O Altamont esteve à conversa com Humberto, um observador mordaz dos dias que correm, transformador de medos em esperanças, apelador à resistência. De voz profunda e língua afiada em tempos nebulosos, mostra que está bem posicionado no lado certo da História, e mostra que a música de intervenção pode ser pop-rock sentimental.
Estamos a viver tempos estranhos, muita coisa acontecer ao mesmo tempo, “tanta dor em todo o lado” e tudo a mudar muito rapidamente, evolui-se como nunca numas vertentes, noutras matérias retrocede-se como jamais devíamos retroceder. E neste lugar estranho e confuso, vale-nos a Arte, com a sua infinitamente corajosa capacidade de nos salvar. E aí, há vozes poéticas que se levantam e ecoam no mais íntimo do nosso ser, individual e colectivo. Há sempre alguém que resiste!
É aqui que nos aparece Humberto, observando os dias que correm e transformando os nossos medos em esperanças, dando-nos alento para agir. Trovador de voz profunda e língua afiada em tempos nebulosos, mostra que está bem posicionado no lado certo da História. Descendente da linhagem de José Mário Branco – não só, mas também, por causa do bigode – mostra que a música de intervenção pode ser pop-rock sentimental.
Mau Teatro, um dos melhores álbuns lançados em 2025, talvez tenha passado debaixo de alguns holofotes mas importa, definitivamente, conhecer. Foi sob esse pretexto que convidámos Bruno Humberto para tomar uma cerveja e trocar uns dedos de conversa com este artista múltiplo e omnifacetado, que já fez de tudo um pouco – já foi produtor e jornalista, é encenador, actor, autor, performer, compositor, instrumentista, cantor – até chegar agora a nós através deste disco. Não é um álbum de estreia, mas é o álbum da revelação.
Em 2021, só com voz e guitarra, Humberto tinha lançado A Demolição das Casas. “Foi assim o primeiro exercício de escrita de canções, de encontrar uma voz específica e uma forma de escrita, os temas eram mais sobre relações, coisas mais pessoais”. Estas canções surgiram depois de fazer muita música experimental e música para peças e performances. O exercício de escrever no formato canção apareceu quando estava a estudar e viver em Londres, como mecanismo de preservação da língua materna: “quando estás noutro país durante muitos anos começas a sonhar a sonhar na língua estrangeira, os meus sonhos já eram sonhados em inglês. Então eu comecei a fazer o exercício de começar a escrever músicas em português, um pouco para não perder a sensibilidade poética e toda a relação que eu tinha com a língua (…) a língua também influencia muito a música, o tom, a estética”.
Anos mais tarde, em Mau Teatro, passou do individual para o colectivo, “uma coisa mais irónica, mais absurda, falar sobre a realidade de uma forma mais política, porque as músicas de amor são as que mais existem. Mas o amor também é político! Então quando fazes músicas mais políticas também é um reflexo da forma como tu te relacionas com os outros, e uma coisa influencia a outra. Portanto neste álbum, metade das músicas são diretamente políticas e têm crítica muito específica a certas situações; e outra metade ainda é sobre relações, mas de uma forma que coloca as relações no mesmo patamar do que a política, sempre a metáfora do Mau Teatro, dentro das casas mas também nos corredores do Parlamento, no tempo de antena na televisão para alguns maus actores continuarem a proliferar, a roubar-nos a atenção e a monopolizar a atenção e a agenda política”.
É nessa interacção que podemos entender quem somos, a forma como nos relacionamos uns com os outros e o que nos rodeia. “Eu também falo muito sobre fragilidade, não é um álbum que seja sobre algum assunto, seja política ou sobre o amor, não. É do género «pá somos todos assim muito precários, estamos a aprender, a imposição da vontade sobre o outro é algo errado», e nós por vezes estamos nesse mau teatro e estamos a comportar-nos de acordo com uma imagem que prestada sobre nós. O Erving Goffman, que foi uma das bases para este título, em que ele fala da “Representação do eu na vida quotidiana” (um livro dos anos 60, de ciência social) em que ele apresenta a sua tese vendo a realidade como um palco e nós a mudar as nossas personagens de acordo com o conflito que possa haver e com uma projeção sobre nós, a projeção que nós queremos fazer sobre os outros, e depois vamos adaptando para gerir os conflitos. À parte desta questão da psicologia social, eu estava pensar isto mesmo há bocado, a [revista] Electra tem um artigo sobre o Henri Michaux, ele também era poeta e escrevia e pintava, e ele estava sempre a lidar com a questão do falhanço, então ele só queria ser ele próprio. Então como é que, através da poesia ou da pintura, podemos ser nós próprios verdadeiramente sem estar numa auto-projecção daquilo que os outros querem? Ou daquilo que os outros querem ouvir, ou dos singles que os outros procuram?”
