Domingo é dia santo: não se deve fazer nada. É dia de descansar, de estar com a família, de recuperar energias e de nos sentirmos bem e relaxados. Este domingo foi assim, só que não estive com a minha família, acordei cedo e relaxar foi coisa que não houve em quantidade significante. Senti-me assim, contudo, porque fui ver Yann Tiersen.
O bonito cenário que foi o palco principal do Centro Cultural de Belém recebeu o icónico músico francês, mais conhecido como o tipo que deu música à Amélie e à despedida do Lenine (não, não tentou engatar uma miúda chamada Amélie nem tocou no Avante). Tiersen tem vindo a tocar o seu álbum mais recente, Infinity, um pouco por todo o lado, e Lisboa não fugiu ao roteiro. Acompanhando por um ensemble bem recheado (ao todo, contaram-se seis ou sete músicos que partilharam as luzes do palco), Tiersen provou a razão pela qual é um dos músicos mais marcantes das últimas décadas. Com a sua mistura magistral de instrumentalização clássica, entenda-se piano, por exemplo, e ao mesmo tempo apostando numa constante reinvenção, conseguiu criar uma pequena bolha dentro do auditório em que todos aqueles que a partilhavam tiveram hipótese de sentir, além de uma torrente infindável de arrepios, a força que a música pode ter. Não falo de uma força física ou metafórica, falo dum dom incrível que é fazer a vida saber a… vida, apenas graças a uns quantos rabiscos numa pauta. Acho que já se pode perceber que foi um excelente concerto.
Esteve sempre receptivo, embora pouco presente. Atirou umas quantas frases num inglês afrancesado encantador, pondo-nos à vontade para apreciar o seu concerto em pé (o CCB apenas tem lugares sentados). Vontade não faltou, quando saltavam as músicas mais mexidas que tantas vezes soavam a um post-rock delicado («La Crise» ou «The Gutter»), mas não menos pujante. De notar também não só a versatilidade impressionante do francês, tocando cerca de sete instrumentos diferentes durante a hora e meia de concerto, e também o à-vontade do ensemble que mais parecia estar numa jam session em vez de um concerto. Amizade, confiança e experiência jorravam do palco.
Não será preciso dizer de novo, mas, pelo sim pelo não, di-lo-ei novamente: foi uma noite muito, muito bonita. Não se ouviram muitos clássicos (o que entristeceu algumas das vozes que se fizeram ouvir fora da sala) mas, se o espetáculo inteiro fosse resumido às últimas duas atuações do encore – brilhante, friso, brilhante mesmo, a interpretação de «Sur le File» em piano e violino, assim como «Till the End», cantada por toda a banda –, teríamos saído de lá com a barriga igualmente cheia. À la prochaine, Yann.
Setlist:
Meteorites
Slippery Stones
Ar Maen Bihan
A Midsummer Evening
Palestine
Dark Stuff
La Dispute
La Crise
Steinn
In Our Minds
Chapter 19
Rue des cascades
Grønjørd
The Gutter
The Crossing
Vanishing Point
Lights
The Long Road
Sur Le Fil
Till The End
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Fotos por Francisco Fidalgo
