Diz-se que o rock salva. A ser verdade, os salvadores foram os Foo Fighters, tendo em Dave Grohl o seu incansável profeta.
Prelúdio: Nick Cave andava sobre nós e a leveza que sentíamos não era a do seu corpo. Era a da sua alma. Andava sobre nós, que de braços estendidos ao alto, sustínhamos a sua figura. Isso bastava para nos fazer felizes. E cantava “Henry Lee” e nós fazíamos o mesmo. Era de noite, naturalmente. Sons, palavras e a imagem de Nick Cave. It was all a dream até acordarmos, a sorrir.
Com os pés já bem assentes no chão de Algés, chegámos com pouco descanso no corpo, e de alma ainda turva. Se era um pouco de pica que nos faltava, fomos diretos ao nosso palco de estimação, o Coreto, para vermos e ouvirmos Picas, Maria Picas. Depois de termos ouvido o disco de Picas muito recentemente, percebemos que aquilo que a própria nos confidenciou há dias era verdade. O som está mais solto (as coisas ao vivo revelam quase sempre outro encanto), a própria “Pop Star” estava nas nuvens, como deu conta disso antes do tema entre aspas na linha acima. “Um pouco pop um pouco alternativa”, Picas entregou o que tinha a entregar. Deu um concerto escorreito, orelhudo, talvez já mais alternativo do que assumidamente pop. Coisas do crescimento, seguramente. Picas mostrou outros ângulos da sua música, outras personalidades sonoras (virou “Priscila” Presley em palco, vejam bem), mantendo uma identidade que se afirmou em disco e se confirmou no NOS Alive. A música pop portuguesa tem aqui uma nova artista a ter em conta. Compõe, canta, e toca um instrumento de nome estranho (Susuki Omnichord), menos quando lhe liga o cabo ao contrário, não é verdade? Picas baixou a guarda e vimo-la “mais de perto”. Gostámos muito. Venham mais concertos assim, frescos como brisas de verão. E que venha o próximo disco também.
Skunk Anansie é um produto dos anos 90. Visita-nos com alguma frequência e tem bastantes fãs em Portugal. Isso também se notou ontem, quando vimos uma extensa multidão à frente do Palco NOS. Deborah Dyer, mais conhecida por Skin, de cabeça rapada, tem energia capaz iluminar uma casa às escuras. Atitude punk, de personalidade forte, o concerto de Skunk Anansie foi um cozinhado de rebeldia, mensagens políticas e sociais (sempre presentes, a começar pela t-shirt anti-nazi de Skin) gritaria rock pronta a explodir, mas também baladas que são autênticos hinos, para os fãs da banda britânica. O dinamismo em palco é o íman perfeito para atrair gente sedenta de riffs e de baixos pulsantes. “Weak” e “Hedonism (Just Because You Feel Good)” são sempre temas obrigatórios e cumpriu-se a tradição. No mesmo palco seguiam-se bandas razoavelmente na mesma onda. Skunk Anansie deu para aquecer os motores dessa imensa gente que suspirava pela loba Alice e pelos lutadores Foo.
Jehnny Beth é selvagem, como bem sabemos, e ontem, de vestido negro, sapatos de salto alto cor de rosa e dente de prata, baton forte a sair dos lábios, mostrou toda a sua fúria em palco. Guitarras altas, rasgando os espaços das melodias sujas, pareceu-nos uma caricatura genuína e, quem sabe, assumida da velha amiga Siouxsie and the Banshees, mas sem a elegância soturna da inglesa. Rock antigo, mas com ar de novo, sabe-se bem a razão. Haverá, seguramente, mas escapa-nos. De qualquer modo, lá estivemos, firmes, guerreiros destas coisas festivaleiras. A noite era do rock, por isso, rock on!
Bom início, o dos War On Drugs. Aquele instrumental eletrónico a crescer, depois o baixo forte, uma artéria a pulsar e a pedir a voz de Adam Granduciel, que apareceu, finalmente. Grande entrada, sim senhor. Em todas as canções da banda de Filadélfia há qualquer coisa doce, açucarada e muito facilmente digestível. Rock budweiser, muito Bruce Sprigsteeniano (Born in The USA style) com canções que as pessoas verdadeiramente adoram, como ontem bem se observou. Muita alegria nos rostos, muitos copos no ar (pareciam brindes à vida, sem sequer se aperceberem disso, eventualmente), a boa disposição em formato pequena multidão. A música pode ser tanto isto… Ainda bem.
