É um despertar deslumbrante, o dos Belle and Sebastian. Tigermilk é o álbum que, sozinho, cumpre os propósitos de elegância e requinte de toda uma carreira. Está lá tudo aquilo que foram fazendo depois.
Há uma pureza quase milagrosa e um raiar maior de clarividência que tantas vezes se perde mais tarde, mas que habitam os primeiros discos de muitos artistas e de muitas bandas. Neles, nesses iniciais trabalhos, presenciamos o momento exato em que a urgência criativa ainda não foi domesticada pelas expectativas do mercado, pelas digressões extenuantes ou pela autoconsciência que o tempo, inevitavelmente, impõe. Ou por soberbas que se ganham, por excessos gratuitos que se cometem, e por aí afora. Em 1996, quando Stuart Murdoch e companhia se juntaram em Glasgow para gravarem Tigermilk, não poderiam imaginar, e muito menos saber, que estavam a ajudar a desenhar o mapa afetivo da indie pop moderna. O que nesse álbum se ouve é o registo intocado de um segredo partilhado entre amigos, um segredo que foi tornado maior, porque conhecido, um embrião de musicalidade de extraordinária beleza. Há um encanto indizível nessa estreia, transparecendo dela um misto de timidez e audácia que só pertencem aos futuros clássicos, aos começos absolutos!
O som dos Belle and Sebastian, sobretudo em Tigermilk, surge banhado por uma melancolia reconfortante, um olhar serôdio que espanta por ter sido feito por rapazes e raparigas sem idades para tão grande feito. A produção é despida de truques e artimanhas, depurada, quase pastoral, assente numa folk que parece existir no ar que se respira, mas que ganha corpo em guitarras dedilhadas que parecem pedir desculpas por, eventualmente, poder incomodar. É um disco de uma tão amável cortesia, que se torna irresistível. A verdadeira espinha dorsal deste registo reside na extraordinária delicadeza das suas canções e, acima de tudo, das suas palavras. Murdoch escreve como um cronista da solidão quotidiana, um vagabundo conhecedor das nuances das fragilidades humanas, um humanista dos afetos, deste e doutros tempos, capturando a beleza sinuosa dos marginalizados, dos miúdos que folheiam as páginas dos livros que vão lendo com cuidados de pétalas, nos cantos de sombrias salas de aula, tendo nas mãos corações de letras e de palavras que se quebram em silêncio. Num certo sentido, Tigermilk é um disco terapêutico, e ouvi-lo é uma terapia que não falha.
No entanto, para além da música, existem as palavras, todas elas merecedoras de um qualquer Nobel para a juventude que ama, sofre e sufoca nos intervalos da vida. Como exemplo, a monumental abertura com “The State I Am In”. Na aparente simplicidade dos seus acordes, esconde-se uma narrativa literária devastadora e irónica. Quando Murdoch canta “I was surprised, I was happy for a day in 1975 / I was puzzled by a dream / That stayed with me all day in 1995 / My brother had confessed he was gay / He tooked the heat off me for a while” há uma economia de linguagem que evoca (ou faz lembrar, para sermos mais exatos), a poesia de Philip Larkin, por exemplo, ou certos contos de Raymond Carver, em De Que Falamos Quando Falamos de Amor. Não há artifícios, apenas a crua e bela vulnerabilidade de quem se confessa num confessionário vazio, mas cheio de fantasmas, ao mesmo tempo. O mesmo acontece na doce e quase geométrica “Expectations”, onde a rítmica delicadeza melódica embala a história de uma rapariga alienada na escola, que prefere a sua própria imaginação ao mundo real. As palavras agem aqui como aguarelas, tocando levemente no papel, mas deixando nele uma marca indelével. Em “We Rule The School”, os Belle and Sebastian atingiram o ponto perfeito, combinando busca de identidade, tédio, e o inevitável desconforto presente quando se é um jovem vulnerável. Mas o tempo passa, e por isso há também uma consciência de urgência premente, quando se canta “Do something pretty while you can”. É bonito, comovente e quase chocante, esse conselho. Que canção admirável!
Escutar este trabalho de estreia, na abertura deste Especial que dedicamos à banda, convida-nos a continuar a traçar inevitáveis analogias literárias. Serão, necessariamente, ossos do ofício, é certo, mas é dos álbuns mais literários que conhecemos. As personagens que povoam estas faixas parecem saídas diretamente de um romance de formação de J.D. Salinger, como Uma Agulha no Palheiro. Mais: há um quê de Holden Caulfield na forma como a banda recusa o cinismo do mundo adulto, preferindo abrigar-se numa sensibilidade que muitos confundem com fraqueza, mas que é, na verdade, uma atitude de enorme força e vigor. Tigermilk é um tratado de literatura pop feita de pequenos gestos escritos, de imaginadas camisolas às riscas coladas aos corpos, em tardes chuvosas de outono.
Tigermilk não é um disco perfeito (nenhum é, pois não, mesmo quando tantas vezes pensamos que sim?), mas quase ascende a esse patamar, embora nunca se coloque em bicos de pés, e é exatamente por isso que permanece tão bom hoje, como em 1996. Ele preserva a frescura de uma juventude que se sabe passageira, faz-nos sentir a fragilidade de canções que parecem feitas de vidro, ora límpido e transparente, ora fosco de nódoas humanas, mas sempre quebradiço, e onde temos a certeza de que a beleza, muitas vezes, se manifesta nos sussurros e nunca através de gritos. Até porque, como bem sabemos, há segredos que se expressam de maneira tão íntima e profunda, que só deveriam ser escutados por ouvidos puros e singelos. Como os nossos, quando para aí estamos virados.