O nascimento de um profeta que nunca disse a verdade.
Em 1961 Robert Allen Zimmerman tocava em dezenas de clubes em Greenwich Village, em Nova Iorque. Tocava onde quer que fosse, cinco minutos entalados entre uma bailarina de burlesco que de dia vestia fato saia-casaco e um mágico de vão de escada; ou então um set de três canções para seguir um músico de hambone com uns copos a mais em cima. Certo dia conseguiu uma audição como tocador de harmónica para Carolyn Hester e cativou a atenção de John Hammond, da Columbia Records. E esse contrato mudou para sempre a história da música folk. Mas antes dessa transformação, houve um disco de estreia.
Entrevistado pelo publicista da Columbia Records, este interrogou Zimmerman.
“De onde vens?”
“Detroit.”
“Andaste por aí a vaguear?”
“Yup.”
(…)
“Que tipo de música tocas?”
“Folk.”
“Que tipo de música é música folk?”
“São canções que passam.”
(…)
“Como chegaste aqui?”
“Num comboio de carga.”
E assim nascia um dos primeiros mitos em volta do profeta que nunca disse a verdade – e quando a disse, ninguém consegue garantir.
Mas nem tudo o que sai da boca de Dylan é sempre mentira. De facto a música folk vive da herança deixada por entre os seus intérpretes. Uma herança de milhares de quilómetros de estrada, centenas de canções com os mesmos acordes e pequenas modulações para adaptar as canções às circunstâncias e um interesse em contar histórias. Para o seu primeiro registo, Dylan cantou algumas canções tradicionais arranjadas por músicos mais experientes da folk (Dave Van Ronk e Eric Von Schmidt) ou por si mesmo e outras canções de blues.
São canções que cantam uma América pouco familiar a um nativo de Manhattan, mas que mostravam que mesmo que Dylan não tenha andado a vaguear pelos caminhos de ferro, ouviu quem o fez. E, como todos os bons artistas, roubou.
Munido de uma guitarra acústica que tocava com a urgência de um comboio atrasado e com o volume de um trovão, Dylan já demonstrava ter algo diferente dos Pete Seeger e Woody Guthrie que se tinham destacado antes dele e que o influenciaram sobejamente. Nas primeiras 13 canções gravadas por Dylan não encontramos a subtileza de Seeger ou a inventividade de um Guthrie. O que encontramos é um rapaz com ganas de deixar a sua marca como um excelente intérprete.
Bob Dylan tem apenas duas composições “originais”. “Talkin’ New York” é uma canção narrativa sobre os seus primeiros dias em Nova Iorque a dureza da cidade que nunca dorme. Já “Song to Woody” é um tema folk de homenagem ao seu grande herói, Woody Guthrie, que rouba a melodia e progressão de acordes a “1913 Massacre”, o que torna ainda mais engraçado o verso: “Hey Woody Guthrie, I wrote you a song”. Nesta canção, Woody homenageia ainda Cisco Houston, Sonny Terry e Lead Belly, outros cantores que marcaram de forma indelével a tradição folk.
O disco vendeu apenas 2.500 cópias nos Estados Unidos e só não foi um desastre financeiro porque o seu custo também foi muito reduzido (afinal, Dylan tocou todos os instrumentos e foi o próprio John H. Hammond a produzir o disco). Um ano depois, tudo mudaria de facto graças a um disco chamado The Freewheelin’ Bob Dylan. Mas isso são outras histórias, com tantas mentiras pelo meio como esta.