A noite foi de Nick Cave: um tornado de canções em fúria arrasou tudo à sua volta. Foi simplesmente magnífico!
Um nome maior do que quaisquer outros: Nick Cave era o artista incontornável do primeiro dia da décima oitava edição do NOS Alive 2026. Cada vez mais muito cá de casa, o australiano cidadão do mundo esteve igual a si mesmo, e trouxe-nos canções que parecem talhadas para o fim dos tempos, mas também para o que poderá seguir-se a esse derradeiro instante. A sua alma imensa abraçou-nos a todos, como se fôssemos discípulos (e somos, de facto) da sua poderosa seita musical. A noite foi toda dele.
Já quase no final da tarde e o rock dos Dogstar ladrava a plenos pulmões. Claro que à frente dos californianos estava um recinto cheio de gente. Consta que não apenas para os ouvir, mas mais para ver o baixista Keanu Reeves, aqui num papel bem diferente do das telas, mas sempre com fãs prontas a acenar e suspirar pelo senhor John Wick. “Está muito magro”, dizia-se. Deve ser da vida artística, do rock n’ roll, dizemos nós. Rock americano honesto, daqueles para passar na rádio, sem pretensões a um estrelato estratosférico (parece-nos) e com refrões algo orelhudos. Para quem gosta do estilo, passou ali uma boa horita. Mas nós, que quase nunca paramos muito tempo num mesmo concerto, fomos visitar o Coreto, o palco português mesmo ali por trás, de que tanto gostamos.
Por lá andavam os Neon Soho. Bem giros, sim senhor. Dançáveis e com bom gosto. Pena tão pouca gente a ouvi-los. Efeito Reeves? Talvez não. Talvez só desconhecimento. Por isso, há que espalhar a palavra. Valem bem a pena, soam à pop descontraída dos anos 80, irrequieta e avessa a músculos, braços e pernas quietos. Tudo a mexer, tudo a pular “just to satisfy my ego”. Thumbs up para estes dois rapazes e duas raparigas. Mostram o que são, sem artifícios. Guitarra, bateria, eletrónicas e voz. Siga!
Antes da hora do jantar, fomos dar uma olhadela aos Alabama Shakes e ao seu indie rock swingante. Desde logo, a voz de Brittany Howard é o que se destaca. Poderosa, parece ter raízes na soul e no gospel, aqui encostada um pouco ao som americana meets rock meets country rock, ou qualquer outra coisa indefinida, mas que soa bem. Não fere e aligeira os ouvidos e a alma. Bom aperitivo antes do combustível alimentar. Boa atitude, bom abraço acolhedor da América sulista.
“Get Ready for Love”! Foi assim que começou a tareia que Nick Cave nos deu. “From Her To Eternity” explodiu como uma bomba, martelada a dedo ao piano, o violino em estado louco, a bateria a merecer internamento psiquiátrico. Cave parecia o diabo em palco. “Fuckin Lisbon, how are you?” Que delicioso caos! As histórias que canta são tortuosas, manchadas por angústias e terrores particulares. Nick Cave está sempre à flor da sua própria pele. Como costumamos dizer, não há arte sem inquietação e este “Wild God” é mestre em surgir por detrás de si mesmo, da sua zona sombria, soltando demónios que brincam connosco ao quarto escuro das memórias e dos tempos. Este wild god gosta de nós, faz-nos festas que parecem tabefes doces, cheios de dor, de mágoas, mas também de socorro e redenção. E soltam-se espíritos (“bring your spirit down”), crianças correm nos campos das passadas infâncias, e viramos páginas que parecem vindas de romances densos e carregados (“O children / Lift up your voice, lift up your voice / Children / Rejoice, rejoice”) com personagens desenhadas a preto e branco, na cinza do carvão. “Tupelo” pareceu ainda mais macabra do que a versão original, quase sísmica. Que imenso e duradouro arranque de concerto! Depois, aquelas baladas que derretem glaciares, a atenção à palavra, ao encanto da palavra. Tudo estupendo. “This is what we do and this is what we are”. Esta frase, dita no arranque de “Rings of Saturn” resume este monumento chamado Nick Cave. Que gigante! Como gigantes são os seus músicos, as suas (nossas também, claro) Bad Seeds. E o que dizer de “Henry Lee”, que não seja só para endeusá-la? E o desfile continuou: “The Weeping Song”, “Red Right Hand”, “Jubilee Street”, terminando o concerto com a longa e tremenda “Hollywood”. Cantar “I’m gonna buy me a house up in the hills / With a tear-shaped pool and a gun that kills” nunca nos soube tão bem, mesmo enquanto a ouvimos com tanto prazer, de uma ponta a outra, na rodela de Ghosteen. Essa faixa termina o álbum de 2019, e ontem colocou um ponto final a um concerto fabuloso!!! Em maiúsculas, FABULOSO!
Claro que houve encore. “City of Refuge”, “Wide Lovely Eyes”, que dedicou à mulher, Susie, porque a canção é sobre ela, e a inevitável “Into My Arms”. Cantámos com Nick Cave essa canção do outro mundo. Foi comovente, foi deslumbrante, foi o que tantas vezes acontece, quando estamos perante esse colosso australiano. A sensação de que o Alive poderia acabar no instante final de “Into My Arms” perdurou e perdurou e perdurou… This is the shit!
Ainda havia Matt Berninger para ver, é certo, mas por muito que o respeitemos, depois de excelente tareia emocional de Nick Cave, nada parecia valer a pena. Mesmo assim, e porque o trabalho a tanto obriga, fomos ouvir o líder dos The National. A voz de barítono continua a mesma, a rouquidão e a melancolia também. Houve momentos mais catárticos, outros mais explosivos, mas o que tínhamos assistido anteriormente… Enfim, Matt Berninger merece consideração e comparar o que não é comparável, quase nunca faz sentido. Em nome próprio, no entanto, talvez falte a Matt Berninger a epicidade dos The National (de novo as malditas comparações!), mas foi intenso e simpático, o que o músico nos tinha reservado.
Já próximo do final da longa maratona do primeiro dia do NOS Alive 2026, o espaço foi dado ao público mais adolescente. Os Twenty One Pilots fizeram uma viagem imersiva pela discografia em carteira. A energia contagiou os mais jovens e Tyler Joseph e Josh Dun, grandes amigos de longa data, equilibraram momentos de grande intensidade com instantes mais intimistas. O alinhamento destacou a narrativa visual e conceptual dos seus álbuns, alternando temas mais explosivos, e nesses o público todo dançou e saltou, e baladas mais emotivas, dando-se destaque ao piano. Uma bateria que não parou um instante, teclas chamadas à ação várias vezes, uma guitarra, e muita música gravada. Josh Dun acabou mesmo por subir à torre alta ao lado do palco principal do recinto, onde previamente foi instalada uma bateria, para ele ali tocar. Um momento inusitado, sem dúvida. O espetáculo foi marcado por uma forte ligação aos fãs, cenografias dinâmicas e uma execução eufórica e visualmente digna de menção. Os fãs não se esquecerão tão cedo do concerto.
Como já se fazia tarde, fechámos a caderninho das notas, e despedimo-nos do Passeio Marítimo de Algés até dali a umas horas.
Fotografias por Inês Silva, excepto Nick Cave e A Perfect Circle, gentilmente cedidas pela organização
















