Há estreias que procuram convencer de imediato. Vendavais, de PICAS, prefere insinuar-se, e é bem melhor assim.
Vendavais não é um disco que revele tudo à primeira audição, nem parece preocupado em definir, de uma vez por todas, a identidade da artista. Pelo contrário, a sensação dominante é a de estarmos perante uma compositora em pleno processo de descoberta. E essa circunstância, longe de ser um obstáculo, acaba por ser uma das maiores virtudes do álbum.
PICAS escreve como quem evita conclusões precipitadas. As canções vivem mais da sugestão do que da afirmação, mais da atmosfera do que da procura de grandes momentos. Há uma delicadeza constante na forma como as melodias se desenrolam, recusando o dramatismo fácil e deixando que cada tema encontre o seu próprio tempo. Num panorama onde tantas estreias parecem ansiosas por provar tudo ao mesmo tempo, Vendavais distingue-se precisamente pela contenção, sobretudo depois de passadas as primeiras faixas do disco (“Quem Eu Quero Agora”, “Pop Star” e “Nos Meus Lençóis”), todas elas bem pop.
O centro do disco é a voz. Se há timbres que impressionam pela potência, o de Picas conquista por outra razão. É uma voz límpida, luminosa, que raramente força a emoção e que parece confiar na simplicidade da interpretação. É uma voz que, na sua essência, soa a juventude eterna. Essa naturalidade, digamos assim, torna-se um dos elementos mais sólidos do álbum e deixa perceber que existe aqui uma cantora com margem para crescer sem precisar de reinventar aquilo que já faz bem.
Nem tudo, porém, soa plenamente resolvido. Há momentos em que a escrita parece hesitar entre uma pop mais direta (os casos mencionados mais acima) e um registo mais contemplativo, como se essas duas linguagens ainda disputassem o mesmo espaço. Em vez de comprometer o disco, essa tensão acaba por lhe dar carácter. Vendavais soa precisamente ao que é: o retrato de uma artista em transição, ainda a testar os limites da sua linguagem. E isso, como bem se sabe, é o que, tantas vezes, define um artista.
Curiosamente, são as canções mais despojadas que deixam a impressão mais duradoura. Quando os arranjos respiram melhor e a produção se torna menos densa, a música ganha outra profundidade. A voz encontra espaço para revelar nuances, as melodias permanecem mais facilmente na memória e percebe-se que é nessa economia de meios que Picas se move com maior segurança. Esses momentos sugerem um caminho artístico particularmente interessante, onde a pop se aproxima de uma sensibilidade mais indie sem perder, naturalmente, capacidade de comunicação.
É por isso que a notícia de um segundo álbum, já em preparação e apontado a uma estética mais assumidamente indie pop, desperta expectativa. Se Vendavais documenta uma fase de procura, o próximo trabalho poderá representar a consolidação dessa identidade. Os sinais estão aqui, ainda que dispersos: basta ouvir com atenção as faixas mais serenas para perceber que existe um rumo a desenhar-se ou, como referimos inicialmente, a insinuar-se…
Antes desse novo capítulo, haverá oportunidade de acompanhar essa evolução ao vivo. PICAS sobe ao Palco Coreto do NOS Alive, a 10 de julho, numa atuação que poderá funcionar como um ponto de passagem entre o disco de estreia e aquilo que está para vir. Será interessante perceber como estas canções, muitas delas marcadas pela intimidade, se transformam diante de um festival. Foi isso que a artista nos prometeu, em conversa privada, há coisa de algumas semanas. Vamos lá estar, Picas, para conferirmos essa verdade.
Também o objeto físico merece uma palavra. Numa época em que a imagem tantas vezes serve apenas de complemento, Vendavais revela um cuidado gráfico coerente com a música que contém. As fotografias de Rafaela Lopes, na capa e na contracapa, evitam o excesso e encontram uma beleza discreta, reforçando a identidade visual do projeto sem a sobrecarregar. É um detalhe que ajuda a perceber que existe aqui uma preocupação em pensar o álbum como uma obra completa.
Vendavais não soa a ponto de chegada. Soa, antes, a começo. Os versos eternos na voz de Tony de Matos (“O vendaval passou, nada mais resta”), não fazem aqui qualquer sentido. E talvez seja essa a melhor forma de o escutar: não como a definição acabada de uma artista, mas como o primeiro capítulo de um percurso que promete ganhar contornos mais nítidos. Há discos de estreia que pedem confirmação; este desperta curiosidade. E, no contexto da nova pop portuguesa, essa pode ser a qualidade mais difícil de conquistar.