O primeiro dia do Primavera Sound Porto elegeu a nostalgia como sentimento maior. Valha-nos a memória, que tantas vezes nos salva… ou nos castiga.
Somos muita coisa. O que vemos, o que ouvimos, os locais onde vamos estando, tudo se liga para sermos nós. O Altamont é também isso, naturalmente. Ontem, estivemos no primeiro dia do Primavera Sound da capital do norte. E vimos, ouvimos e andámos por entre aqueles montes e vales verdejantes do Parque da Cidade do Porto.
A décima terceira edição do Primavera Sound Porto contou com a presença de muita gente, desta vez com um sol prometedor (quiçá demasiado), dando folga à chuva, que tantas vezes resolveu pingar sobre quem lá foi. E “pingar”, para sermos fiéis à história das edições passadas, é um claríssimo eufemismo. Boné na cabeça, olhos e ouvidos atentos, lá fomos nós, contentes e esperançosos. Bons concertos, abraços de amigos, boas conversas e memórias futuras garantidas. Umas cervejas para aclarar a voz. Isso bastava.
Há quem diga que o 13 é número de azar. Chegar ao recinto da décima terceira edição deste Festival foi um autêntico caos. Obras e mais obras resultaram em duas horas de caminho. Perdemos um ou dois concertos que queríamos ver, mas mãos amigas fizeram esse registo por escrito. Não se aflijam.
O arranque das operações foi feito ao som de Rodrigo Vaiapraia e a sua banda, trazendo na mala o nosso disco escolhido para top do ano passado, Alegria Terminal. O calor tornava impossível estar fora da zona de sombra, mas a frente de palco até estava bem composta. Ficámos na dúvida se Rodrigo ia fazer ciclismo ou polo aquático, a indumentária enviava sinais contraditórios quanto a isso, mas ficou a certeza de que se entrega totalmente àquilo que faz – rock desgarrado, daquele punk que parece fácil, letras dispersas, e algumas canções como “Eu quero, eu vou” e “Corta-Unhas” que viciam.
Os Nation of Language parecem uma instituição dos anos 80, mas nesses tempos ainda nem sequer tinham nascido. Fazem lembrar tanta coisa, desde Joy Division, Orchestral Manouvres in The Dark, pozinhos, aqui e ali, dos The Cure, tudo regado a pós-punk dessa milagrosa década. Foi, portanto, um concerto anacrónico, uma espécie de “uber do tempo”, em que olhávamos para o palco e víamos Richard Devaney, Aidan Noel e Alex MacKay, embora também vislumbrássemos os Depeche Mode, os New Order e outras máquinas musicais daquela altura. Muita dança, alguma nostalgia, e alguns flashes mentais de memória distante, passando agora, no tempo presente, nas salas de cinema das nossas mentes. Os temas do recente Dance Called Memory (o título do álbum já elucida alguma coisa, certo?) foram os mais saudados. Foi um bom regresso ao Primavera Sound, sem dúvida.
Com os Sensible Soccers, a eletrónica (as máquinas, sempre as máquinas sem voz que as suportam) entram em cena. Há um número maior de músicos em palco do que é costume, e os temas arrastam-me, fugindo dos parâmetros das canções. Eles, aliás, fazem música, não se enquadram no formato típico dos três minutos das canções. Tecem os temas como se fossem ourives, meticulosamente, por vezes mais dançantes, outras nem tanto, mas há sempre alguma pulsação que provoca, que causa bons constrangimentos em quem os ouve. Foi um concerto ainda com bastante sol pela frente, naquela bonita inclinação verdejante que se estende até ao palco Vodafone.