Ao ler as letras das canções, rapidamente percebemos esta dimensão activista, há dezenas de frases que podemos retirar dali , estampar em cartazes e levar para manifestações humanistas. Mas a veia poética sobressai, para que não soe panfletário. “Eu nunca gostei de escrever de forma direta… gosto de escrever de uma forma que mantenha um certo lado obscuro e uma certa possibilidade de mudança. As canções não podem revelar tudo, porque mesmo que tu tenhas razão naquilo que estás a sentir ou naquilo que queiras sublinhar ou criticar… é sempre um ponto de vista, mas eu gosto de escrever com vários sentidos e gosto de deixar um espaço para voltar e para que esse espaço seja preenchido pelo público. É o que também se faz um bocado na arte conceptual, contemporânea, em que o espectador tem também lugar para acabar a canção. E eu também acho que o público é suficientemente inteligente para que nem tudo lhe seja dito ou imposto de uma certa forma”.
Ainda assim, isto é um disco de intervenção que reage àquilo que se passa aqui, agora: “foi escrito há pouco tempo, já com essas mudanças a acontecer em Portugal, podemos considerar que é um álbum manifestamente político, um manifesto, é um álbum de protesto, mas também um álbum solidário. Fala também sobre solidariedade e sobre quando as coisas más acontecem – que é o que o Albert Camus fala n’A Peste – quando há um problema, como é que nós, como indivíduos primeiro e como colectivo, reagimos a isso. E estamos a ver agora por exemplo agora com as cheias, a nível de solidariedade individual e coletiva as coisas estão a funcionar”.

Mas não se pense que Humberto é um mero espectador que faz trovas sobre o que o inquieta. Primeiro, ele canta com uma tão grande confiança na voz, firme e grave, que somos impelidos a acreditar em tudo o que diz. Depois, está ciente do impacto que a Arte, neste caso a música, pode ter na vida de todos e de cada um de nós. “As músicas são algo que o ser humano integra na sua cabeça, na sua psique. E em momentos específicos tu vais-te lembrar da música, tu decoras uma frase, decoras uma melodia, a música é uma coisa que te acompanha, que até pode ajudar a nível de saúde mental, se tu cantares uma certa música vai-te ajudar a caminhar, vai-te ajudar a fazer uma coisa, estás cansado pensas uma música consegues trabalhar, consegues sair da procrastinação, consegues tomar uma atitude. Então as canções acompanham-nos interiormente e em certos momentos dão-nos força para agir. Esse é o primeiro aspecto. Depois obviamente a nível coletivo, podem ser usadas de outra forma, para juntar um grupo de pessoas que canta a mesma música, ser uma coisa que une pessoas em momentos difíceis. Mas pronto, eu acho que é importante que a arte seja seja um local de desconstrução, de crítica, de possibilidade de encantamento, de possibilidade de mudança”.
Em tempos como os que vivemos agora, demos graças por ter um Humberto na nossa vida. E Humberto, perfeccionista qb, deu graças por ter tido Miguel Nicolau [Memória de Peixe] como produtor. “Foi fundamental por ser um produtor multi-instrumentista também. Então tocámos tudo nós os dois. Ele também tem uma parte jazzística de arranjos interessante. As músicas já estavam bastante estruturadas, mas ele teve as ferramentas para me ajudar a encontrar a estética que era necessária. Foi muito trabalho, foi um ano e meio ou dois.
Nesta altura, Humberto já está a trabalhar no próximo disco – que prevê lançar em Setembro de 2027 e que será “em parte uma continuação, no que toca a temas, a metáforas, ou seja, esta questão do Mau Teatro. É uma continuação a nível temático, será também político, mas também que terá uma ligação maior ao Fado e vai ser um bocado mais obscuro”.
Posto isto, resta saber – neste Mau Teatro, quem é o encenador? “ Acho que o encenador é cada um, cada pessoa é o encenador de uma peça que está a acontecer ao mesmo tempo, mas que nós somos todos encenadores: às vezes sem saber, outras vezes somos protagonistas, antagonistas e fazemos peças mais participativas, mais interativas, mais passivas… mas acho que o encenador neste caso é o público, que aplaude e que dá direcções, mas às vezes dá, sem saber realmente o objetivo destas direcções. Ou então depende da peça… eu acho que são várias peças a acontecer ao mesmo tempo, o Mau Teatro são várias peças não é só uma peça”.