No Sábado, a Galeria Zé dos Bois, recebeu a intimidade das canções de Filipe Sambado. Despidas de arranjos, escutámos as músicas na sua forma mais crua, num concerto de enorme beleza e de comunhão entre a artista e público.
Fim-de-semana prolongado, ainda com as emoções das celebrações do dia da Liberdade, a Galeria Zé dos Bois em Lisboa encheu-se para assistir ao concerto de Filipe Sambado inserido na digressão de Gémea Analógica. É a mais recente edição da compositora, captada ao vivo e que documenta as canções do álbum Três Anos de Escorpião em Touro, de 2023, mas sem a produção e arranjos desse último disco de Sambado.
No palco da ZDB, víamos apenas uma guitarra acústica, uma guitarra eléctrica e um teclado. À sua volta, uma simples estrutura com um suave tecido branco, não só para “agarrar” uma projecção proporcionada por uma pequeníssima câmara em palco, mas também, para abraçar e aconchegar a artista e público, nos próximos momentos de intimidade e cumplicidade.
Com a sala muito bem composta e expectante, Filipe Sambado entrou em palco, sentou-se, ajeitou os in-ears (para monição e também para ouvir o som do público, fruto de microfones estrategicamente colocados junto à mesa de som) e arrancou o concerto de guitarra acústica com “Faço Um Desenho”. Um início lento, mas com seu suave embalo, deu o mote para o resto do espectáculo. E quando Sambado ligou, sem paragens, esta primeira canção com “Laranjas / Gajos”, percebemos que o concerto iria viver muito destes momentos contínuos de música.
E assim foi, com Filipe Sambado a tocar as canções de Três Anos de Escorpião em Touro e também a cruzá-las com outros temas anteriores da sua discografia, para a surpresa de alguns.
Aconteceu, em modo medley e inesperadamente. Sambado incluiu na setlist canções como “No Leito” (do álbum Revezo), “Deixem Lá” (do registo Acompanhantes de Luxo) ou “Aprender E Ensinar” (de Vida Salgada) entre outras.
Do lado de cá do palco, os mais fiéis seguidores de Sambado abanavam os corpos, de certeza a lembrar os intensos ritmos das versões originais dos temas. Assim como acompanhavam em voz alta a letra das canções, levando mesmo Filipe Sambado e recordar um concerto no saudoso Sabotage, em que o público, para desconforto da artista, também cantou as músicas. Mas se há vários anos detestava que isso acontecesse, confessou também que agora já gostava. E ainda bem, porque deu ao concerto na ZDB uma aura de celebração e alegria.
E ao incluir canções do seu passado, de outros períodos sónicos bem distintos e diferentes, Filipe Sambado também revelou que afinal as suas canções não foram ficando cada vez mais diferentes. Pelo contrário, existem no mesmo plano. Despidas e nas suas versões mais cruas, vivem mais próximas, partilhando o mesmo espaço que os temas de Três Anos de Escorpião Em Touro. E isto só é possível porque Filipe Sambado é uma compositora de excepção. Não só retira os mais arrojados arranjos das suas canções e elas vivem plenamente na sua forma mais simples, como já estamos num momento em que podemos julgar a intemporalidade dos temas mais antigos, como foi possível comprovar com a sua inclusão no concerto na ZDB.
Na recta final do espectáculo, chegava lá de trás, da zona da mesa de som, um coro improvisado que acompanhava as canções de Sambado. Um rápido olhar deu para perceber porquê, pois Jasmim, Inóspita e Chinaskee (este último nos comandos do som do concerto) já cantavam a plenos pulmões alguma da poesia mais sentida de Sambado.
De repente, era já um som “surround” de vozes na ZDB, com a alegria estampada no rosto de Filipe Sambado num concerto de abordagem simples e que lhe saiu de forma perfeita.
Para o final, Sambado tocou uma última música de pé, dedicada ao público mais atrás e que teve maiores dificuldades em ver o concerto. Cantou-se “É Sambado” até à ovação final.
E quando as luzes se acenderam, ainda a colocar as ideias no sítio, fica a certeza que Filipe Sambado é uma das nossas trovadoras mais essenciais, capaz de nos oferecer tantas emoções, ao mesmo tempo que se reinventa constantemente como artista.
E a certeza de que a edição e consequente digressão de Gémea Analógica foi mais um tiro certeiro por parte de Sambado.
No entanto, lança também questões cruciais sobre a criação artística e correspondente apresentação em concerto neste nosso Portugal.
Três Anos de Escorpião Em Touro é um álbum surpreendente, com uma produção e estéticas visionárias e que esticou os limites da pop produzida no nosso país. Talvez uma produção (ainda) incompreendida.
Editado o disco, o desafio foi levá-lo Portugal fora. E dado o peso da logística, Filipe Sambado deu poucos concertos.
Mas a vontade artística de cantar as músicas novas, conduziu a uma solução que começa a parecer mais comum em inúmeros artistas nacionais. Simplificar o concerto, ceder na vontade de um espectáculo mais produzido e mais em linha com a sonoridade do álbum.
Concertos a solo, com poucos instrumentos foi o caminho encontrado. Felizmente, no caso de Sambado, o resultado merece um enorme aplauso.
Mas é uma discussão que cada vez mais os agentes culturais, promotores e músicos têm de começar a ter. Nunca foi fácil levar um espectáculo para a estrada, mas cada vez mais se torna insustentável, para todas as partes.
Gémea Analógica é o retrato perfeito do estado actual de muitos artistas neste país tão imperfeito. Tem em si uma enorme beleza poética e musical, mas revela por outro lado, a luta artística incessante.
Mas Filipe Sambado, qual trovadora a percorrer campos de batalha, faz tudo com enorme mestria estética. E entre muitos embates que tem travado ao longo do seu percurso, deste sai completamente vencedora.
Fotografias: Beatriz Pequeno / Cortesia da ZDB






