas, um jeito simples mas eficaz de fazer música que teima em passar ao lado do que de mais mainstream se vai fazendo em Espanha, o que sempre nos deixa mais satisfeitos e descansados. Ora mais suave, ora mais eletrizante, a “menina terrível” da música elétrica do país vizinho não esmoreceu perante o pouco público que tinha à sua frente. Ainda bem. O Palco NOS Primavera Sound abriu com sotaque de Madrid e com qualidade generosa. Há em Christina algo onírico que cativa, e ontem apercebemo-nos disso uma vez mais.

Men I Trust

Pouco antes das sete da tarde, os canadianos Men I Trust, cuja modesta formação consiste em Jessy Caron no baixo, Dragos Chiriac no teclado e Emma Proulx na guitarra e na voz, subiam ao menor palco, mas não por isso encantaram menos pessoas com o seu selo distinto de indie pop aéreo. A voz naturalmente ensonada e perfeitamente afinada de Proulx desliza-lhe da boca sem dificuldades, e embalou o público que ia crescendo tema após tema, numa setlist que saltitou entre os álbuns Men I Trust, de 2014, e Headroom, de 2015. Com um concerto embebido numa atmosfera de boa disposição, os Men I Trust ajudaram a acalmar os corações que saltavam no peito com (mais um) cancelamento – Peggy Gou, que deveria atuar mais tarde no palco Primavera Bits, que atribuiu a sua ausência ao cancelamento do voo necessário de Berlim para o Porto, a ser substituida por DJ Fra. Mais além, no palco SEAT, a dita promessa da música electropop portuguesa, Mai Kino, ou Catarina Moreno, apenas aborreceu (sendo apenas de notar uma versão competente do clássico “Eyes Without a Face” de Billy Idol), e as cabeças tanto rodavam do palco em direção à zona de restauração como a caminho dos lendários Built to Spill, que voltavam a aquecer o palco principal do festival portuense pouco antes das oito da noite.

Built to Spill

Faz já vinte anos que Keep It Like a Secret surgiu no indie-rock norte-americano e os Built To Spill resolveram revistar esse seu quarto longa duração ao ponto de fazerem uma tour para o tocar de novo. Os fãs bateram palmas e muitos deles foram ouvi-los ontem, quase à hora do jantar, no Palco NOS Primavera Sound. Já sabíamos ao que íamos, portanto. Keep It Like a Secret é um disco bastante imediato e acessível. Não tem nada a esconder e é direto como poucos. Duas décadas depois ainda se ouve com agrado, o mesmo agrado original do longínquo fevereiro de 1999. “Carry The Zero”, por exemplo, mantém a mesma frescura com que saiu à rua pela primeira vez, o que é sempre ótimo sinal. As guitarras sempre presentes, a voz de Dough Martsch no seu registo inconfundível fizeram com que ninguém desse crédito a umas nuvens um bocado mais chatas. O bom barbudo e a sua banda mataram saudades do bom e velho indie-rock made in USA.

Miya Folick

Simultaneamente, a voz omnipotente da americana Miya Folick ia puxando algumas pernas em direção ao palco Pull & Bear (nome que se refere aquele mais conhecido como palco ATP por antigos do festival) para ouvir o seu misto de tudo o que bate no rock com tudo o que agrada no pop. A música que a cantora (que lançou o seu LP de estreia Premonitions em outubro do ano passado) apresenta cai facilmente no esquecimento quando o estômago já se contorce de fome, mas a sua crença cega em tudo o que canta e diz acaba por fazer do seu concerto um que não é completamente ignorável, se bem que um adjetivo acima de “giro” seria conferir-lhe um elogio que ainda assim não consegue justificar.

O maior de todos os dandys do pop-rock (enfim, disputará o podium com Neil Hannon, certamente) entrou em palco depois de uma introdução estilosa de “Heart of Glass”, dos Blondie. Bom início. Elétrico, como sempre que se apresenta em palco, Jarvis Cocker e a sua nova Jarv Is (também não haverá rock star mais narcisista do que ele, como se percebe pelo nome do seu novo projeto) entraram em grande e em grande se mantiveram sem “further complications”. Jarvis Cocker é um bicho de palco, uma persona que não se cansa de reinterpretar. O seu sentido de humor é mítico e durante os seus “banters” entre canções isso torna-se bastante evidente. O seu novo single “Must I Evolve?” é uma belíssima malha e o concerto de ontem foi verdadeiramente inesquecível! Assim como foi boa a surpresa de “His ‘n’ Hers”, dos saudosos Pulp. O dono daquele fatinho de bombazine continua a ser um dos maiores.

Jarvis Cocker

Apesar da maldição da hora de jantar, o canadiano MorMor, brilhando de guitarra nas mãos sob um véu de tons arroxeados, encontrou ainda algum público, que não resistiu às guitarras e teclados de um indie particularmente irresistível que temperam temas como “Outside” ou “Heaven’s Only Wishful”. Mas era hora de comer e de correr para assistir a uma das mais entusiasmantes confirmações do NOS Primavera Sound 2019, a marcar presença no palco principal pouco depois das dez da noite.

