El Año de la Pera não é uma compilação. É, isso sim, um olhar renovado sobre temas dos primeiros tempos de um artista sem tempo que o limite.
Existem artistas que parecem imunes à erosão do tempo. Não porque se reinventem a cada disco numa qualquer espécie de ansiedade de relevância, mas precisamente pelo contrário: porque encontraram, desde muito cedo, uma voz tão singular que qualquer tentativa de a imitar ou de a superar (incluindo a sua própria) está condenada a parecer uma cópia. Antonio Luque, o compositor sevilhano que desde os anos noventa assina a sua obra sob o nome de Sr. Chinarro, é um desses casos raros. Para mais, numa cena musical ibérica que produziu poucos génios verdadeiros, Antonio Luque ergue-se como uma figura tutelar do indie espanhol, cuja importância continua a crescer com o passar dos anos.
A sua obra atravessa mais de três décadas sem uma única concessão ao facilitismo. Nestas páginas do Altamont, ela está bastante documentada, uma vez que Sr. Chinarro é um artista por quem temos um enorme apreço e consideração. Desde os primeiros registos nos anos noventa, Antonio Luque construiu um universo lírico absolutamente próprio: o quotidiano andaluz filtrado por um surrealismo desconcertante (é quase sempre isto que se diz dos seus primeiros textos), a crítica social embrulhada em humor seco e de aparente ingenuidade, a melancolia disfarçada de leveza. Influenciado pelo rock britânico pós-punk e pela geração de bandas como The Cure ou Galaxie 500, soube sempre traduzir essas referências numa linguagem profundamente sua, enraizada em Sevilha mas, ao mesmo tempo, universal. Discos como Sr. Chinarro (1994), Compito (1996), El porqué de mis peinados (1997), ou Noséqué-nosécuántos (1998) são marcos incontornáveis da pop independente em língua espanhola.
Chegados a El Año de la Pera (2026), devemos entendê-lo como um aquecer de motores (foi o próprio quem nos disse), como um gesto simultaneamente modesto e generoso, antes de escrever o capítulo seguinte da sua já muito extensa discografia. O próximo álbum está já em andamento, está já a ser gravado, esperando nós que não tarde a chegar. El Año de la Pera reúne doze canções dos quatro primeiros discos de Sr. Chinarro, todos anteriores ao ano 2000, regravadas agora com nova luz e nova maturidade, sobretudo com uma nova e mais adequada qualidade sonora. A trilogia formada por Compito (1996), El porqué de mis peinados (1997) e Noséqué-nosécuántos (1998) fornece o núcleo do repertório, com incursões pontuais até ao EP de estreia Pequeño Circo (1993), cujo tema “Desilusión” fecha o disco com uma elegância circular que não deve passar despercebida.
O resultado é uma obra que desafia a lógica habitual das reedições e compilações. Antonio Luque não se limitou a reembalar o passado: regravou estas canções com um quinteto que privilegia a leveza acústica, um som despido e nítido que revela ainda muito o espírito das gravações originais. A produção de Jaime Beltrán, realizada em Granada, tem a virtude de se tornar invisível (não, não é um contrasenso, o que dizemos), servindo as canções sem as sobrecarregar com “novidades”, sem as sobrecarregar com “truques” que pudessem, supostamente, torná-las “mais modernas”, deixando que as letras e as melodias ocupem o centro com toda a sua pujança. Sandra Rubio regressa às vozes secundárias, e a presença de J, dos Los Planetas, em “El Idilio”, abrindo o disco numa espécie de encontro histórico entre dois pilares do indie peninsular, é um dos momentos mais tocantes de El Año de la Pera. Aliás, “Idilio” é mesmo um tema perfeito, dos melhores (e há muitos, acreditem) que Sr. Chinarro foi capaz de escrever ao longo do seu tempo de atividade artística. Em nota de lamento, se assim pudermos dizer, fica o seguinte: ah, como gostaríamos de ouvir no disco uma releitura de “Los ídolos no comen”! Mas paciência, a escolha recaiu noutros temas, e não há qualquer problema nisso, naturalmente.
Assim, “El Idilio” (nova referência ao tema, pois então) e “Quiromántico” continuam a confirmar aquilo que os seus fãs sempre souberam desde o início: são canções construídas para durar, peças que resistem a qualquer tratamento, que já se encontraram com o desígnio da eternidade. Mais de um quarto de século depois de terem sido compostas, continuam a soar inevitáveis.
Não sendo inédita, e numa decisão que diz muito sobre o carácter do artista, o disco El Año de la Pera não está disponível em plataformas de streaming, sendo apenas comercializado em vinil de 180g, em cd e em cassete. Este gesto deliberado obriga a um tipo de atenção que a música de Antonio Luque sempre mereceu, mas que nem sempre recebeu retorno adequado. El Año de la Pera não é um disco para ser entendido e vivido com nostalgia. É, antes, uma afirmação tranquila de que o melhor ainda está para vir, e de que o passado, quando é luxuoso, vale sempre a pena torná-lo presente, vale sempre a pena estar ao nosso lado.