O Olimpo será demasiado pequeno para Nina?
Sinto que, por vezes, andamos por aqui distraídos a brincar aos mortais, e esquecemo-nos que há deuses, lá em cima, a decidirem o nosso destino. Andava há algum tempo com vontade de escrever sobre um disco de Nina Simone (o que é sempre bom, porque me obrigou a ouvi-la mais vezes, e todos precisamos de mais Nina nas nossas vidas). A indecisão era considerável: Pastel Blues, I Put a Spell on You ou este Wild Is the Wind, uma espécie de trilogia perfeita, três discos que justificam, cada um à sua maneira, um texto inteiro. Acabou por ganhar este último, não por ser necessariamente o melhor dos três, mas porque, no meio das pesquisas para a escrita, descobri que faz hoje precisamente 60 anos desde o seu lançamento. Há coincidências que não valem a pena serem contrariadas, se os sinais dos deuses estão lá, é responder aos mesmos.
Wild Is the Wind é, provavelmente, o disco de Nina Simone que mais ouvi. Não que me tenha acompanhado ao longo da vida, as suas canções sempre andaram a pairar. Mas o grande momento de conquista foi dado por culpa da canção que lhe dá título. Há músicas que são grandes por si só e outras que, em determinado momento, ganham uma vida paralela e foi isto que aconteceu comigo com “Wild Is the Wind”, que assumiu contornos estratosféricos depois de ter sido utilizada na peça “Sopro”, de Tiago Rodrigues. Talvez por isso tenha particular piada que, precisamente esta semana, vá assistir à nova peça do encenador, “A Distância”. O círculo, de alguma maneira, fecha-se.
A canção já tinha uma história antes de Nina Simone lhe pôr aquela voz, naturalmente, tendo sido escrita por Dimitri Tiomkin e Ned Washington em 1957. E continuou a tê-la depois. David Bowie fez dela uma interpretação quase espectral no seu Station to Station, enquanto Cat Power lhe deu uma outra espécie de fragilidade. Duas versões extraordinárias, mas que acabam por funcionar também como prova da dimensão da original: “Wild Is the Wind” parece uma canção que pode ser habitada por diferentes intérpretes sem nunca deixar de pertencer inteiramente a Nina.
O mesmo acontece com “Lilac Wine”. Jeff Buckley tornou-a provavelmente mais conhecida para uma geração inteira ao incluí-la em Grace, mas ainda este ano Arooj Aftab recuperou-a para a colectânea HELP(2), acrescentando-lhe uma dimensão mais fantasmagórica, quase suspensa. É um daqueles casos em que uma canção parece não envelhecer, porque continua a encontrar novas formas de nos atingir.
Mas reduzir Wild Is the Wind aos seus dois grandes momentos seria injusto. O disco, que, reza a lenda, foi feito de restos de sessões para outros discos, é sobretudo um monumento à singularidade de Nina Simone. Há ali jazz, blues, folk tradicional (“Black Is the Color of My True Love’s Hair”), soul, pop e música clássica, mas nenhuma dessas etiquetas chega para explicar o que acontece quando ela se senta ao piano e começa a cantar. A voz nunca procura agradar, pode ser delicada, ameaçadora, íntima ou monumental dentro da mesma frase. Está ali todo o peso de uma vida inteira por trás dela, uma história extraordinária e dolorosa que o documentário “What Happened, Miss Simone?” ajuda a compreender, sem nunca conseguir explicar completamente o fenómeno da personagem que é Nina. Uma lutadora incansável pelos direitos de minorias, cuja amostra neste disco é a incrível “Four Women”, uma sequência de vinhetas mordazes sobre as adversidades enfrentadas por quatro mulheres afro-americanas, e que se destaca como uma das melhores composições de Simone.
E depois há o final de “Before Sunset” (não carregue neste link se nunca viu o filme). Aquele momento, aquele colocar de CD a tocar, aquela voz, aquela dança. Só por esta pequena participação de “Just in Time” na história de Jesse e Celine, Nina Simone já teria lugar garantido no Olimpo (como se fosse preciso mais…).
Volto ao início, andamos por aqui, distraídos, a brincar aos mortais, e esquecemo-nos que há deusas lá em cima, a decidirem o nosso destino. Já que sacríficios animais são actualmente mal visto pela sociedade, pode ser que um texto como este, recheado de links, anexos e amor, sirva para apaziguar a ira dos mesmos.