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Adeus, Zé Mário: contámos com isto de ti, para cantar e para o resto

1.Num concerto do Zé Mário num 1º de Maio (na Praça da Figueira, creio), eu – talvez já um pouco tocado, dizem as más línguas – gritei para o palco: “FMI”. Zé Mário respondeu, com aquele doce sarcasmo tão habitual nele: “não chamem, não chamem…”. O que é certo é que uns meses mais tarde a Troika chegou. O bandido tinha razão.

2. Quando tinha 19 anos, ouvi pela primeira vez – numa água furtada em Santo Amaro de Oeiras – uma cassete com o “FMI”. Fiquei maluco com aquilo. Que dor, que verdade, que bomba atómica emocional. Hoje tenho 42 anos e nunca mais ouvi nada assim.

3. O primeiro concerto que vi do Zé Mário foi no São Luís, só ele, a viola e a sua deliciosa resmunguice. O Ferrão – sempre refilando, no seu caixote de lixo, contra tudo e contra todos – sempre foi a minha personagem favorita. O da Rua Sésamo, é certo. Mas sobretudo o outro. O nosso Ferrão.

4. O melhor disco de sempre de música portuguesa é o “Cantigas do Maio” do Zeca, produzido pelo Zé Mário. A atmosfera estética é de uma poesia e elegância sem paralelo. Mais. Não sei de onde veio. Não tem marcas do tempo. Podia ter sido gravado anteontem. Ou então veio do futuro, não sei. Cresci com esse vinil em casa. Não seria a mesma pessoa sem ele.

5. O Zeca teve três grandes herdeiros: o Godinho, o Fausto e o Zé Mário. Um dos momentos mais comoventes da minha vida foi vê-los reunidos num concerto no Campo Pequeno. Fartei-me de chorar. 90% do que sei da vida devo-lhes aos três. O Godinho é o beatnick do quotidiano, o Fausto é o doce ermita, o Zé Mário é o mais político, o mais épico e o mais caústico. É muito difícil compará-los mas creio que o timbre mais bonito é o do Zé Mário, muito articulado, conseguindo a proeza de ser doce e zangado ao mesmo tempo. É uma voz muito influente. Quando ouço o JP Simões a cantar, sinto-lhe sempre o travo elegante do Zé Mário.

6. No último verso do “FMI”, Zé Mário diz-nos: “contai com isto de mim, para cantar e para o resto”. Mesmo depois de toda aquela catarse, pelo lindo sonho que acabara, Zé Mário fez questão de nos dizer que podíamos continuar a contar com ele. Assim o fiz a vida inteira, e nunca, nunca me desiludiu. Toquem os sinos. Um dos meus pais partiu.

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