Depois dos portugueses com nome inglês, os americanos ladrões iam atuar no Palco Estrella Damm. Sim, a cerveja de Barcelona deu um chega para lá à lusa Super Bock. Enfim, em guerras líquidas não nos metemos. Até porque escorre bem, é fresquinha, tudo certo. Big Thief e o seu som americanizado (hello Michelle Shocked, há muito que não sabemos de ti, mas há quem tenha semelhanças contigo) fez-se soar no recinto repleto de amantes de Adrianne Lenker e companhia. No Altamont, para que conste, há quem se ajoelhe e reze perante as catedrais sonoras (a expressão não é nossa) que estes americanos conseguem erguer a cada canção. Tudo cheira e sabe a bourbon de Brooklyn, bem servido, bebido num trago auditivo que não deixa amargos de boca. Em dose larga, não entontece, mas leva-nos a lugares simpáticos. São grandes, já de uma dimensão interessante, se pensarmos no meio indie da folk-rock dos nossos dias. Se trazem algo de novo? Talvez não, mas o que importa isso num mundo cada vez mais artificial? Os Big Thief estão com uma perna (pelo menos) na tradição musical da terra do Tio Sam, e nisso vai já um ganho, até porque o tio sam do momento (sem maiúsculas, pois claro) já conseguiu lixar tudo o que de bom aquela terra trouxe de digno ao mundo ocidental. Estes, ao menos, cantam palavras bonitas, de guitarras nas mãos. São estas as suas armas. Pacíficas, reconfortantes, agradáveis.
Com o sol a desaparecer por detrás do palco, a tarde caiu bonita, dando lugar a muitas estrelas no céu.
Seguiu-se Ethel Cain, personagem que levou vários milhares às mais primárias emoções humanas. Relatos afirmam que as primeiras filas do Palco Vodafone estavam lavadas em lágrimas. Isso é bom, quando a música emociona aqueles que a ouvem. No palco, o que Ethel Cain faz é levar o seu público a uma espécie de céu, ou de inferno, consoante os temas que interpreta. É teatral, toda ela (parece uma personagem dos livros de Margaret Atwood), jogando com a sua capacidade de exteriorizar os seus pequenos demónios, as suas íntimas inquietações. Preacher’s Daughter foi o início de um caminho em que a dor transparecia a cada nota cantada. Fã de Florence + The Machine, há em Ethel Cain algo que não é fácil de descrever, não tanto por ser novo ou inusitado, mas antes por parecer confuso, quase anti-pop, vindo das profundezas mais dark da estética americana, sulista, conservadora, religiosa, cenário de bruxaria musicada, fantasmagórica e encenadamente desleixada. Esteve uma bruxa de Salem em cima do palco e nenhum inquisidor para a condenar. Ainda bem. Para aqueles milhares referidos há poucas linhas, resultou. Para outros, nem tanto. Há caminhos em que ficar a meio e voltar atrás parece mais sensato. A vida não é só seguir em frente, acelerando. Metemos travão e fomos apanhar ar, fugindo um pouco da claustrofobia do slowcore que havíamos escutado.
É bonita a história dos The xx. Ou melhor, de Romy Anna Madley Croft e de Oliver David Sim, que se conhecem e são amigos desde os três anos de idade. A vida avançou, e nesse avanço formaram uma banda que marcou, goste-se ou não, a segunda década deste século. Parece que se esgotaram em três álbuns, mas aí estão eles, de novo, nos festivais do nosso contentamento. O melting pot de ideias e influências que transparece da sua música é múltiplo, e apresenta-se, visualmente, em cima do palco, a preto e branco, quase sempre. E o que detetamos, se quisermos ouvir cirurgicamente o que nos oferecem, é amplo e talvez não caiba em poucas linhas. Mas por ali espreita gente de respeito. Muita, até. Como aqui escrevemos para quem os conhece, não perderemos tempo com isso. O concerto foi dançante, praticamente todo. No entanto, nessa dança há um esgar de nostalgia que se abeira de um passado que ficou um pouco por lá, não se chegando à frente dos tempos. Os The xx não gravam um disco há quase dez anos e isso não deixe de ser algo surpreendente para serem cabeças de cartaz do primeiro dia (ou do segundo, ou terceiro, se fosse o caso) do Primavera Sound da cidade do Porto. Diz-se que o seu aparecimento foi um abençoado milagre. Não discutimos isso, claro, mas os milagres verdadeiros tendem a durar mais tempo. Foi um concerto que teve os seus momentos, sim. Mas era bom que fôssemos brindados por novo material da banda de Londres. Até porque, a memória tanto salva, como fossiliza, se não estivermos atentos.
Até mais logo, Primavera.
*Fotografias brevemente