The Afterparty é disco cheio de melancolia e escuridão mas que continua a fazer dançar. E que pode muito bem ser o último da artista sueca.
Quando mostrou o seu sexto disco, The Afterparty, na ‘listening party’ (pequenos encontros em que se ouve o disco por início ao fim), Lykke Li lançou no ar que este poderia ser o seu último trabalho, deixando os fãs em polvorosa. Como é que a artista sueca pode sair de cena assim, no seu auge, e depois de entregar um disco tão bonito e tão cheio de angústia?
Se o fará ou não, esse sentimento de exaustão e de desilusão com o mundo está impresso do início ao fim neste trabalho. O disco soa de facto a despedida, a últimos momentos, a cansaço, a desilusão, mas também se sente, nas entrelinhas, a luta para sair da escuridão em direção à luz.
Lykke Li sentiu grande inquietação enquanto o compunha, garantiu à imprensa internacional, com o contexto geopolítico, sobretudo o que envolvia o presidente norte-americano Donald Trump e também a rápida aceleração da Inteligência Artificial. Foi um período, segundo a própria, em que parecia que estava sempre de ressaca. Foi desse sentimento que se inspirou para o título: The Afterparty. E é apropriado, já que tudo soa um pouco a despedida, ao tal cansaço que já mencionámos.
Essa atmosfera opressiva começa logo em “Not Gon Cry”. Há uma tristeza latente na forma como Lykke Li canta e, ao mesmo tempo, uma delicadeza, uma suavidade que de repente explode numa batida dançável, um coro de libertação, em que garante que não vai chorar.
Mas a “antiga” Lykke Li também está lá: em “Lucky Again” sentimos as batidas, os instrumentos clássicos com a bateria, o ritmo, a energia delicada de um dos seus maiores êxitos, “Midnight Feelings” (colaboração com Mark Ronson), não obstante as letras serem profundamente obscuras, os violinos chorosos sob uma batida poderosa. mas se, enquanto aqui ainda temos alguma positividade, a queda vem logo a seguir, com “Famous Last Words”. Tristeza do início ao fim, logo a começar com a frase de abertura “Do you have a cigarrete to spare?” – o que representa melhor a melancolia do que pedir um cigarro?
Seguimos por esta estrada com “Sick of Love” que, não sendo das minhas preferidas, é muito bem construída. Só a mim é que me soa a Robyn? Ou é apenas a “escola” sueca a deixar marca? É que nunca falham. Por aí continua, com “Knife in the Heart”, para culminar numa lindíssima “Euphoria”, praticamente acústica, tão delicada que arrepia e pede para ser ouvida vezes seguidas.
Foi um disco que, segundo Lykke Li admitiu, lhe custou muito fazer. São apenas 24 minutos, nove faixas, mas as melhores despedidas não se arrastam, vão diretamente ao ponto, cortam a direito sem contemplações. Talvez por isso seja, possivelmente, um dos melhores trabalhos que ela entregou até hoje.
The Afterparty é, sem dúvida, um álbum melancólico, para ouvir quando o coração quer companhia na angústia, mas pede para dançar enquanto se sente triste. Também nós, tantas, tantas vezes, nos sentimos como se nos tivesse passado um camião por cima, ressacados, despidos de toda a energia, depois da festa. Mas, ao mesmo tempo, a querer continuar, a querer dançar. Estamos contigo, Lykke, o mundo está um sítio estranho, mas a música salva e continuamos com vontade de seguir em frente, dançando.