Depois de terem passado brevemente pelo NOS Alive, em 2023, os Men I Trust regressaram, finalmente, a Lisboa, numa noite muito aguardada. Desta vez, deram um concerto em nome próprio, num LAV cheio, para apresentar o duplo lançamento Equus, de 2025.
Esta semana, o trio canadiano Men I Trust voltou a Lisboa, antes de passar pelo Primavera Sound Barcelona, a propósito da sua Equus Tour. Atravessando toda a discografia, o grande foco da setlist foi apresentar ao vivo os álbuns Equus Asinus e Equus Caballus, díptico de atmosferas opostas editados no ano passado.
A carreira desta banda de indie pop do Quebec tem doze anos, seis discos de estúdio, duas live sessions e uma mão cheia de EPs e singles, todos editados de forma independente. O conjunto como o conhecemos existe desde 2016, com a vocalista a juntar-se aos dois amigos de liceu que o fundaram. Contudo, foram o single “Show Me How”, de 2018, e o disco Oncle Jazz, de 2019, que elevaram definitivamente a banda no radar da nova e promissora música indie.
O concerto abriu como abre Equus Caballus: “Ease You” trouxe para primeiro plano dos nossos ouvidos os sintetizadores flutuantes de Dragos Chiriac, a voz esfumada de Emma Proulx e o baixo suave de Jessy Caron. Desde logo, a atenção recai sobre os instrumentos e os seus acordes contidos, que se misturam sem hierarquias numa massa sonora delicada. Os corpos começam logo a dançar timidamente e as palmas são devotas.
Equus Caballus ocupou metade da setlist, sendo a outra metade dividida entre Oncle Jazz e Untourable Album (2021), “I Come With Mud”, de Equus Asinus, e “Humming Man”, de Men I Trust (2014). Contudo, foram “Sugar”, “Show Me How” e “Billie Toppy” as fan favourites, com muita celebração da parte do público.
A conversa entre músicas foi parca, mas sentia-se uma presença forte da banda, um contacto visual constante de apreciação. Banda e plateia estavam dissolvidas no mesmo banho de espuma, entre a eletrónica nostálgica e as melodias cristalinas da banda que cruza dream pop e soft rock, criando um ambiente muito envolvente e, aparentemente, sem qualquer esforço. Fazem parecer tão natural, tão fácil, entregar um concerto assim!
Podíamos estar muito atentos a cada palavra cantada ou podíamos evaporar no nosso próprio espaço mental. Podíamos abanar a cabeça em concordância ou podíamos ficar muito quietinhos só a absorver. Estavam lá os fãs dedicados que reconheciam cada música aos primeiros dois acordes, mas também as pessoas que não conseguiam distinguir entre a homogenidade sonora que caracteriza a discografia de Men I Trust. A verdade é que havia lugar para todos e o sorriso satisfeito de Emma depois de cada aplauso efusivo garantia-nos que fazia sentido estarmos ali.
A música dos Men I Trust não se entusiasma demasiado, não sai das linhas, mas é um certinho que corre muito bem, uma hipnose colectiva no seu dream pop etéreo e fresco. O concerto ocupou um certo **espaço liminar mental, onde nos podíamos deixar um bocadinho, antes de regressarmos ao mundo lá fora. Tal como nos ensina Equus Caballus, esta noite serviu para conseguirmos estar connosco próprios, mesmo que no meio de uma multidão, num armazém nos Olivais. As paredes escuras e os flip phones e as digicams que volta e meia apareciam erguidos no ar contribuíram perfeitamente para esta estética paralela e para a construção de um espaço seguro para a lentidão e a contemplação.
Nota de editor: Não nos foi permitida a recolha de imagens deste concerto.