O que dizer acerca de Danny Brown, monstro de sete cabeças do hip-hop norte-americano da última década, cada disco, single, verso ou ideia mais louca do que a anterior? O palco principal enchia-se de gente para receber um dos nomes mais esperados da edição: a atmosfera era elétrica mesmo antes do rapper de Detroit entrar em palco ao som de “Paint It, Black”, dos Rolling Stones, banda-sonora que parecia antever a selvajaria que se avizinhava. Durante cinquenta minutos que souberam a pouco, Brown, auxiliado por um DJ munido de uma energia contagiante, fez um pouco de tudo: dançou, saltou, correu, e, claro, cuspiu cada e uma palavra dentro do tempo e da força que cada uma das suas birutas canções exigem: e o público seguiu-o fielmente. Fosse em sucessos monstruosos como “Really Doe” e “Ain’t It Funny” a temas novos como “Best Life” (uma antevisão do quinto disco que prepara para sair ainda este ano), as vozes dos antigos e novos fãs da música de Danny Brown esforçaram-se ao máximo para lhe entregar todo o seu amor, algo que o artista não pode ignorar, e lá veio a clássica classificação de “melhor público” na qual começamos a acreditar.

Danny Brown

Recuperado o fôlego arrebatado do peito pela energia elétrica que ainda estalava no grande palco vazio, seguimos em direção ao palco SEAT de novo, desta vez para assistir a outra grande promessa da noite: os Stereolab. É uma banda única que sempre procurou um som próprio, embora roubando aqui e ali, o que só lhe fica bem. A vertente kraut com a eletrónica e o rock e com mais qualquer coisa de indecifrável é ótima! A música lounge dos anos 50 e a música brasileira também marcam os Stereolab, sempre dançantes, sempre um pouco à frente, sempre a inovar. É certo que longe vão os tempos de Peng ou de Emperor Tomato Ketchup, mas os franco-britânicos continuam em forma e aconselham-se. Se é verdade que já não são crianças, o som permanece fresco. Deixaram escola, o que é coisa de admirar. Assim à partida, os Pram devem-lhes quase tudo, por exemplo. Os moogs e os farfisa ouviram-se bem alto ontem, no Palco SEAT, e com eles se passou a meia noite. A chuva ameaçou novo dilúvio, mas portou-se bem, tal como os rapazes e a menina em palco. O retrô é o novo chique. E assim dançámos “ping pong” durante pouco mais de uma hora.

Tommy Cash também partilha connosco continente, se bem que o seu som é bem diferente: algures entre o trap, o gabber e até as ligeiras aproximações ao techno, Tomas Tammemets, artista multifacetado chegado da Estónia, fechou o palco Super Bock, e o público recebeu-o de braços abertos, num ambiente de êxtase não muito diferente daquele sentido em Danny Brown. Munido de projeções simples, por vezes irónicas, por vezes grosseiras, e sempre inesperadas, Tommy Cash causou também certamente a surpresa a quem apenas tencionava atravessar o recinto antes de se deparar com a pequena festa que abriu no relvado do Parque da Cidade.

Ainda apanhámos um bocadinho da pop etérea e sonhadora da dupla Let’s Eat Grandma, mas o “prato” estava já no fim. A grande preocupação seria, agora, garantir lugar cativo para assistir em primeira mão ao concerto de Solange Knowles, incumbida de fechar o dia no grande palco.

Se tudo o que se havia visto por esta edição do NOS Primavera Sound até agora poderia ser classificado como um concerto (uns maus, outros bons, outros até excelentes), o que a cantora e dançarina oriunda de Houston, Texas fez no Parque da Cidade foi erguer um monumento colossal. De certa forma, literalmente: o palco NOS, até então relativamente despido de adereços, era ocupado por uma imponente escadaria branca de metros de altura. Quase pontual, cerca de vinte minutos antes da primeira hora da manhã entravam em palco os músicos, de seguida as dançarinas e coro, e, de seguida, a comandante das operações. A dada altura, a mulher por detrás de A Seat at the Table, de 2016, e When I Get Home, lançado há cerca de três meses, falava da sua experiência com o espiritual (relativamente ao seu último trabalho) e como era importante para si partilhá-lo connosco: e, de repente, o anfiteatro natural português transformava-se num lugar de culto a Solange e a sua arte performática, que inclui não apenas as vocais mais belas e impressionantes que ouvimos em todo o dia, mas também dança e teatro físico. Ainda houve tempo para regressar a “Cranes in the Sky” e a “Don’t Touch My Hair”, e, a insistência do público apaixonado em permanecer grudado à artista mesmo quando sobre ele se abateu a chuva mais agressiva que se havia sentido todo o dia inspirou uma versão completamente estreante de “Things I Imagined”. Deu vontade de fechar o festival e regressar para o ano, com dó a quem terá de pisar o mesmo palco de quem o elevou desta forma. Mas amanhã é sexta-feira, e é santa, dia de James Blake, Interpol, J Balvin e Courtney Barnett, para enumerar apenas uns quantos. Algo para todos num festival que, apesar do início turbulento, dá indícios de ver o sol timidamente espreitar finalmente por detrás das nuvens, em todos os sentidos.

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Texto: Beatriz Negreiros e Carlos Vila Maior Lopes || Fotografia: Inês Silva