Os Wolf Alice cantaram “Lisbon”, que não tem feito parte da setlist da digressão mundial. Foi simpático da parte dos britânicos liderados pela guitarrista e vocalista Ellie Rowsell. Todos os concertos dos Wolf Alice são uma espécie de rollercoaster de emoções, a começar pelas variantes da voz de Ellie, que pode ser tão delicada, quanto agressiva. Mas os contrastes não moram apenas aí. Das baladas ao quase punk, pode não haver demora. Por isso, ao virar da esquina – de uma música para outra, entenda-se – tudo pode alterar-se. O icónico megafone não poderia faltar, evidentemente, assim como os hits “The Sofa”, “Just Two Girls”, “Bros”, “Bloom Baby Bloom”, How Can I Make It Ok”, “The Last Man on Earth”, terminando com a inevitável “Don’t Delete the Kisses”. Houve euforia e coros gigantes, mas também intimidade. Energia e eletricidade, mas também um esgar de aconchego à luz das velas. E foi mais ou menos isto.
Um concerto dos Foo Fighters é uma corrida de fundo, uma maratona de adrenalina e emoção. Isto para os aficionados, claro. Sob a liderança incansável de Dave Grohl, a banda entrega espetáculos épicos com mais de duas horas de duração, onde o rock é rei. O ambiente é sempre de grande comunhão com o público, as guitarras intensas e a bateria vibrante mostram a paixão que colocam em palco. A nostalgia também faz parte da festa, mas foi incrível perceber que há músicas que só os “old school” conhecem (como o próprio Grohl lhes chamou, atirando à plateia canções do terceiro álbum…), outras que apenas os fãs mais recentes da banda cantam. Há sempre espaço para jams instrumentais divertidas e as músicas nunca acabam quando achamos que vão terminar. No final, e resumindo as coisas da forma mais simplista, os concertos dos Foo Fighters terminam de forma apoteótica, com temas como “Best of You”, “Exhausted” (que terminava os concertos do antigamente, ou seja, há mais de 25 anos) e a inevitável “Everlong”. É uma experiência catártica, como alguém disse ao nosso lado, uma missa para os seguidores da religião. Para quem não é fanático, será só mais do mesmo. Vamos ser honestos e justos. Foo Fighters não é a nossa praia (o plural aqui é majestático, ok?) e o concerto foi muito longo. Nada a acontecer, enquanto tocavam, em todo o recinto do Festival. Milhares de pessoas a assistir aos Foo Fighters “can’t be wrong” (perceberam a referência?).
Depois, o mais recente fenómeno teenager, vindo da Suécia, de nome Zara Larsson. No recinto do Palco Heineken não cabia nem meia mosca. Até o oxigénio parecia rarear. Lá dentro, os foliões faziam o carnaval fora de época, um carnaval onde tudo é cor-de-rosa, tudo tem glitter, unicórnios e golfinhos, num ambiente Eurofestival da Canção, de mãos dadas com a Barbieland da Mattel. É bom deixar sonhar. Antes um sonho passageiro e brilhante, do que um pesadelo castrador. Tudo está ensaiado ao milímetro, nada falha, tudo é um enorme bolo de festa e todos querem soprar desesperadamente as velas. Foi mais ou menos assim, a “Symphony” quente na madrugada fresca que se fazia sentir. No dia claramente mais dedicado ao rock, não deixa de ser curioso que a onda poppy-pop de Zara Larsson conseguiu introduzir-se, ganhou espaço, como se tal coisa fosse um prenúncio para a excursão que decorrerá, daqui a menos de 24 horas, rumo ao palco principal do NOS Alive. Oh, my Lorde, suspirarão muitos, quando chegar a hora da artista neozelandesa.
Enfim, havia chegado a hora de correr o pano do teatro da música. Até daqui a pouco, NOS Alive.
Fotografias: Inês Silva




















































































