“Cantigas do Maio” abre com um acordeão dolente, uma levíssima pincelada por cima da viola quase fadista. No refrão o tempo duplica, para dar mais força à catarse emocional dos versos roubados ao cancioneiro popular: “minha mãe quando eu morrer…”. O acordeão, antes suave, é agora nervoso e agitado.
“Milho Verde” – José Afonso
O ritmo sincopado de um adufe dá balanço a “Milho Verde”, um bonito tema popular, com um imaginário singelo e malandro ao mesmo tempo: “à sombra do milho verde namorei uma casada”…
“Cantar Alentejano” – José Afonso
Menos é mais, pensou José Mário Branco quando chegou a hora de encenar “Cantar Alentejano”, a comovente elegia a Catarina Eufémia. O dedilhado da viola é tão bonito, e o falsete de José Afonso tem tanta dor, que Zé Mário não lhe acrescentou absolutamente nada.
José Afonso – Como se Fora Seu Filho (1983)
Como se Fora Seu Filho é um disco triste e alegre. Triste porque Zeca está doente, a voz fraqueja, há a consciência do fim. Alegre porque não se rende, gravando um disco belíssimo, fintando a morte.
José Afonso – Fados de Coimbra e Outras Canções (1981)
Em Fados de Coimbra e Outras Canções, Zeca Afonso regressa à casa de partida: a Canção Coimbrã.
José Afonso – Fura Fura (1979)
Fura, Fura ocupa um lugar singular na discografia de José Afonso, talvez por ser o mais dramatúrgico dos seus álbuns: oito dos doze temas provêm de colaborações com o teatro.
“Canarinho” – José Afonso
“Canarinho” é, provavelmente, o tema mais experimental em todo o cancioneiro de José Afonso: minimalista e hipnótico, repetindo-se de uma forma obsessiva, como quem desbasta caminho numa selva, encontrando sempre o mesmo estonteante calor húmido.
“Maio Maduro Maio” – José Afonso
A flauta de “Maio Maduro Maio” é delicada como uma brisa fresca.
“Mulher da Erva” – José Afonso
“Mulher da Erva” tem uma melodia linda e colorida, um festim de prazer para o nosso córtex auditivo. A letra é de uma comovente empatia, como se assim se conseguisse aliviar um pouco o fardo de erva que a pobre velha carrega.
José Afonso – Cantigas do Maio (1971)
Cantigas do Maio não é só o melhor álbum do Zeca. É o nosso melhor disco, ponto. O momento em que o seu bonito projecto – de reinvenção profunda da música tradicional portuguesa – atinge o seu auge poético.
“Ronda das Mafarricas” – José Afonso
A profana “Ronda das Mafarricas”, com as suas quatrocentas bruxas e o chibo velho a dançar no adro, tem letra do pintor António Quadros. O berimbau de boca e as sílabas insólitas inventadas pelo Zeca acentuam a estranheza pagã de todo o imaginário.
Playlist da Semana: Especial José Afonso
Em semana de especial José Afonso, a playlist será dedicada ao nosso mestre. Essa é, aliás, uma das vantagens da reedição em curso: ir disponibilizando a sua obra nas plataformas digitais. É degustar com deleite.
Especial José Afonso
Nas próximas duas semanas, esmiuçaremos os seus 14 álbuns de estúdio, recordaremos o mítico Ao Vivo no Coliseu e lançaremos algumas reflexões sobre o seu legado.
João Gilberto e Stan Getz – Getz/Gilberto (1964)
É bossa nova? É jazz? Não, é Getz/Gilberto. Um dos discos definidores dos anos 60.
De La Soul – 3 Feet High and Rising (1989)
O álbum de estreia dos De La Soul, 3 Feet High and Rising, é a obra-maior dos chamados anos de ouro do hip-hop. Groovy, irreverente e colorido.