P’ró Que Der e Vier é um disco de fim de linha, uma explosão pouco contida de frustrações, ora lírico e metafórico, ora intransigente e pouco subtil na sua subversão e apelo às armas
Em 1974 Fausto Bordalo Dias não tinha nada a perder. Depois de quatro anos afastado dos discos (o seu primeiro álbum – Fausto – é de 1970), gravou em Madrid, nos últimos meses da ditadura, um conjunto de canções que já deixavam antever o contador de histórias em que se viria a tornar, com o seu lado mais metafórico e fantasioso, sendo ao mesmo tempo hilariantemente pouco subtis na sua subversão e apelo às armas.
O elenco de P’ró Que Der E Vier é de luxo. Adriano Correia De Oliveira e José Niza produziram, e os amigos Zeca Afonso, Vitorino e Adriano (novamente) ajudaram com coros, palmas, e até um sintetizador Moog na faixa que dá nome ao disco. A música e as letras são, na sua maioria, de Fausto, mas, até aqui, o artista soube rodear-se de mestres. “Daqui Desta Lisboa”, que abre o disco, musica um belíssimo poema de Alexandre O’Neill, “Não Canto Porque Sonho”, que mostra Fausto no seu lado mais lírico, vai buscar Eugénio de Andrade e “A Flóber” tem letra de Mário Henrique Leiria, assim como nos poemas de “Carta de Paris” e “Comboio Malandro” que são da autoria de Daniel Filipe e António Jacinto, respetivamente. A. P. Braga participa na escrita de, entre outras, “O Homem E A Burla”, numa colaboração que já vinha de trás e que aqui foi continuada.
É um disco de fim de linha, onde as canções alegres contrastam com os temas sérios abordados, como a pobreza e a exploração das classes mais baixas. A fotografia de uma parede num bairro de lata, que ilustra a capa, também não está com paninhos quentes: representa bem o acumular das frustrações de todo um povo, e o tal sentimento de não ter nada a perder, que pautou o período fervilhante imediatamente antes da Revolução dos Cravos e dos primeiros meses do PREC. Em “É Tão Difícil” ouvimos, cantadas por uma voz frenética, referências pouco veladas à Guerra Colonial e ao fim da situação que lhe deu origem – “É tão difícil ficar-se num barril / De pólvora quase a estoirar”. “Venha Cá Sr. Burguês” soa a uma bem-humorada continuação da canção “Senhor Marquês” que Sérgio Godinho lançou em 1972, denunciando a pobreza dos operários e deixando bem claras os ideais de esquerda que tanto associamos àquele período – “Pois se nunca trabalhou / Roubando ao trabalhador / Foi o trabalhador quem o pagou”. Continuando sem ter medo de ser explícito, Fausto reforça estas ideias em “Nós e o Patrão”, onde chega mesmo a apelar à violência, perdendo a subtileza e as metáforas, mas mantendo o tom gozão na melodia e no ritmo – “Mas isto vai acabar / À porrada no patrão!”. “Marcolino” (que talvez alguns leitores tenham conhecido através da excelente versão dos Capitão Fausto) é provavelmente a faixa mais experimental do álbum, com a sua guitarra e os seus coros psicadélicos e com efeitos sonoros e mudanças musicais inesperadas, mas não deixa de ser também descaradamente subversiva, como ilustra bem a estrofe final do poema, cantada por Fausto na sua icónica voz nasalada – “A perder nada tenho / Talvez a vida… tanto faz / Na vida tenho a ganhar lutando / Sozinho é que não sou capaz / Mas há muitos como eu / Mesmo centenas de milhares / Dispostos a lutar e vencer / Tudo para a frente e nunca para trás”.
Em abril de 1974, cansado da guerra e da miséria, o povo português estava para o que desse e viesse e Fausto, membro indispensável desse tão belo grupo que são os Cantores de Abril, tirou-lhe bem o pulso. Em P’ró Que Der e Vier, um clássico injustamente mal-amado, pede que se olhe em frente com esperança, e que não se olhe para trás a não ser para manter presente a memória dos erros do passado, para que não se repitam. Cinquenta anos volvidos, é boa ideia voltar a escutar as palavras de Fausto e dos seus camaradas, para que sejamos sempre muitos, como Marcolino.