Foi uma alegria que ninguém pôde conter. Hit atrás de hit, os Arcade Fire não mudaram o tom dos seus concertos — e no primeiro dia de Campo Pequeno, nós cantámos aos berros todas as músicas de Butler e Chassagne. Nem a má acústica do recinto estragou a festa.
Coros triunfantes e danças aos saltinhos, com sorrisos ingénuos e tambores ao ar. Arcade Fire sabe que em equipa vencedora não mexe. A cada digressão nova, não se reinventa a boa disposição — apenas a disposição de palco, a cor das LED, a bonecada meticulosamente armadilhada pelo recinto. Pela oitava vez desde 2005, quando se estrearam em Portugal no festival Paredes de Coura, fomos a um concerto de Arcade Fire (pela segunda vez no Campo Pequeno) e berrámos os best ofs como se fossem hinos para as nossas pátrias.
Não foi um ringue de boxe ao centro, como da última vez neste recinto. Desta vez, a novidade era uma grande faixa elíptica ao alto do palco, projetando a íris dos olhos que faz capa do novo disco WE (2022). A comitiva canadiana subiu ao palco às 21:35 para “Age of Anxiety I”, cujos sintetizadores (arrepiantes) têm servido de arranque nesta digressão. No nosso caso, deste concerto em Portugal, a baixa frequência da eletrónica foi algo abafada pela péssima qualidade acústica do Campo Pequeno. A festa fazia-se na mesma: Win Butler e Régine Chassagne, sempre irrequietos, são monstros de palco — e como bons monstros de palco, sabiam que um simples levantar de braços no momento final da música, com sintetizadores épicos, seria o suficiente para pôr o público a imitar (aos berros) a melodia tocada pela eletrónica.
Em português, Butler agradeceu: “Obrigado, Lisboa.” “Estamos extremamente felizes por estar aqui”, acrescentou, já na sua língua-mãe. Lisboa retribuía o amor, ignorando naquela noite as acusações de assédio sexual por parte de três mulheres contra o frontman da banda, ou quiçá separando o artista da arte, aproveitando apenas as canções, hits atrás de hits. Independentemente, cada pessoa viveu o concerto à sua maneira. Mas pelo que se ouviu do público, que cantou todas as músicas, letras por letras, e nos motifs mais orelhudos, havia um denominador comum: a música. Apesar da polémica existir (e de parecer tudo ok entre Butler e Chassagne, que emanavam a química e alegria de sempre), ali toda a gente queria música.
Tanã, tanã, tanã. Eram as notas da guitarra de “Ready to Start”. Foi substituída por “Age of Anxiety I” como música de arranque, mas agora com The Suburbs (2010) com dez anos de distância, os Arcade Fire já a tocam com estatuto de clássico. E daí para a frente, foi um concerto de clássicos: “The Suburbs”, “My Body Is a Cage” (cantada no meio do público), “Afterlife” e “Reflektor”.
Depois de fazermos a parte de David Bowie em “Reflektor”, com Butler de microfone virado para nós, a aula de ginástica ia a meio. Uma pausa para futuros-clássicos: “Age of Anxiety II (Rabbit Hole)”, “The Lightning I” e, o mais celebrado desta tríade, “The Lightning II”.
Por fim, a fase final da aula de ginástica estava guardada para os tesouros de 2004, de Funeral, e de 2003, do EP homónimo de estreia. “Rebellion (Lies)”, que pôs o Campo Pequeno a gritar “mentira! mentira!”, “Headlights Look Like Diamonds”, a primeira canção que Butler e Regine escreveram como casal, e “No Cars Go”, outro dos muitos momentos altos do concerto. Porquê? Já a canção tinha acabado, o público continuava a cantar. E não parava. Butler, a rir-se e agradecer, teve de dar ordens aos colegas com “one, two, three, four” para arrancar com “Unconditional I (Lookout Kid)”, a canção mais entoada do novo disco, com tururus coordenados entre o público e a banda.
Com Haïti, Arcade Fire tiveram a companhia da banda de abertura, os haitianos Boukman Eksperyans, que levaram a música tradicional de Port-au-Prince à praça de touros, num ritual repetitivo, hipnótico e, claro, dançante. De seguida, em “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, Régine Chassagne cantou no meio do palco e o concerto acabou com “Everything Now”, uma explosão de alegria que provou o quão mal-amado (não) é o Everything Now (2017)
Afinal, não. Não foi o fim do concerto. Depois do conforto de “End of the Empire I-III” e “End of the Empire IV (Sagittarius A*)”, veio o hino de sempre: “Wake Up”. Se costumavam arrancar com “Ready to Start”, é habitual acabar com esta. Tem tudo o que eles gostam: uma melodia forte o suficiente para pôr um recinto inteiro a cantar minutos e minutos a fio, já depois da canção acabar até. Foi o que fizemos (mais uma vez): já sem amplificação, a banda saiu do palco, saiu do Campo Pequeno e seguiu pela calçada portuguesa, caminhando pela freguesia, de instrumentos na mão, tal como uma marching band. Nós seguimos até onde eles fossem. Foi uma alegria que ninguém pôde conter.
Setlist:
- Age of Anxiety I
- Ready to Start
- The Suburbs
- The Suburbs (Continued)
- It’s Never Over (Hey Orpheus)
- My Body Is a Cage (Régine and Win no B-Stage)
- Afterlife
- Reflektor
- Age of Anxiety II (Rabbit Hole)
- The Lightning I
- The Lightning II
- Rebellion (Lies)
- Headlights Look Like Diamonds
- No Cars Go
- Unconditional I (Lookout Kid)
- Haïti (com Boukman Eksperyans)
- Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)
- Everything Now
Encore:
- End of the Empire I-III
- End of the Empire IV (Sagittarius A*)
- Wake Up










