Reportagens

Devendra Banhart || Capitólio

Em 2020, já todos sabemos que não vamos encontrar o Devendra Banhart da free-folk dos primeiros anos do milénio. Mal nenhum – salta fora a ganza e a t-shirt mal amanhada, entra o vinho tinto e um fato bem medido, mas ficam as boas canções e os bons concertos. Lisboa teve-o em grande forma em final de digressão.

Lá para meio da cerca de hora e meia de concerto, o grupo abandona o palco e fica Devendra e a sua viola. Sentado, fala sem receios com os cerca de mil espetadores que lotavam a primeira das duas noites no Capitólio, e durante uns bons dez minutos e quatro canções, ei-lo de volta – o homem que nos encantou há quase 20 anos e liderou um movimento definido que recuperava a free-folk para o novo milénio: Joanna Newsom, Espers ou Vetiver (que fez a primeira parte do concerto) foram outros nomes fundamentais do movimento.

Se nos últimos anos os discos de Devendra – bonitos mas não memoráveis, delicados mas não impactantes – têm fugido das listas de fim de ano, a verdade é que nem por isso o culto amainou, pelo menos em Portugal. A ligação de Devendra com o nosso país é especial, atravessa várias letras e discos, e o final de digressão foi condimento extra para um desprendimento que não rimou com incompetência – Devendra foi nosso uma vez mais, embora o cabelo seja agora mais certinho e a indumentária seja de gente de respeito e não de cantautor de velhos tempos.

“Is This Nice?”, “Kantori Ongaku” e “Mi Negrita”, logo a começo, agarraram. O som, imaculado, envolvia e abraçava, e a Devendra coube a tarefa de não estragar uma noite que, sabíamos de antemão, dificilmente entraria para a história, mas na verdade já não é isso que se pede ao músico norte-americano de ascendência venezuelana – já nos basta tê-lo como ativo, inspirado e de bem com a vida. A história está escrita lá atrás.

Faltaram temas dos primeiros discos, dirão (e neste grupo se insere o escriba) os saudosos do Devendra mais sujo. Mas torna-se difícil contestar o rumo trilhado pelo músico, mais a mais quando os resultados estão à vista – uma carreira digna, fãs e amigos que não o abandonam, pinta, inspiração e uma evolução eficaz de cantautor do povo para performer de quase massas. Devendra Banhart ainda é nosso, sim.

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Fotografia: Francisco Fidalgo

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