Os TV Girl propiciaram um fan service à geração que os descobriu verdadeiramente.
Este texto não foi escrito em ChatGPT, e até rejeita a modernidade. Não tenho o TikTok instalado no telemóvel, mas tenho um sobrinho que o tem. Cada um conheceu TV Girl de maneira diferente: eu, hoje 32 anos, ouvi-os pela primeira vez em 2012, numa festa de dormitório qualquer em Salzburgo, Áustria, de Stiegl na mão, a viver os meus dias de Erasmus; ele, 15 anos, deparou-se com “Not Allowed” em vídeos introspectivos de TikTok, com algoritmo desenhado à medida. Também temos uma perceção completamente diferente da banda: para mim, são uma banda de culto norte-americana, de nicho, indie na verdadeira aceção da palavra, sem editora, com uma catrefada de coisas lançadas no Bandcamp, como os discaços «French Exit» (2014) e «Who Really Cares» (2016); para o meu sobrinho, um fenómeno de Internet. Hoje, enchem arenas – e o Lisboa ao Vivo, no passado dia 1 de junho, foi o exemplo perfeito.
Pelas 20:30, hora de abertura de portas, um mar de jovens sub 20 – para não dizer sub 18 – formava-se. Estava muito calor: se num concerto de metal já assisti à cerveja esgotar-se, aqui vendiam-se garrafas de água como pãezinhos quentes, rapidamente. A disposição da plateia destapava a diferença geracional: a secção de pé era de adolescentes, a secção sentada era de pais atentos (ou de fãs adultos, o espécime mais raro).
Os concertos começaram às 21:00. Primeiro, a eletropop de Brothertiger, John Michael Jagos. O norte-americano foi recebido entre guinchos, de quem esperava algum elemento dos TV Girl. Não era, e mesmo assim, perante as camadas de sintetizadores do norte-americano, o entusiasmo não esmoreceu. Sozinho no palco, a fazer headbanging enquanto manobrava uma série de máquinas, Jagos interpretou alguns dos temas mais conhecidos da sua (já longa) discografia desde 2012. Para quem não conhece as letras, o reverb na voz de Brothertiger não ajudou a reconhecê-las, mas uma versão de “Everybody Wants to Rule the World”, de Tears for Fears, impôs o primeiro momento coro da noite.
O concerto de abertura terminou pelas 22:00, e a impaciência levava a outros coros. “TV Girl! TV Girl! TV Girl!”, guinchava-se na plateia. E eu, naquela histeria coletiva da Gen Alpha, perguntava-me: como é que aquela banda nicho, que lançou todos os seus discos indie obscuros há mais de dez anos, arrebanhou tantos fãs (que ainda estava de fraldas quando estas músicas foram editadas)? Depois do idadismo, passei para outro preconceito de Velho do Restelo: ai, eles ficaram conhecidos porque viralizaram no TikTok. “Viralizaram”, enfim, que verbo, que ideia esta de um clip curto de 15 segundos dar uma carga viral ao conteúdo (e à música que se use como fundo). Quase que pressupõe que os utilizadores de redes sociais não têm gosto/escolha próprio/a: apanharam uma gripe, de algum vídeo qualquer, e agora têm de partilhar também.
De repente, os TV Girl subiram ao palco e, perante os primeiros coros de “Pantyhose”, os guinchos da plateia transformaram-se em coro uníssono, num inglês percetível. E assim morreu o Velho do Restelo: o contágio existe, isto é histeria pós-doomscroll, mas a paixão pela música é a mesma de quando ouvi os primeiros acordes de “Fluorescent Adolescent”, de Arctic Monkeys, em 2006. Uma paixão semi-analógica que me fez comprar discos, aprender guitarra e saltar e berrar histericamente com amigos em concertos. Reconheci-me nos saltos do meu sobrinho, suado e abraçado a novos amigos, feitos ali naquele mar de gente. E senti-me comovido. Em plena era da Inteligência Artificial, em que desenvolvemos gostos artificiais, curados por algoritmos e não pela experiência humana, aquele era um ato era de rebeldia.
E assim foi do início ao fim: um fan service à geração que os descobriu verdadeiramente. Tocaram grande parte das canções de «French Exit» (2014), como “Hate Yourself”, “The Blonde”, “Louise” e “Birds Don’t Sing”, e «Who Really Cares» (2016), como “Taking What’s Not Yours”, “Cigarettes out the Window”, “Safeword”, “Not Allowed” e “Loving Machine”. Iluminado por um dispositivo com o rosto de uma mulher, símbolo da banda, o frontman Brad Petering apresentava os tiques de rockstar mais clichés possíveis. De óculos de sol e rosto pesado, deambulava pelo palco como se fosse Liam Gallagher. Nada de original na pose, mas alinhava-se com os novos arranjos distorcidos, em choque frontal com as versões dos discos. Como boa influência, saltaram de Gallagher para Lou Reed: tocaram “Femme Fatale”, dos Velvet Underground.
Como bom cliché, houve encore. Chegara o momento, a mais viral de todas, a que toda a gente conhece. Soaram os violinos de “The Dance Is Over”, das The Shirelles, protagonistas do sample de “Lovers Rock”. Mas a última foi para os mais velhos: “It Evaporates”, uma oldie que só se encontra no Bandcamp – e que eu ouvia há mais de dez anos numa festa de dormitório qualquer, de Stiegl na mão, a viver os meus dias de Erasmus. Agora é a vez do meu sobrinho ser um adolescente florescente.
Fotografias de Alexandre Malhado








