Oh My Lorde! O choque térmico entre a febre de Lorde e o suor de Buraka na despedida do NOS Alive.
Com o cansaço acumulado, entrámos um pouco mais tarde na reta final do NOS Alive 2026. Daí esta nota inicial de mea culpa, mea maxima culpa. E tanta, que não fomos ao Coreto, a meio da tarde, onde atuou Teresa Esteves da Fonseca, projeto a solo da escritora e cantora que se apresenta como Esteves Sem Metafísica. Confessamos que não sabíamos da sua existência artística, mas só pelo nome já ganhou destaque nestas linhas. Já ganhou o nosso apreço. Prometemos investigar.
Começámos com Teddy Swims e começámos bastante bem. Enorme voz, grande balanço soul, swing para dar e vender. Está em crescendo, este norte americano, tudo à conta de temas como “Lose Control” e “Bad Dreams”. A mistura serve-se com um pouco de R&B, soul, country e pop em doses bem medidas. Mas, voltando ao início, aquilo que mais se destaca é a voz de Jaten Collin Dimsdale. Algumas das suas canções falam de desgostos amorosos e de separações complicadas, o que contrasta com a forma como as canta e com o ritmos apresentados nas composições desses mesmos temas. Fica curioso, o contraste. Curioso também é o facto de voltarmos às covers, que na verdade nos parece uma moda dos tempos que correm. Ontem, foi “Jump”, clássico do rock americanizado de Van Halen. O primeiro verso desse tema serve perfeitamente para resumir o espírito do concerto. Para quem não se recorda, diz assim: “I get up and nothin’ gets me down”. Na mouche. Uma última palavra para os Freak Freely, a banda que acompanha o cantor. Impecáveis!

Fomos, de raspão, espreitar Suzana Francês ao nosso palco de estimação, o Coreto. Interessante, o projeto. Assenta muito bem o violino por sobre as eletrónicas. Gostámos bastante da parte instrumental do que ouvimos, embora a voz da Suzana seja tão afinadíssima quanto o seu Stradivarius (era bom, não era Suzana?). Enfim, havíamos de ser tão rápidos como Lucky Luke, e disparámos até à zona da Press, para a tradicional conferência de imprensa. Desta vez, não houve nenhuma confirmação para 2027, apenas a certeza das datas (8, 9 e 10 de julho) e alguns factos curiosos e impressionantes: mais de 160 mil pessoas nos três dias e mais de 100 nacionalidades presentes entre o público do Festival. Notável!
O concerto da cantora neozelandesa Lorde transformou o recinto num verdadeiro altar de expressão artística e conexão emocional. Com uma presença magnética, a artista hipnotizou o público, desde os primeiros acordes. É também verdade que esse mesmo público estava desejoso disso, o que sempre ajuda. A atmosfera foi transitando entre a intimidade confessional e a euforia coletiva, refletindo a essência da sua ainda curta discografia. Os arranjos das canções ganharam uma nova força ao vivo, preenchidos pelas vozes dos fãs que ecoavam cada verso com fervor. Correndo o risco de esticarmos um pouco a corda, há temas de Lorde que já são clássicos que marcaram uma geração, e eles misturaram-se perfeitamente com as suas composições mais recentes, criando uma narrativa visual e sonora que foi do agrado de quem se deliciou com o concerto. A iluminação minimalista e os cenários conceptuais ajudaram a moldar uma experiência quase teatral, que pouco depois Florence and The Machine iria ampliar. Lorde provou, mais uma vez, ser uma força singular na música pop contemporânea. Ela não apresenta apenas um espetáculo, mas um espaço seguro de celebração e catarse para todos os presentes. O público deixou o recinto com a alma leve e a certeza de ter testemunhado um momento que lhes marcou o dia, a semana, o ano.
Pixies foi a banda que se seguiu. Aqui, o lastro é outro, a história tem décadas, são de outros tempos e, por isso, tudo se passou de maneira diferente. Não há enfeites, não há brilhos nem luzes que piscam e ditam as supostas normas do gosto atual. Há rock, há música, guitarras em riste e o resto já conhecemos há muito. Frank Black continua igual a si mesmo, naquela pose de líder de uma banda que se confunde com a sua vida. “Here Comes Your Man” continua intemporal, um hino que cruzou gerações e mantém-se como firme bandeira da banda, embora tocada ontem em versão mais acelerada do que a original. Aliás, todo o concerto foi assim, sem pausas, sempre a abrir. Fast forward. Quase nem as palmas se ouviam. Deviam querer ir jantar.

Florence Welch surge em palco como uma entidade etérea, descalça e envolta em tecidos esvoaçantes que ganham vida com o vento, que ontem, mesmo assim, quase não existia. A voz rasga o silêncio e ecoa com uma clareza teatral avassaladora. Começou o seu domínio. Entre hinos indie-pop e baladas viscerais, ela rege a multidão com gestos dramáticos, exigindo saltos frenéticos ou silêncios solenes. Essa entrega teatral começa rapidamente a soar a um guião demasiado ensaiado. Já vimos isto há alguns anos, neste mesmo palco. Conhecemos os tiques e os truques. As coreografias repetem-se e tudo se torna algo previsível. Florence Welsh sabe que tem uma multidão a seus pés. Uma multidão que a venera, que tem um brilho nos olhos a cada nota vocal da sua deusa. Há rendição total, um baixar de braços em vassalagem ao encantamento sentido. No entanto, há sempre alguém que resiste, um pequeno gaulês que vira costas ao poder de Florence. Nada disto é um guião de um filme, antes a opinião de quem gosta de ver uma multidão feliz, mesmo não entendendo os motivos de tamanha satisfação e comunhão. A música é mesmo uma coisa mágica…
Preferimos a contemplação de David Santos, de Noiserv. A música dele faz-se como se constrói um objeto de legos sonoros. Essa parece-nos uma imagem que resume a arte deste músico. É sempre interessante perceber a arquitetura mental do som de Noiserv. O minimalismo cuidado, o empenho metódico, o trabalho da composição. Parece mesmo que vemos nascer à nossa frente o que há muito já nasceu na cabeça do autor destas canções de títulos narrativos e poéticos ao mesmo tempo. A elegância de tudo isto é outro aspeto marcante. O estilo nunca se perde. Está a cada contorno, a cada esquina do caminho das canções. Depois de toda esta paz, de toda esta respiração prolongada, estava a chegar a batida tribal dos Buraka Som Sistema.

A importância dos Buraka Som Sistema talvez resida na eficácia com que globalizaram sons europeus (mais londrinos, até) com os de Luanda, transportando-os para a periferia de Lisboa, digamos assim. Em palco, essa fusão de culturas materializa-se num som multicultural que se move em uníssono, transformando palco e plateia num espaço de partilha. Kuduro progressivo em esteróides. Ditam-se as regras e a multidão responde com uma dança intensa e suada. Há muito de tribal nesta avalanche de som, na descarga elétrica produzida. A ideia do concerto parte de um disco surgido há vinte anos. Chama-se From Buraka to the World e, ontem, houve festa rija de comemoração. A prestação foca-se na energia física, sem espaço para subtilezas ou pausas prolongadas. É assim por não poder ser de outra maneira. Kuduro progressivo, repetimos, parece ser um bom rótulo para o que ontem assistimos. Muitos terão ido aos pulos para casa.
Os nossos três dias de NOS Alive foram mais ou menos como vos documentámos. Resta dizer adeus e até para o ano, NOS Alive. É sempre um gosto. Wegue wegue.
Fotografias: Inês Silva


























































































