Entre folk-rock sereno, crescendos emocionais e canções que soam a abraço, Kevin Morby transforma Little Wide Open num disco sobre aceitar o passado sem perder a esperança no futuro.
A primeira vez que vi o Kevin Morby ao vivo foi no dia 7 de julho de 2019, no São Luiz. Era domingo, fazia muito calor, e eu com uma ressaca monumental (daquelas que parece que vamos falecer a qualquer momento – 0/10 não recomendo), entusiasmo qb. Morby vinha então apresentar o álbum “Oh My God”, em formato a solo, sem banda. Estava eu sentada nas cadeiras do São Luiz (a tentar não falecer), quando, tal raio de luz, apareceu o Kevin Morby vestido de fato branco com alguns bordados coloridos (lindíssimo), acompanhado da sua guitarra eléctrica e sim, magia aconteceu. Eu sei, é uma nostalgia muito pirosa, mas foi uma experiência transformadora (pausa momentânea na ressaca).
Daí para frente, acompanhei sempre o que Kevin Morby foi lançando (e foram tantos os álbuns!), com muito apreço. Esta contextualização serve apenas para vos explicar que ganhei uma espécie de estatuto de super fã, que põe umas lentes mais coloridas sempre que falo dos trabalhos do Morby.
Kevin Robert Morby (obrigada, Wikipédia), músico do Texas, lança álbuns em nome próprio desde 2013 (e antes teve outras bandas) e este mais recente “Little Wide Open” é o seu oitavo álbum de estúdio. Manteve-se coerente na sua sonoridade, sobretudo assente no folk-rock e americana, com alguns laivos de cena mais indie rock (“Singing Saw” ou “City Music“).
Little Wide Open é a continuação bonita dos sons que Morby tem vindo a lançar com os álbuns “This is a Photograph” e “Sundowner”. Ou seja, é um disco contido, melódico, menos guitarradas, mas músicas mais épicas (seja na duração, ou os sons em crescendo como na excelente “Natural Disaster”), ou cheias de esperança (“Javelin”).
Com as já habituais presenças de Aaron Dessner, Meg Duffy e Justin Vernon, não escapamos à sonoridade muito “Morby”, que nunca soa datado, ou “mais do mesmo”. Continua fresco nas escolhas musicais e, achamos nós, cada vez mais seu. Diziam as más-línguas que ele queria ser uma versão mais leve do Bob Dylan, mas, ao 8º álbum próprio, é notório que existe um músico confortável no seu estilo e sem grandes medos de assumir quem é.
Num post que partilhou no seu substack, a propósito deste lançamento, Morby fala da relação especial que tem quando está a desenvolver um disco: When I’m making an album, it’s like I’ve got this tiny secret flame that I carry with me always, tucked away where only me and a few others get to experience its glow. Even with the world unaware, I’ve got my candle, keeping me warm and helping guide my path.
Podemos dizer que este é um álbum que reflecte o calorzinho que nos aquece o coração, pois está repleto de canções bonitas, diria até encantadoras, sobretudo tranquilo, que transmite uma espécie de nostalgia, uma reflexão do que já foi e também um aceitar do que porventura virá.
Como sabemos, a vida não acontece num vácuo (mesmo para os artistas, imaginem), e certamente não será falso considerar que o facto de Morby se estar a preparar para uma nova fase da vida (vai ser pai em breve!), pode evocar uma certa nostalgia pelo que já se passou, ao mesmo tempo que abre espaço a uma esperança para o futuro. No álbum, sentimos esta serenidade de forma transversal, transformando-o em quase numa hora de músicas que mais nos parecem um abraço em formato sonoro.
Nenhum dos assuntos reflectidos em Little Wide Open são únicos e exclusivos, aliás todos sabemos que não há experiências individuais (obrigada, internet), mas depois há pessoas que conseguem transformar esta experiência colectiva numa coisa única e individual, sem perder o sentido de comunidade. Obrigado Kevin, gostamos muito.