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Gilberto Gil || Coliseu dos Recreios

A tour europeia de Gilberto Gil passou pelas Portas de Santo Antão. No Coliseu dos Recreios, o mestre baiano trouxe a magia de todos os tempos numa bonita viagem familiar. Foi muito bom vê-lo subir de novo ao palco.

Quando Gilberto Gil entrou em palco, a expectativa era grande. Algum nervosismo também existiria, estamos em crer, entre o público presente. Por várias razões, sendo que a principal seria, muito provavelmente, ver como se encontra a forma de um dos nomes maiores da música popular brasileira das últimas décadas. Os mais distraídos talvez não tenham em conta o facto de que este tão querido filho de Gandhi já anda nestas lides dos discos e dos concertos ao vivo há muito tempo, há mais de cinco décadas e meia. O tempo, como sabemos, não é misericordioso, e como não para, vai obrigando muitos a parar. Gil está ativo, ainda grava e ainda anda em digressões, mas quem o acompanha há muitos e muitos anos notará, inevitavelmente, diferenças significativas. Feitas as contas, somando o que se mantém e o que já escasseia, o saldo é francamente positivo. Gilberto Gil sabe defender-se. Sempre soube. E a experiência conta muito. Continua senhor do seu domínio, mas quando cantou os emblemáticos versos da sua canção “Palco” (“subo neste palco / minha alma cheira a talco / como bumbum de bebê”), uma inevitável onda nostálgica instalou-se no coração de todos. No entanto, Gilberto Gil ainda consegue entregar-nos o seu “cesto de alegrias de quintal”.

Gilberto Gil chegou ao palco do Coliseu dos Recreios no velhinho “Expresso 2222”, e talvez mesmo por isso não a chegou a horas. A pontualidade não foi britânica, mas o calor dos trópicos que invadiu pouco depois o recinto, desculpou tudo. O mestre estava em palco e a gente precisava ver o luar!

Gilberto Gil percorreu vários momentos da sua vasta carreira discográfica. E para que a viagem lhe fosse mais prazerosa, veio com boa parte da família. Filhos, mas também neto e bisnetos encheram certamente de orgulho o coração do pai e do avô. Estava lançada a festa, e logo desde os minutos iniciais. Seguiu-se a antiga “Viramundo”, canção que já foi interpretada por várias vozes ao longo dos tempos, mas que na voz de Gil, ontem, ganhou um peso extra que a própria letra já contém e que ficou, assim, ainda mais realçada. Não é de admirar. O senhor “realce” estava em palco, assim como também esteve samba e bebop misturado com chiclete com banana. “É o samba rock meu irmão”. Como samba mexe com a gente, veio “Upa, Neguinho” logo de seguida. Que belos temas de entrada, aperitivos de excelência na noite festiva de Lisboa. Até que enfim, já não era sem tempo! Foi “luxo só”, feito “mulata quando dança”. Depois, um momento inesperado: Flor Gil começou a cantar os versos de “Volare”. Valeu, sobretudo, pela situação algo inusitada. A voz da neta de Gil é tão bonita e simpática como ela própria. E beleza, como disse o poeta, é fundamental. Tem treze anos e o futuro será todo dela. Cantou ainda, a pedido do avô, “I Say a Little Prayer”, de Burt Bacharach. Depois, virou-se a página, abrindo-se o lado mais intimista do show: aos primeiros acordes de “Drão” vindos do violão de Gil, incendiou-se o peito romântico do Coliseu. Foi o tempo dos sorrisos nostálgicos. O momento era de “paz”, e Adriana Calcanhoto acrescentou beleza ao conhecido tema de Gil, “A Paz”. Convidada especialíssima da tour europeia  do bom baiano, Adriana brilhou no seu timbre fragilmente especial. O tema “Elogil”, um samba elogioso de Adriana feito a meias com Gilberto Gil, foi uma das boas surpresas da noite. Em seguida, cantou a belíssima “Esquadros”.

É claro que “Palco” não poderia faltar, e assim o “bum bum do tambor” ecoou alto e firme nos lá rai á lá iás da vida para mandar o inferno pra fora daqui. “Touche Pas à Mon Pote” foi o tema seguinte. Canção brilhante, sem dúvida, já com alguns anos de idade. E como a letra do tema remete para a necessidade de colocar um ponto final ao racismo no mundo, de seguida chegou “Sarará Miolo”, pois claro. De novo, e mais uma vez, a festa do ritmo tomou de assalto o palco.

Toda a memória é uma longa viagem, daí que tenhamos sido levados ao rock de “Back In Bahia”, recordando os primeiros tempos do pós-exílio londrino de Gil e Caetano, e de uma particular festa de boas vindas em casa de Dona Canô, mãe do amigo, em Santo Amaro da Purificação. Enorme momento! Voltando a segurar o microfone, a neta Flor cantou com o avô “Norte da Saudade / Goodbye my girl” e a maravilhosa “Andar com Fé”. Estávamos quase na reta final do concerto quando se ouviu da voz de Gil que “este samba vai pra João Gilberto, Dorival Caymmi e Caetano Veloso”. Era a inesquecível “Aquele Abraço” que vinha a caminho. O Coliseu quase caiu! Em seguida, um passinho de reggae ao som de “Stir It Up”, pois então,  para aproveitar o balanço do “samba-abraço” anterior.

As três últimas canções fecharam a noite com requintes supremos de beleza. Como resistir a “Tempo Rei”, “Madalena” e “Toda Menina Baiana”? Impossível. Pelo meio das três, e já com toda a família reunida (até o bisneto Sereno brincava de músico no palco) cantou-se o hit Partimpim “Fico Assim Sem Você”. E lá ficámos sem os músicos em palco, depois de duas horas de concerto. Foi bom voltar à música de Gil. Foi bom voltar aos concertos. Foi tudo muito bom!

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Fotografia: Cecile Lopes

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