Todos gostamos de charme e elegância. E se tudo isso existir na música, tanto melhor. Escolher os terminais de Andrei Nikolsky é uma aposta acertada, se quiser ser seduzido.
O mundo está repleto de ilustres desconhecidos. Ainda bem. Por várias razões, que pouco importa agora acrescentar aqui qualquer explicação, a não ser esta: a boa surpresa de passarmos a conhecer mais um nome que mexeu connosco, ao ponto de passar a ficar debaixo do nosso (nem sempre) atento radar. Dá pelo nome de Andrei Nikolsky e residir em Londres, lugar onde produz e faz música. É, ainda, fundador da editora Palace Records, e é através dela que publica aquilo que faz. Influências, há muitas e remontam a décadas passadas, muitas delas, se bem que as eletrónicas usadas espelhem alguma da modernidade retrô do seu som. Ambientes cinematográficos, umas pitadas de nu jazz e um ou outro ingrediente mais avulso (soul, funk, library music) e a coisa fica feita. E bem feita, note-se, que este Music For Terminals tem que se lhe diga. Fica no nosso palato sonoro à primeira prova, revelando-se repleto de boas e suculentas calorias canoras. A elegância, em si mesma, é uma categoria que a arte não deve desprezar. E, por aqui, pelos quase quarenta minutos de duração de Music For Terminals, ela abunda. Charmosa, magnética, com poder de atrair, de encantar, de seduzir.
A primeira coisa que nos vem à cabeça, quando olhamos para o título deste recente disco de Andrei Nikolsky, é o álbum de Brian Eno, dos idos finais de 1979, Music For Airports. Fica, no entanto, por aí, pela designação, a relação entre ambos. No trabalho agora lançado, não há espaço para longas camadas de sons que se vão instalando aos poucos, preenchendo espaços de pensamento e introspeção. Em Music For Terminals é tudo mais célere, tudo decorre em pouco tempo, quase nada ultrapassa os normais três, ou três minutos e meio das mais comuns canções. A voz humana não entra nesta equação sonora. Apenas se escuta a voz dos instrumentos: baixo, guitarra, piano, bateria e sintetizadores Rhodes, DX7, flauta, saxofone. O resultado traduz-se num dos mais interessantes discos saídos neste primeiro trimestre de 2026.
Há um certo apelo à dança nas iniciais “Swiftly” e “Line Stepper”, algo quebrado pela mais tranquila e sonhadora “Wafty – LP Mix”, onde o sopro do trompete (é o que nos parece, embora não surja mencionado esse instrumento na contracapa do disco) ganha destaque. “On The Waterfront” sabe a bossa-nova estilizada, um pouco à maneira de Sérgio Mendes ou Lalo Schifrin. As muito curtas “Siren Call”, “Submerge”, “Slack Time” e “Starburst” servem outros propósitos, são como um outro lado – menos festivo e mais introspetivo – deste Music For Terminals. Já “Waltz for Someone”, um dos mais bonitos e diretos temas do álbum, contrasta com “Beyond the Black Stump”, que por sua vez mais contrata ainda com o surpreendente funk de “The Shuffle”. “Solstice”, por exemplo, é de uma elegância a toda a prova e é difícil não a colocarmos em repeat. Enfim, o que daqui se percebe é que este Music For Terminals nos leva a múltiplas viagens, como se fossemos nós, os viajantes, a termos de escolher os terminais que nos conectem com os destinos desejados. A oferta é grande e a liberdade maior ainda. É seguir viagem e levar pouca coisa na bagagem, que não vale a pena o peso transportado perante a leveza do voo sugerido.
Uma derradeira nota, umas últimas e breves considerações para acentuar outra camada de charme que vem da capa de Music For Terminals, a lembrar as icónicas imagens dos álbuns da Blue Note, naqueles lindos tons monocromáticos que nunca nos saem da cabeça, uma vez vistos. Belíssima, assim como a contracapa também é. Todo o disco, aliás, como já deverá ter notado se chegou ao fim destas linhas.