Será possível mudar o mundo (bolha) em menos de 10 minutos? O primeiro trabalho gravado dos Varge Mondar tem exactamente 8:29 minutos. Fazendo jus ao que já esperamos da banda, o lançamento de Jogo do Bicho é um grito (muito) rápido no meio do caos.
O primeiro registo gravado dos Varge Mondar aparece depois de os já os termos apanhado a abrir para os Mães Solteiras (na Casa Capitão) e terem feito a festa no Gasoline (Roque Rock Fest ||). Filhos do thrashcore, este Jogo do Bicho tem 10 músicas, mas com um total de 8:29 minutos, compreendemos o rótulo de EP.
Lançado pelas recentes editoras independentes Sociedade Abolida e Acid Bode Records em versão digital e cassete, o EP foi gravado no início do ano.
A banda composta Márcio Oliveira (Chiaki Kido), Tiago Delgado (My Rules), Pedro Paulos (The Youths) e Ricardo Mendes (Cave Story e Rival Clubs), prova que em menos de 10 minutos se pode dizer muita coisa e, mais que isso, deixar aquele bichinho (perceberam a piada?) que nos causa vontade de coçar e escarafunchar e procurar por mais.
Com letras incisivas (“Aqui você perde, aqui você ganha, Aqui você sonha e não tem dinheiro” – “Jogo do Bicho”), ou particularmente sentimentais (“Desajustado, insociável, tatuado, sou assim. Amigos esquisitos, música feia e vida torta. É a única autoridade que respeito, Acima da tua nenhuma!” – “Desculpa, Mãe”), ou até com uma esperança que teima em existir (“Ainda bate forte no peito, coração rebelde que insiste em pulsar” – “Espírito Velho”), são músicas que puxam por nós e pedem ação. Isto tudo em menos de um minuto!
Interessante perceber a escolha do nome para este lançamento. Para quem não sabe (eu não sabia), de forma muito simples: o Jogo do Bicho é uma espécie de lotaria ilegal, muito popular no Brasil, baseada em 25 animais e passa por fazer apostas em que saiam determinados animais. É um jogo de fortuna ou azar, assente numa premissa irreal que leva (na sua grande maioria) a uma potencial ruína de quem a joga (como qualquer outro tipo de jogo que envolva dinheiro…)
Como os próprios dizem, falar do “jogo do bicho é falar do bicho humano”. Dito isto, o EP é sobretudo um trabalho muito humano, afirmando que a vida tem tanto de sorte como azar, e que estamos todos cá a fazer o melhor que sabemos, tentando manter o coração no sítio certo.
As músicas são sempre frenéticas, com Márcio Oliveira a conseguir debitar mais palavras por segundo do que julgávamos ser possível, conseguindo que nunca fique aquela sensação de estar apenas a despachar. Não é inesperado, todos os membros da banda têm uma vasta experiência na cena do hardcore e punk, pelo que o som é coeso e muito seguro de si mesmo. Com gritos e rapidez nos instrumentos que nos fazem lembrar bandas como Discarga, WHN? ou Scholastic Deth, os Varge Mondar conseguem criar um som muito próprio.
Na zine que acompanha este lançamento, há uma frase maravilhosa que capta bem o espírito dos Varge Mondar: “Ainda bem que há bandas que sobrepõem 3 guitarras em músicas de 5 minutos, mas nós só queremos tocar rápido, e passar a mensagem de forma igualmente rápida, acabar o concerto em 10 minutos e ter mais tempo para comer seitanas e abraçar os nossos amigos”. O que é que se quer mais deste Jogo do Bicho (Vida)?