Panda Bear deu um concerto que vive do contra-luz, transformando a banda em 5 silhuetas recortadas e adoçou-nos com batidas quebradas, repetições que nunca se resolvem totalmente, uma sensação de instabilidade controlada.
No passado dia 10 de junho, Panda Bear regressou finalmente a Lisboa para recuperar o concerto que tinha ficado por concluir dias antes, interrompido ao fim de apenas três temas devido a uma falha elétrica. A expectativa era, por isso, acompanhada por uma inevitável sensação de assunto inacabado. À hora marcada, a sala parecia menos preenchida do que seria de esperar. A proximidade de calendário ao Primavera Sound Porto, onde Noah Lennox e a sua banda actuaria apenas dois dias depois, podia ajudar a explicar a fraca afluência, não fosse o atraso de cerca de 30 minutos ter alterado por completo essa percepção. Enquanto a espera se prolongava, mais pessoas chegavam, dissipando qualquer receio de uma noite morna. Quando as luzes finalmente se apagaram, a sala apresentava já uma moldura humana bem mais condizente com a dimensão do nome que estava prestes a subir ao palco.
O concerto abriu com “Shepard Tone”, seguida sem pausas por “Song for Ariel”. É a tradução perfeita da forma como Panda Bear constrói o seu palco e o seu espetáculo: quase sem paragens, com transições suaves e extensões das canções que se acabam por confundir com a canção seguinte. Uma espécie de colagem expandida e expansiva onde tudo está a acontecer. Assim os sintetizadores e a voz de Noah surgem logo em camadas densas e hipnóticas partindo para “Sequential Circuits”, que trouxe aquele efeito de loop orgânico que já vem de trabalhos anteriores como Person Pitch, ou das colaborações com Sonic Boom – parceria que voltará a dar frutos já a 10 de julho, com a edição de “A ? Of When”. Em “Ferry Lady”, música que se seguiu, a voz principal cruzava-se nos refrões com a de Maria Reis. As duas vozes, sempre que somadas, confundem-se por instantes. Os timbres são próximos o suficiente para criarem uma terceira textura vocal, mas mantêm diferenças subtis que impedem essa fusão de ser completa: uma mais etérea, outra mais terrena, ambas a funcionar como extensões de uma mesma ideia para a canção. Esse tipo de sobreposição vocal, que também aparece muito no universo dos Animal Collective, ganha aqui uma leitura mais psicadélica e menos directa.
O concerto seguiu numa sequência que compilou “Boneless”, “Tomboy” e “The Preakness”. Batidas quebradas, que são sua imagem de marca, repetições que nunca se resolvem totalmente, uma sensação de instabilidade controlada. É uma linguagem já bem conhecida em Panda Bear. A bolha sonora continua a expandir-se com a chegada de “Ends Meet”, “Virginia Tech” e “Just As Well”. A luz acompanha essa ideia de recusa de um centro plano. Quase todo o concerto vive do contra-luz, transformando a banda em 5 silhuetas recortadas e sempre que a luz frontal aparece brevemente, de maneira quase acidental, rasgava o ambiente criado anteriormente, como aconteceu em de “Slow Motion” ou durante a cadência envolvente de “Alsatian Darn”. O encore aconteceu ao som de “Inner Monologue” e terminou com o esperado “Take Pills”, num pace mais lento, sem uma pulsação definida que encerrou a noite.
Quando as luzes de presença se acenderam ao som de “Kokomo” dos Beach Boys, que serviu de outro do espetáculo, a sensação foi a de ter passado por um concerto seguido do início ao fim, quase sem paragens, onde até o outro que apesar de ser dos Beach Boys, assentava no final do concerto que nem uma luva. Tal como as canções de Noah se fundiram umas nas outras ao longo da hora e vinte de concerto, também a experiência do lado da plateia funcionou como um bloco único, onde o tempo se tornou mais difícil de medir do que o habitual.
Texto de Luís Judícibus, fotografias de Gonçalo Nogueira.









