Já vinha de Romance, mas agora confirmou-se – com Dopamine Chamber, os Fontaines optaram por um caminho onde os sintetizadores têm um papel tão importante como as guitarras para a sua pop sombria, expansiva e emocionalmente ambígua.
Diclaimer inicial: Escrevo esta crónica enquanto faço a terceira audição a este álbum, estimo que quando a terminar já terei dado uma quarta volta ao mesmo. Portanto não estranhem se a toada mudar, sabe-se lá o que vou estar a sentir ao ouvir este mesmo disco daqui a uns 45 minutos? Hoje em dia as coisas mudam tão rápido…
O primeiro pensamento vai para o evidente – Dopamine Chamber é uma clara continuação da mudança de direção que a banda tomou com Romance: as guitarras continuaram lá, a inquietação também, mas entretanto outros elementos ganharam espaço na sonoridade da banda – sintetizadores, ritmos hipnóticos e uma ambição cinematográfica (onde se inclui a mudança na imagem da banda) que já não cabe nas paredes de um pequeno bar de Dublin.
Desde Dogrel (2019), disco no qual me agarraram pelo colarinho, a banda percorreu um caminho notável e inesperado. Tenho quase certeza que, se dissessem ao Grian Chatten de 2019, que eles iriam estar a tocar nas maiores salas e festivais passado poucos anos, se iria rir à gargalhada na nossa cara. Porque o álbum de estreia era uma descarga de pós-punk nervoso, de uns miúdos desencantados com a sua Dublin, entre cervejas, frustrações e sonhos adiados. Passámos para A Hero’s Death (2020), que introduziu uma dimensão mais sombria e introspectiva (o concerto dado na prisão Kilmainham Gaol mostra muito bem esta fase); Skinty Fia (2022) aprofundou a melancolia, a identidade irlandesa e a sensação de desenraizamento. Depois atiraram-nos com um Romance, onde trocaram uma grande parte da aspereza inicial por melodias expansivas, texturas eletrónicas e refrões capazes de conquistar as mencionadas arenas. Confesso que muito estranhei esta mudança, depois entranhei.
Com Dopamine Chamber, fica claro que é este o caminho que querem seguir. E eu fico outra vez em mixed feelings com tudo isto. Veio-me à cabeça um paralelismo com os Joy Division e os New Order – tal como Bernard Sumner e companhia descobriram, depois da morte de Ian Curtis, que a angústia também podia encontrar expressão na pista de dança, os Fontaines D.C. parecem perceber que a inquietação não precisa de vir sempre acompanhada por guitarras explosivas e um baixo marcante. Não se trata de abandonar o passado, mas de transformar a sua energia em algo novo. Ora bem, eu demorei anos a interiorizar a grandeza dos New Order, portanto dêem-me tempo para viver esta nova fase de Chatten e comparsas, sim?
Neste momento ainda tenho dificuldades em assimilar, por exemplo, “Tongue” e “Mimesis”. Esta última será porventura a mais neworderiana, com um baixo pulsante e sintetizadores no centro das “atenções”. É a que torna mais evidente a troca da urgência punk pela pista de dança, e vem daí a minha resistência inicial. “Marianne”, primeiro single a ser lançado, é claramente uma das canções mais cinematográficas do álbum, cordas grandiosas e uma pulsação que parece arrastar o ouvinte para algum lugar desconhecido, já que o convite para desaparecer (“I can help you disappear”) sugere libertação, mas ao mesmo tempo esconde uma ameaça. Aqui, os Fontaines D.C. exploram a sedução como fuga à realidade, questionando se a procura incessante de prazer não acaba por nos aprisionar.
“Demolition” e “Japan” foram as que mais facilmente me entraram nestas audições. A primeira fez-me imediatamente lembrar “Death Kink” do disco anterior, pela sua energia grunge, guitarras pesadas e intensidade vocal. A segunda é o oposto, uma delicadeza melódica e atmosfera de dream pop, com uma narrativa emocionalmente perturbadora, de uma relação claramente desequilibrada (“And she pays for all his shit ’til he says thanks without a smile”) e na qual já não existe chama (“When they fuck, she leaves her body for a while”). E falta falar da inevitável “Where Is Gone?” – a tão propalada colaboração com Rosalía. O diálogo entre as vozes até que funciona, é uma espécie de duelo emocional, ver quem demonstra mais o que lhe vai na alma e acrescenta uma boa camada à paisagem de desejo, manipulação e fuga à realidade, que é, no fundo, o tema central de Dopamine Chamber.
Os Fontaines D.C. já não são apenas uma referência do pós-punk contemporâneo: são um dos nomes maiores do rock actual, capazes de conciliar credibilidade artística, aclamação crítica e dimensão popular. Uma boa oportunidade para perceber a unanimidade que existe à volta destes irlandeses acontecerá já a 21 de outubro, no MEO Arena, em Lisboa. Lá estarei para descobrir como conviverá Dopamine Chamber com a urgência dos primeiros discos. Afinal de contas, se os Fontaines D.C. nos ensinaram alguma coisa, é que até o desencanto inicial pode resultar num romance mais à frente.