Reportagens

Rufus Wainwright || Festival Jardins do Marquês

Ouvir música ao vivo ao fim de tanto tempo foi um acontecimento! Para mais, tratando-se de Rufus Wainwright. A noite foi de festa, embora contida. Afinal, os pequenos prazeres podem ser gigantescos!

Já estávamos a precisar! As saudades eram tantas que quase nem cabiam nos nossos pensamentos. Assistir a um concerto num festival! Há quanto tempo isso não acontecias nas nossas vidas? Há demasiado, mas tudo tem de ter um fim. Ontem, no Festival Jardins do Marquês – Oeiras Valley, demos de novo um grande e sentido abraço à música ao vivo. A dose foi dupla, e soube duplamente bem! Um pouco de normalidade ajuda-nos a entender o que se passou e assegura-nos que o futuro próximo depende de nós todos. Vamos com calma, mas vamos em frente. Com música, concertos, festivais.

À segunda, foi de vez. O Festival Jardins do Marquês – Oeiras Valley viu, finalmente, a luz do dia (ou da noite, melhor dizendo). E, ao segundo dia, o elenco era de respeito, sobretudo se olharmos para a estrela vinda dos Estados Unidos da América, o icónico Rufus Wainwright. Mas não passemos por cima de Vicente Palma. Seria ingrato e injusto. Vicente herdou do pai a afeição pelas teclas e o bom gosto musical. Começou com o tema antigo de Adriano Correia de Oliveira – “Para Rosalía” -, e afirmou que tentaria, durante o concerto, deprimir o público da forma mais bela possível. Com o repertório que trouxe, não foi difícil. Veio acompanhado por Elísio Donas, teclista dos míticos Ornatos Violeta, mas também membro do coletivo Gato Morto. Não foi o único convidado. Também Joana Alegre veio ao palco cantar “O Centro do Mundo” e “Dragão”. A noite, decididamente, era de filhos de pais conhecidos, tanto na música como na arte da escrita. Voltou mais tarde para um último, mas especial momento. Vicente, Joana e Elísio fizeram ao vivo, pela primeira vez, um tema (“Frio Sítio”) do projeto acima mencionado. Foi bonito.

Mas a noite seria sempre de Rufus Wainwright, obviamente. O estatuto das estrelas tem peso no universo da música. O filho de Loundon Wainwright III e Kate McGarrigle tem muitos fãs em Portugal e não é novato a pisar os nossos palcos. Já por cá andou várias vezes, para proveito dele e nosso gozo também, pois claro. Com as conhecidas restrições de tempo que nos assolam, o concerto teve início às 21 horas. Rufus tem um disco recente em carteira, e está de novo voltado para o universo mais pop que lhe deu crédito e nome, afastado dos registos sinfónicos e operáticos por onde andou (escolha por si a palavra que lhe pareça mais acertada) a passear / desperdiçar talento. As “prima donnas” têm destas coisas, já se sabe, e também por isso eram grandes as expectativas sobre o seu concerto em Oeiras.

Começou britanicamente (a horas) com “The Art Teacher”, hit do já distante Want Two. Apenas com piano e guitarra acústica, o concerto de Rufus foi de encher a alma. Boas canções de diferentes períodos do músico, algumas histórias divertidas (a primeira vez que tocou em Portugal, recordou, foi num “crazy festival in a forest and everyone was on acid and it was great”, e assim foi a noite. Pontos altos, muitos, até o instante em que se esqueceu dos acordes no meio de “Out of the Game”. Mas a noite foi de belíssimas canções, algumas já eternas, como “Poses”, por exemplo. Continua exemplarmente brilhante, genial e delicada, com uma força absolutamente esmagadora. Outras seguiram esse mesmo caminho até hoje: “The Gay Messiah”, “Go or Go Ahead”, “Going to a Town” e “Cigarettes and Chocolate Milk”, pois claro, e todas essas (e várias outras) ouviram-se ontem, em Oeiras. Despidas de quase tudo, só com voz, piano, guitarra e alma. De facto, ajuda ter talento para se ser artista. Rufus está em plena forma vocal, e o som do concerto ajudou a percebermos esse momento. A amplitude da sua voz continua a ser um trunfo impressionante. Conversou bastante nos intervalos das canções. Parecia estar mesmo satisfeito por se apresentar em palco.

O ligeiro frio deste verão quase outonal não foi suficiente para desistências a meio do espetáculo. Firmes e serenos, separados por distâncias de segurança cumpridas a rigor, fomos ouvindo o muito que Rufus tinha para nos dizer e cantar. Assim foi durante hora e meia. Para terminar, um pequeno encore com a eterna “Halellujah”, que nunca falha no arrepiante efeito que provoca. Saímos do recinto abençoados. Saímos agradecidos. Todos. Como diz a canção, “maybe there’s a God above”. E se Deus é amor, então ontem deu claramente um ar da sua graça.

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Fotografias gentilmente cedidas por Henrique Isidoro.

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